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Desconhecimento gulaguiano

26 de Outubro de 2009 por Tiago Mota Saraiva

O alegado desconhecimento gulaguiano da deputada do PCP Rita Rita, já motivou tanta escrita que é impossível de referenciar sem a ajuda do Paulo Querido e de um daqueles seus agregadores. Os textos publicados, excluindo propositadamente os de teor machista, podem dividir-se em dois tipos de comentário:

1. [versão intimista] Conheço a Rita Rato desde criancinha. Já aos 6 anos, em plenários dos pioneiros, fazia críticas vergonhosas à Perestroika, sobretudo no que diz respeito à forma como Gorbatchev tratava o papel das mulheres.

2. [versão tecnocrata] O desconhecimento da Sra. deputada do PCP, apenas reflecte que a discussão em torno dos Gulag e o ensino de boas práticas estalinistas é uma matéria, diariamente, presente na acção política do PCP.

A minha versão é um pouco menos fabulosa e consideravelmente mais desinteressante.
Num contexto duma entrevista que imagino extensa, a Rita Rato julgou que havia coisas mais interessantes sobre as quais gostaria de falar. Respondeu rápido para passar à frente.
Para continuar a discussão, seria importante clarificar que respostas terão ficado fora da entrevista publicada (e já agora os seus motivos) e analisar as respostas de cada um dos deputados se, um dia, um qualquer jornalista cometesse a ousadia de fazer umas quantas perguntas objectivas sobre os Gulag (sem espaço para chavões ou resposta-tipo)?

Comentários

Comentário de antónimo
Data: 26 de Outubro de 2009, 18:04

Julgo que lá na unidade curricular – dantes dizia-se cadeira – de Entrevistas I ensinam que sempre que se entrevista alguém do Partido Comunista Português há questões obrigatórias.

Versam sobre conteúdos de relações internacionais e história contemporânea. Designadamente deve abordar-se a História da União Soviética entre 1933 e 1953 (interrompendo na parte da II Guerra Mundial) e da República Popular da China na fase da revolução cultural, até à morte de Mao Tsé Tung em 1976 (quando o pacheco pereira e o durão barroso já tinham abandonado as militâncias).

Claro que como diz Ricardo Noronha, aos governantes do PS e do PSD perguntas sobre a China (ou sobre Angola) devem ser mais actuais e só devem ser feitas sob o ponto de vista da Economia portuguesa e nunca como se fosse um quizz de relações internacionais sobre a URSS dos anos 50

Comentário de Verdasco
Data: 26 de Outubro de 2009, 19:33

Sou vosso leitor habitual. Sou, também de direita. Nunca vi um assunto causar tanto embaraço à maior parte dos que aqui escrevem. Todos a tentar justificar as declarações da Rita Rato. Este post encena mesmo a entrevista, para melhor explicar o que foi dito.

Afinal, qual a vossa opinião sobre os gulags? Acho que é o que eu gostava mesmo de saber. Acham que existiram? Se sim, foram bons? Maus, mas necessários? Há tempos li um texto do Carlos Vidal em que ele disse que nao renegava as experiências do estalinismo (peço desculpa se estiver a interpretar mal).

Quanto às relaçoes do PS e PSD com Angola ou China, julgo serem de teor diferente. Uma coisa é a hipocrisia de fechar os olhos ao que lá se passa, para fazer negócios. Outra é ser militante de um partido que defende que o que lá se passa devia passar-se cá.

Quanto ao facto de a Rita Rato poder ter achado que havia coisas mais imprtantes para falar, nao será importante saber o que é que um membro de um partido que defende “experiências socialistas” que incluiram os gulags, pensa? O que diriam de um partido neo-nazi que dissesse “queremos tudo, mas sem os fornos?”

Obrigado

Comentário de Pascoal
Data: 26 de Outubro de 2009, 19:54

“Rita Rato julgou que havia coisas mais interessantes sobre as quais gostaria de falar”
Que é como quem diz: Fez-se de parva.

Comentário de Rafael Coutinho
Data: 26 de Outubro de 2009, 20:04

Parabéns a todos pelas notícias e opiniões de altíssimo nível. Tenho um blog de economia (http://economia.bicodocorvo.com.br/) e coloquei um link pra vocês nele. Se puderem retribuir, eu ficaria muito grato.

Abraço e muito sucesso com o site!

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 26 de Outubro de 2009, 20:32

Verdasco independentemente de entender que Estaline fez mais contra o movimento comunista do que muitos anos de anti-comunismo, a experiência socialista da URSS não se pode/deve reduzir aos seus desvios.
Houve grandes avanços e grandes erros que devem ser analisados.
Como é óbvio, todos os que se opõe à identidade revolucionária e libertadora dos ideais comunistas interessam-se por apenas valorizar os erros do socialismo real e, sobretudo, momentos históricos e específicos em que os seus dirigentes abdicaram dessa luta, repetindo modelos repressivos e ignóbeis como os gulag.
Neste aspecto, vivemos uma espécie de ditadura do politicamente correto em que, tudo o que não seja a crítica violenta da URSS é uma ode anti-democrática.

Comentário de pedro bala
Data: 26 de Outubro de 2009, 20:56

Se fosse um dos autores deste blogue, dedicaria o meu tempo a uma interessante contradição de Francisco Louçã. Agora, é contra o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo sob o argumento de que não se devem referendar questões que apenas dizem respeito a cada um de nós. O que está correcto. Mas quando o PCP usou o mesmo argumento para contrariar o referendo à despenalização da IVG, caíram todos os esquerdistas em cima. É assim o oportunismo…

Comentário de Henrique Morais
Data: 26 de Outubro de 2009, 21:10

Pois olhe que eu reduzo a experiencia Nazi (e de la vieram algumas politica sociais que hoje usamos) aos seus devios, nao tendo problema nenhum em fazer o mesmo relativamente a URSS de onde tenho alguma dificuldade em recordar os “grandes avanços” la praticados e que sejam hoje aplicados na nossa europa.

P.S. Esta comparaçao Nazismo Vs Comunismo pode ser repetitiva, mas quando a barbarie cometida na russia e justificada de alguma forma, da-me tanta volta ao estomago como quando ouço Le Pen dizer que as camaras de gas foram um pormenor e que o Hitler desenvolveu a alemanha.

Comentário de Chico da Tasca
Data: 26 de Outubro de 2009, 21:31

É evidente que o Estaline foi o ponto alto da Repressão Comunista, mas o Comunismo já era um regime e uma ideologia Totalitária e Criminosa antes do Estaline e continuou-o a ser depois.

Ou seja, o Comunismo é intrisecamente uma ideologia Repressiva e Atentatória dos Direitos Humanos.

É bom que se recorde que os Comunistas Lusos não têm pejo em recordar o pasado salazarista (no caso do museu de Santa Conba, por exemplo) mas branqueiam o seu próprio passado sujo, incomparavelmente mais sujo que o Slazarismo.

Comentário de ezequiel
Data: 26 de Outubro de 2009, 21:43

isto está cada vez mais ridículo! tanta treta em redor da ignorância ou da estupidez de alguém…

Comentário de Daniel Santos
Data: 26 de Outubro de 2009, 22:13

Não respondeu porque não queria perder tempo… está bem visto.

Comentário de Pedro Martins
Data: 26 de Outubro de 2009, 22:20

Está tudo muito bem no que o Tiago diz. A única coisa estranha é que essa ilimitada capacidade de compreensão desaparece a partir do momento que o visado deixa de ser do PC!!
Não fora isso e estaria tudo muito bem.

Comentário de Pisca
Data: 26 de Outubro de 2009, 22:22

Se me fizessem uma pergunta dessas ,só responderia:

- E se fosse à merda mais a encomenda que lhe fizeram ? Nem faz ideia do que está a falar, quanto mais entender qualquer resposta ?

Comentário de Asdrubal de La Palisse
Data: 26 de Outubro de 2009, 22:49

Ó Tiago, se escreveu esta posta de maruca só para dar aquela sua versão caricata, mais valia ter ficado quieto.

De qualquer maneira, ainda estou para saber o que é que os militantes comunistas dizem sobre a questão. Talvez você nos possa fazer esse favor.

Comentário de José Seabra
Data: 26 de Outubro de 2009, 23:32

Será que não há mais nada de interessante e realista para os dias de hoje, para falar?
Terão os Gulags soviéticos (Stalinistas)essa impotância capital para portugal, como a que lhe estão a dar?
Rita Rato vai propor na AR a criação de gulags em portugal?
Vale este tema esta perca de tempo?
Pois eu gostaria mais que se discutise, se é justo que o nosso Presidente da República esteja a receber 3 reformas mais o salário de PR?
É justo que existam em portugal cidadãos de 1ª e de 2ª, uns com direito de acumolar reformas e salário e outros a terem de trabalhar até aos 65 anos de idade?
Porque abandonou a esquerda a luta pela reposição da idade de reforma aos 62 anos para as mulheres (alteração feita por Cavaco Silva quando 1º ministro, o mesmo que tem 3 reformas e um salário)?
É justo,num país onde existe a maior taxa de desemprego se continue a promover e premitir o duplo emprego?
É justo que hajam servidores do estado que possam acumolar funções e salários ao mesmo tempo que se proibe outros de o fazerem?
É justo que o unico Ex-presidente da República (Ramalho Eanes)que não podia perante a lei acumolar reformas (Tinha de optar pela reforma de general ou pela reforma de Ex-presidente), fosse feita uma lei, só para que ele pudesse acumolar as duas?
Vamos discutir coisas sérias.

Comentário de Verdasco
Data: 27 de Outubro de 2009, 0:17

Tiago, obrigado pela sua resposta. Se puder responder a outra questão, fico-lhe ainda mais grato.

O Tiago diz que “a experiência socialista da URSS não se pode/deve reduzir aos seus desvios”

Admitindo que os gulags foram desvios, quer dizer que considera positiva a experiêcia soviética ante e pós gulag? Os gulags foram instituídos já com Estaline, mas ainda no tempo de Lenine havia campos com a mesma função. E, mesmo depois de Khrushchev as coisas não foram, digamos, fáceis. Houve a Hungria, houve a Checoslováquia, continuaram campos de reeducação, ou lá o que é. Isso não são desvios?

Se, no meio de tanta coisa desviada, lá aponta uma ou duas que estavam certas, não serão antes essas duas que são um desvio?

Comentário de antónio
Data: 27 de Outubro de 2009, 0:27

Devo estar aqui a mais.

Só no sentido que acho que isto não é, não foi e provávelmente nunca será assunto.

Vou ligar agora mesmo para a BBC (e quem diz BBC, diz as outras todas que há no cabo ou no raio que o parta) e ver se eles estão a falar disto.

Só podem estar, também não devem ter mais nada que dizer…

:-( (

Comentário de ezequiel
Data: 27 de Outubro de 2009, 2:46

” Rita Rato vai propor na AR a criação de gulags em portugal? ”

Isto está cada vez mais hilariante. Bendito o dia em que a Rita não respondeu à questão que lhe foi colocada.

Eu proporia a construção de um Gulag em Mirandela. Seria uma fantástica unidade de turismo rural exclusivamente centrada no mercado “comuna”, com muitas actividades proletekas.

Comentário de ezequiel
Data: 27 de Outubro de 2009, 10:16

Tiago,

Reduzir o comunismo aos seus “desvios” é um erro, dizes tu.

Foi um desvio de 33 anos.

Um fascista poderia dizer que o Salazar foi um “desvio” do fascismo.

Brilhante manobra intelectual!!

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 27 de Outubro de 2009, 11:48

Ezequiel, reduzir o comunismo à experiência soviética é um erro.

Comentário de ezequiel
Data: 27 de Outubro de 2009, 12:50

Tiago,

Poupa-me, por favor. Isto assim é doloroso. Se reduzir o comunismo à experiência soviética é um erro…um erro ainda maior seria excluir a experiência soviética do comunismo. Quando avalias o capitalismo “nefasto” nunca fazes estas qualificações. Para ti, o capitalismo actual é a materialização da ideologia capitalista. Certo? Eu poderia dizer que o capitalismo actual é um desvio do verdadeiro mercado livre.

Além disso, meu caro, não me explicas porque é que reduzir o comunismo à experiência Soviética é um erro. Será que julgas que isto é suficiente?? No Comité, talvez. Aqui, não. É um perfeito absurdo excluir do comunismo as experiências Soviética, Chinesa, Alemã etc. Pela mesma razão que seria um absurdo excluir o capitalismo qua ideologia da “experiência” capitalista. Se tiveres tempo, posso tentar explicar porque é que o totalitarismo está implícito na ideologia comunista. Poderíamos começar pela presunção da infalibilidade cognitiva que permeia todo o patético cientismo Marxista.

Vamos lá…se és comuna convicto, vai à luta pá…LOL LOL
eu adoro vocês. só falta aqui o Lidador. LOL

Comentário de ezequiel
Data: 27 de Outubro de 2009, 12:54

Vocês são uns padrecos ressabiados. É um erro, e pronto. A malta tem que se contentar com a Vossa infindável sabedoria. (e é aqui mesmo que começa a merda do totalitarismo, na Vossa imensa soberba cognitiva…)

Queres que eu diga o quê?: sim, senhor Tiago, é um erro. acredito em si.

Vocês são uns padrecos. Assumam-no.

Comentário de antónimo
Data: 27 de Outubro de 2009, 16:30

Tenho ouvido tanto neo-liberal elogiar o chile de pinochet, mas nunca vejo nenhum jornalista questionar os aadeptos do neo-liberalismo – durões barrosos, passos colehos, bagões félix – com perguntas de história da américa do sul, nos anos 70 e 80.

Há tempos, um tipo que vomita opinião na sábado, no dn (e o fez tb no cm) elogiou a acção de pinochet que tinha mandado uns esbirros partir a mão de Victor Jara, o que tinha sido uma benção para a música. Claro que lhe partiram a mão simbolicamente, para não poder mais tocar guitarra, enquanto o torturavam e antes de o matarem. Pouco interessa a esta gente que o Chile vivesse uma experiência de socialismo real eleito. Isso pouco interessa aos directores que o têm publicado.

Vão-me dizer que é pelos interesses económicos e que por isso não é do nível das acusações (fundadas, repito) à URSS? Fazendo minhas as palavras de outros (como Verdasco), parece-me ser importante que os defensores da escola de Chicago – políticos, opinadores ociosos inúteis, como Alberto Gonçalves, e jornalistas, como Marcelino e outros, nos dissessem se é este tipo de regime que defendem: O que derruba governos eleitos e democráticos cuja acção não lhes interessava, torturava e matava. Sabemos bem como tiram a liberdade de expresãoe de se alimentarem e de pagarem a casa, em nome da liberdade de fazer negócios

Comentário de nando
Data: 27 de Outubro de 2009, 20:25

Há aqui duas situações: ou a deputada não sabia dos gulags, o que é extremamente improvável, ou teve medo de ofender a doutrina do nosso partido estalinista. Não pode haver maior causa contra-revolucionária: negar que foi em nome da Revolução que mais revolucionários foram silenciados, explorados e mesmo assassinados. Tudo o que PCP emana é uma imagem fétida de fanáticos religiosos com medo de ofender a santa igreja.
Não tenham medo de assumir os erros do passado, o PCP não deve nada a ninguém: uma verdade não é intemporal. Em tempos, o PCP foi um partido que aceitou os gulags; hoje pode não ser. Tenho vergonha que haja comunistas, mas acima de tudo, DEPUTADOS, que manifestem uma falta de cultura de todo o tamanho, ou a um nível mais realista, medo de ofender a sua doutrina (que seria, aliás, algo impossível: os gulags não nascem do comunismo, como os campos de concentração não nascem do fascismo).

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