A política a partir de baixo e a economia moral da multidão
26 de Outubro de 2009 por Zé Neves“Quando falamos de política tendemos a conceber uma actividade profissional que ocupa o quotidiano de executivos governamentais e representantes parlamentares. Entretanto, sabemos que esta limitação destitui de politicidade a actividade dos que estão à margem daqueles círculos institucionais. Importa por isso recolocar a relação entre política e grupos menos privilegiados num plano de debate que não esteja subordinado aos critérios definidos no quadro daqueles círculos institucionais, critérios estes que tendem a ignorar o que se poderia entender como experiências plebeias da política, experiências que remetem para conceitos como “economia moral da multidão” ou “armas dos fracos” e ecoam a história de inúmeros casos de resistência quotidiana e rebeldia popular”.
Esta terça-feira, no Teatro Maria Matos, a antropóloga Paula Godinho e a historiadora Fátima Sá vão discutir estas e outras coisas, num debate intitulado a política ‘a partir de baixo’. É às 18h30 e deixo-vos aqui, igualmente, a sugestão de leitura para o debate, feita pela unipop. Trata-se de um excerto de um livro recentemente editado pela Antígona, ”A Economia Moral da Multidão na Inglaterra do Século XVIII”, de Edward Palmer Thompson.

“Muitos dos nossos historiadores do desenvolvimento podem ser acusados de um reducionismo económico crasso por eliminarem as complexidades inerentes à motivação, à conduta e ao desempenho, o que aliás levaria esses mesmos historiadores a protestar, caso descobrissem semelhante limitação no trabalho dos seus colegas marxistas. As suas explicações comungam de uma mesma debilidade: uma visão redutora do homem económico. Verdadeiramente surpreendente talvez seja o ambiente intelectual-esquizóide que permite que esta historiografia quantitativa co-exista (nos mesmos locais e por vezes nas mesmas mentes) com uma antropologia social que dimana de Durkheim, Weber ou Malinowski. Sabemos tudo acerca do delicado tecido de normas e reciprocidades sociais que regulam a vida dos ilhéus de Trobriand e acerca das energias psíquicas envolvidas nos cultos de carga da Melanésia; mas nas nossas histórias, a determinada altura, esta criatura social infinitamente complexa, o homem da Melanésia, torna-se o mineiro de carvão inglês oitocentista que leva espasmodicamente a sua mão à barriga e reage a estímulos económicos elementares.
À perspectiva espasmódica contraporei a minha própria perspectiva. Em quase todas as acções da multidão oitocentista é possível encontrar alguma noção legitimadora. Através do conceito de legitimação, pretendo afirmar que os homens e as mulheres da multidão acreditavam estar a defender direitos ou costumes tradicionais e, em geral, de terem o apoio de um amplo consenso comunitário. Em determinadas ocasiões, este consenso popular era confirmado por algum tipo de resolução da parte das autoridades. Mais frequentemente, porém, o consenso era de tal modo forte que se sobrepunha a sentimentos de medo ou deferência.
Os motins de subsistência em Inglaterra, no século XVIII, eram uma forma de acção popular directa altamente complexa e disciplinada, com objectivos claros. Saber em que medida foram estes objectivos atingidos – ou seja, até que ponto o motim de subsistência foi uma forma de acção “bem sucedida” – constitui uma questão demasiado complexa para ser tratada no âmbito deste texto. Mas a questão pode pelo menos ser colocada, em lugar de ser, como costuma acontecer, simplesmente abandonada e ignorada. Para que tal suceda, contudo, há, primeiro, que identificar os objectivos da própria multidão. É por certo verdade que os motins eram provocados por grandes aumentos dos preços, por práticas abusivas da parte de comerciantes ou pela fome. Mas agravamentos opróbrios como estes ocorriam no quadro de um consenso popular acerca do que eram as práticas legítimas e as práticas ilegítimas do mercado, da moagem, da produção de pão, etc.. Esse quadro, por seu turno, assentava num sólido e tradicional entendimento acerca das normas e obrigações sociais, e das funções económicas inerentes aos diversos sectores da comunidade, que, no seu conjunto, podem ser descritos como a economia moral dos pobres. Afrontar semelhantes preceitos morais constituía habitualmente um motivo para a acção directa – tanto quanto a efectiva privação.
Embora não possa ser descrita como “política” em nenhum sentido mais avançado do termo, esta economia moral também não pode ser descrita como apolítica, uma vez que supõe noções definidas do bem comum, que, diga-se, eram apaixonadamente defendidas. Noções a que o povo dava eco tão estrepitosamente que as próprias autoridades se tornavam, em certa medida, suas prisioneiras. Esta economia moral repercutiu-se assim sobre a política governamental e o pensamento do século XVIII de modo muito abrangente, não emergindo apenas em momentos de perturbação. A palavra “motim” é demasiado pequena para englobar tudo isto.”

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