A culpa é do manchinhas
25 de Outubro de 2009 por Ricardo Noronha
A propósito do celeuma causada pelas declarações da deputada Rita Rato, pouco tenho a acrescentar (mas nada me impede de o tentar). Dá-se o caso de eu, ao contrário da maioria dos comentadores do assunto, ter realmente conhecido pessoalmente a Rita, quando ambos éramos militantes da JCP na FCSH (a «nova»). Do que entretanto se passou e dos caminhos – seguramente muito distintos – que ambos percorremos, não cumpre aqui falar.
Não me parece que a Rita desconheça o que se passou nos campos de concentração da URSS ou o que se passa na China. A propósito deste segundo caso, é sabido por qualquer comunista que os trabalhadores daquele país não se podem organizar livremente para defender os seus interesses colectivos. Aqui chegados, parece-me que só pode assistir a um comunista a faculdade de reconhecer aos outros – incluíndo aos que vivem noutro continente – os direitos que exige para si. Poder vender livremente a sua força de trabalho e associar-se para o fazer nas melhores condições possíveis – eis o terreno histórico sem o qual a emancipação dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores se torna muito duvidosa. E, uma vez que os comunistas de todo o mundo adoptaram para si um hino que declara a internacional o futuro da humanidade, esta forma de diplomacia assaz curiosa, que deixa para os dirigentes chineses a exclusividade do debate acerca da via chinesa para o socialismo, surge-me como algo enigmaticamente mergulhado no pântano das formalidades burguesas.
No fundo, a Rita afirmou algo que não se distingue assim tanto de qualquer empresário que faça bons negócios naquele país ou de qualquer diplomata que não possua na sua agenda a liberalização do regime. E isso não deixa de ser um problema sério, uma vez que não é essa a companhia mais aconselhável a uma jovem comunista.

Em todo o caso o que aqui me trouxe é fundamentalmente outro tema, ainda que não inteiramente separável deste, e que tem a haver com o tipo de reflexão que vai sendo feita no interior do PCP acerca dos problemas genéricos da «construção do socialismo». Gradualmente, vai ali ganhando terreno a ideia de que o sistema até não era mau, mas que as pessoas trabalhavam pouco, ou os dirigentes eram corruptos, ou o longo braço da CIA tudo consegue manipular. Tudo isso está muito bem para comer conquilhas, escrever policiais e romances de intriga diplomática, mas torna-se um pouco mais problemático para um partido que quer moldar o futuro e construir uma sociedade sem classes.
A Rita referiu um congresso no qual o PCP interpretou as razões profundas para o colapso do «socialismo real». E o problema também passa por aí. É que não apenas as conclusões desse congresso foram consideradas um primeiro passo de um processo mais amplo, como desde então (1990), as formulações adoptadas se vêm tornando cada vez mais sibilinas e indecifráveis. Trata-se sempre de uma frase em que se valoriza o contributo, para a luta contra o imperialismo, dos países que apontam como um objectivo a construção do socialismo, independentemente das possíveis apreciações acerca da concretização desse objectivo. Resumindo, dizem sempre qualquer coisa do género: gostamos que haja Partidos Comunistas no poder porque é menos um país que o lado negro da força utiliza para os seus inconfessáveis desígnios.
O problema disto é que, nada dizendo acerca do que concretamente se pensa sobre a condição operária na Coreia do Norte ou sobre a liberdade de imprensa em Cuba, os e as militantes ficam confrontados com um vazio conceptual. Eles têm uma opinião, mas temem não concordar com ela. Afinal, o que pensa concretamente «o partido» acerca do tema? E, um pouco a medo, dizem ter dúvidas acerca da falta de democracia na Coreia do Norte (dúvidas todos podemos ter mas creio que nem sequer os marxistas-leninistas-juche da Coreia do Norte discordarão que as democracias se caracterizam, desde logo, por dispensarem mecanismos genealógicos de sucessão) ou não conhecer o suficiente sobre o respeito pelos direitos humanos na China.

A propósito do que ouvi mais do que uma vez, em debates internos acerca das «questões e problemas do socialismo», encontrei um texto do reaccionário (ma non troppo) Pedro Mexia, que aproveito para citar, o que provavelmente me condenará ao eterno anátema e opróbio. É um pouco lamentável que seja um conservador a demonstrar o melhor e mais subtil sentido de humor a propósito do socialismo real (mesmo relembrando com um sorriso o humor de micha), mas assim vão os males do mundo. A imagem (excelente) é do Pedro Vieira.
“Gorbatchov, esse grande mafioso, cedeu em toda a linha. Quando ele decidiu transmitir pela TV o Congresso do PCUS, houve (e fico comovido com esta nota) uma quebra de vinte por cento na produção dos proletários soviéticos, entretidos a ver a novela política em vez de laborarem alegremente no kolkhoze, sorrindo no alto dos seus corpos musculados, ladeados de raparigas louras com altas espigas de trigo.
O Socialismo Traído é um maravilhoso livro fútil porque parece aqueles tios caturras que dizem que nunca ninguém chegou à Lua, e que foi tudo filmado em Hollywood. Ora vejam: «Qual foi a causa do colapso soviético? A nossa tese é a de que os problemas económicos, a pressão externa e a estagnação política e ideológica que a União Soviética enfrentava no início da década de 1980, isoladamente ou em conjunto, não provocaram o colapso soviético. Ao invés, este foi despoletado pelas políticas de reforma específicas de Gorbatchov e dos seus aliados. Em 1987 Gorbatchov voltou as costas à linha de reformas iniciadas por Iuri Andrópov, linha que o próprio Gorbatchov seguiu durante dois anos». Faz sentido. Que sistema é que entra em colapso por causa de problemas económicos, pressão externa, estagnação política e ideológica e, acrescente-se, uma derrota militar? Está-se mesmo a ver que a culpa é do manchinhas.”


Escreva um comentário