A culpa é do manchinhas

A propósito do celeuma causada pelas declarações da deputada Rita Rato, pouco tenho a acrescentar (mas nada me impede de o tentar). Dá-se o caso de eu, ao contrário da maioria dos comentadores do assunto, ter realmente conhecido pessoalmente a Rita, quando ambos éramos militantes da JCP na FCSH (a «nova»). Do que entretanto se passou e dos caminhos – seguramente muito distintos – que ambos percorremos, não cumpre aqui falar.

Não me parece que a Rita desconheça o que se passou nos campos de concentração da URSS ou o que se passa na China.  A propósito deste segundo caso, é sabido por qualquer comunista que os trabalhadores daquele país não se podem organizar livremente para defender os seus interesses colectivos. Aqui chegados, parece-me que só pode assistir a um comunista a faculdade de reconhecer aos outros – incluíndo aos que vivem noutro continente – os direitos que exige para si. Poder vender livremente a sua força de trabalho e associar-se para o fazer nas melhores condições possíveis – eis o terreno histórico sem o qual a emancipação dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores se torna muito duvidosa. E, uma vez que os comunistas de todo o mundo adoptaram para si um hino que declara a internacional  o futuro da humanidade, esta forma de diplomacia assaz curiosa, que deixa para os dirigentes chineses a exclusividade do debate acerca da  via chinesa para o socialismo, surge-me como algo enigmaticamente mergulhado no pântano das formalidades burguesas.

No fundo, a Rita afirmou algo que não se distingue assim tanto de qualquer empresário que faça bons negócios naquele país ou de qualquer diplomata que não possua na sua agenda a liberalização do regime. E isso não deixa de ser um problema sério, uma vez que não é essa a companhia mais aconselhável a uma jovem comunista.

Em todo o caso o que aqui me trouxe é fundamentalmente outro tema, ainda que não inteiramente separável deste, e que tem a haver com o tipo de reflexão que vai sendo feita no interior do PCP acerca dos problemas genéricos da «construção do socialismo».  Gradualmente, vai ali ganhando terreno a ideia de que o sistema até não era mau, mas que as pessoas trabalhavam pouco, ou os dirigentes eram corruptos, ou o longo braço da CIA tudo consegue manipular. Tudo isso está muito bem para comer conquilhas, escrever policiais e romances de intriga diplomática, mas torna-se um pouco mais problemático para um partido que quer moldar o futuro e construir uma sociedade sem classes.

A Rita referiu um congresso no qual o PCP interpretou as razões profundas para o colapso do «socialismo real». E o problema também passa por aí. É que não apenas as conclusões desse congresso foram consideradas um primeiro passo de um processo mais amplo, como desde então (1990), as formulações adoptadas se vêm tornando cada vez mais sibilinas e indecifráveis. Trata-se sempre de uma frase em que se valoriza o contributo, para a luta contra o imperialismo, dos países que apontam como um objectivo a construção do socialismo, independentemente das possíveis apreciações acerca da concretização desse objectivo. Resumindo, dizem sempre qualquer coisa do género: gostamos que haja Partidos Comunistas no poder porque é menos um país que o lado negro da força utiliza para os seus inconfessáveis desígnios.

O problema disto é que, nada dizendo acerca do que concretamente se pensa sobre a condição operária na Coreia do Norte ou sobre a liberdade de imprensa em Cuba, os e as militantes ficam confrontados com um vazio conceptual. Eles têm uma opinião, mas temem não concordar com ela. Afinal, o que pensa concretamente «o partido» acerca do tema? E, um pouco a medo, dizem ter dúvidas acerca da falta de democracia na Coreia do Norte (dúvidas todos  podemos ter mas creio que nem sequer os marxistas-leninistas-juche da Coreia do Norte discordarão que as democracias se caracterizam, desde logo, por dispensarem mecanismos genealógicos de sucessão) ou não conhecer o suficiente sobre o respeito pelos direitos humanos na China.

A propósito do que ouvi mais do que uma vez,  em debates internos acerca das «questões e problemas do socialismo», encontrei um texto do reaccionário (ma non troppo) Pedro Mexia, que aproveito para citar, o que provavelmente me condenará ao eterno anátema e opróbio. É um pouco lamentável que seja um conservador a demonstrar o melhor e mais subtil sentido de humor a propósito do socialismo real (mesmo relembrando com um sorriso o humor de micha), mas assim vão os males do mundo. A imagem (excelente) é do Pedro Vieira.

“Gorbatchov, esse grande mafioso, cedeu em toda a linha. Quando ele decidiu transmitir pela TV o Congresso do PCUS, houve (e fico comovido com esta nota) uma quebra de vinte por cento na produção dos proletários soviéticos, entretidos a ver a novela política em vez de laborarem alegremente no kolkhoze, sorrindo no alto dos seus corpos musculados, ladeados de raparigas louras com altas espigas de trigo.
O Socialismo Traído é um maravilhoso livro fútil porque parece aqueles tios caturras que dizem que nunca ninguém chegou à Lua, e que foi tudo filmado em Hollywood. Ora vejam: «Qual foi a causa do colapso soviético? A nossa tese é a de que os problemas económicos, a pressão externa e a estagnação política e ideológica que a União Soviética enfrentava no início da década de 1980, isoladamente ou em conjunto, não provocaram o colapso soviético. Ao invés, este foi despoletado pelas políticas de reforma específicas de Gorbatchov e dos seus aliados. Em 1987 Gorbatchov voltou as costas à linha de reformas iniciadas por Iuri Andrópov, linha que o próprio Gorbatchov seguiu durante dois anos». Faz sentido. Que sistema é que entra em colapso por causa de problemas económicos, pressão externa, estagnação política e ideológica e, acrescente-se, uma derrota militar? Está-se mesmo a ver que a culpa é do manchinhas.”


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57 respostas a A culpa é do manchinhas

  1. manuel j. neto diz:

    Caro MSP,
    lamento ter-me enganado nas iniciais do seu, engano para o qual só o seu reparo me alertou (era muito tarde e talvez essa seja uma boa desculpa…).
    Quanto ao seu último comentário. Não nego a necessidade da luta ou a manutenção no horizonte de um objectivo de construção de uma sociedade livre e autónoma; e também não discordo de si, evidentemente, quando diz que não devemos desitir de um pensamento crítico e principalmente do “diálogo da alma consigo própria”. Reconheço também no activismo de esquerda e naqueles que tentam prosseguir com este e outros debates um voluntarismo bem-intencionado. Acho simplesmente que estes discursos e estas bases de reflexão falham de certa forma o ponto e recusam a evidência da inadequação das suas tipologias críticas a uma realidade que migrou para uma outra coisa, para uma outra direcção. Por isso digo que falta alguma capacidade de auto-denuncia , de crítica dos seus próprios pressupostos de critica.
    Um exemplo: o da liberdade de expressão. Eu não sou evidentemente a favor de qualquer tipo de condicionamento da liberdade de expressão, tal como ele existe, mas parece-me que fazer desse o centro de um discurso emancipatório é fundamentalmente errado. Um filófoso de que gosto imenso (digo filósofo embora não esteja a ser totalmente rigoroso mas talvez por falta de melhor termo), Boris Groys, que viveu e deu aulas na ex-URSS reponde, quando questionado acerca da falta de liberdade nos países socialistas, que neles, como sistemas políticos no sentido mais estrito do termo (no seu livro post-scriptum du comunnisme ele explica isto) – ou seja, estruturados a partir da palavra – o que era dito tinha uma importância específica e politica pelo que poderia conduzir a efeitos concretos de ordem também política enquanto que, por contraste, que nos países ocidentais e capitalistas a palavra tinha perdido o seu lugar e a possibilidade de inscrição no sistema. Resumindo: uma ideia subversiva veiculada publicamente poderia conduzir à morte e à prisão na URSS enquanto que na Alemanha do século XXI a palavra, se for especializada e consoante o seu grau de legitimidade, significa quando muito, no caso de Groys, uma fonte de rendimento económico, em conferências, palestras e aulas em respeitáveis universidade (e talvez quanto mais subversiva mais seja valorizada). O nosso problema no que diz respeito à liberdade de expressao parece ser este: o da total inocuidade do uso que dela fazemos, a impossibilidade de inscição de todos os discurso, que se revela em plena consonância com a cargografia cognitiva pós-histórica da globalização. Tipologias como as da esquerda moderna de hoje revelam-se, nesta ordem de ideias, totalmente desfasadas e inuteis e deveriam portanto ser objecto de revisão e auto-denuncia.
    Muito grato pelo interesse nos meus comentários e disponibilidade para o debate, despeço-me atenciosamente,
    manuel neto

  2. miguel serras pereira diz:

    Caro Manuel Neto,
    sim, mas. Brevemente: não podemos querer defender o “diálogo da alma consigo própria” esquecendo que este é uma criação social-histórica e não uma qualidade natural do indivíduo. Os indivíduos humanos não falam nem consigo próprios nem com os outros sem que a linguagem, que é uma social-histórica primeira, os institua como actores da palavra. Portanto, não renunciar ao tipo de indivíduo, capaz de viver consigo próprio de maneira explícita e se responsabilizar singularmente pelos seus actos e pensamentos, é não renunciar a manter vivo e a alargar a que eu chamo o projecto político da cidadania governante, ou projecto de autonomia (como lhe chamava Castoriadis).
    A segunda questão. Sim, há outros mecanismos de neutralização da palavra que não a censura clássica ou a proibição policial. Em certas condições, são mesmo mais eficazes. Podíamos considerar aqui um tema caro ao Tito Cardoso e Cunha sobre a importância “comunicacional” do silêncio. Podíamos reflectir sobre os meios de comunicação e o su modo de funcionamento. Sobre as ameaças das “novilínguas” e dos regimes cada vez mais impostos à palavra no sentido de restringir o pensamento. Sobre o que são as exigências mínimas e as reivindicações mais urgentes da democracia na matéria. Mas nada disso justifica a censura clássica ou a repressão policial, ou a censura “comunitarista” que recalca nos membros da tribo a tentação de duvidar da verdade que lhes foi revelada e proposta como condição de identidade.
    Quanto à esquerda moderna, não sei bem o que tem em vista. O “vale tudo”, o indiferentismo, o relativismo multiculturalista, a multiplicação dos direitos identitários interessam-me pouco, ou, muitas vezes, só negativamente. Mas aqui teríamos pano para mangas bem maiores do que as que este espaço permite. Cordialmente
    msp

  3. Eugénio Oneguine diz:

    mst e mjn,
    vão começar um namoro aqui?

  4. nuno diz:

    Eu sou de esquerda. Ou de extrema esquerda, segundo alguns. E não compreendo porque é tão raro encontrar (à esquerda) posições como a do Rui Tavares, que escreveu no Twitter, recentemente:
    “Morreu Orlando Zapata Tamayo, preso político cubano em greve de fome. Um dia triste e feio. Cuba tem de libertar os seus presos políticos já”
    http://twitter.com/ruitavares/status/9572304265

    A mim não me interessa se uma atrocidade é cometida por uma democracia capitalista, um regime militar, uma nação fascista, um estado teocrático ou um país socialista/comunista… Não interessa, é sempre condenável. Se sobre a Guerra no Iraque concordo que não interessa às vítimas se as bombas são lançadas por uma democracia; obviamente tenho de defender que, num regime socialista, não interessa a um preso político se foi preso por ser contra-revolucionário e difundir propaganda reaccionária. Se na defesa da utopia se abrirem todas as excepções para a força e a repressão, então mata-se, desde o início e inequivocamente, qualquer possibilidade de utopia.

    E por isso, eu que sou de esquerda/extrema esquerda, entendo perfeitamente que alguém de direita, depois de me escutar a falar de ideologia e propostas políticas, pergunte simplesmente, “pois… e a Coreia do Norte, qual é a tua posição quanto à Coreia do Norte?”. E se a resposta for evasiva, turva, então a ideologia, o que se disse antes e o que disser a seguir fica, obviamente, em causa.

    Se eu perguntar a um capitalista, depois de o ouvir falar sobre os méritos da democracia liberal e a liberdade dos mercados, “então e qual é a tua posição sobre o trabalho escravo? sabes que há mais de 20 milhões de escravos no mundo?”, quero uma resposta honesta. Se me fugir à pergunta, desconsidero o que me disser a seguir.

    É como um ateu que perguntasse a um católico (depois de o ouvir discorrer sobre religião), “então… e qual é a tua posição sobre a concordata? e os direitos dos homossexuais?”. É uma forma de clarificar as coisas. Se o católico fugir à questão, perde credibilidade se a seguir quiser falar de ecumenismo, liberdade religiosa, etc.

    É curioso que o tema deste post (criticado por leitores de esquerda), concretiza-se em alguns comentários. Em vez de se contradizer o que é dito no texto, atira-se com um “o capitalismo é bem pior”.
    «O problema disto é que, nada dizendo acerca do que concretamente se pensa sobre a condição operária na Coreia do Norte ou sobre a liberdade de imprensa em Cuba, os e as militantes ficam confrontados com um vazio conceptual. »
    Aí está. E eu quero saber o que pensam sobre estas questões os políticos em que voto. Quero mesmo.

  5. rui david diz:

    nuno, és um gajo porreiro (de extrema esquerda e tal, até…) mas és ingénuo. A deputada Rato, o sujeito das Bicicletas, o rapaz Vilarigues, o Bernardino e restante família, já te explicaram à saciedade o que pensam sobre estas questões. E é mesmo isso que tu disseste. E não passa daí. Fuzilaram o dissidente, ou deixaram-no que morresse à fome? A culpa foi dele. Houve milhões (poucos, disse o Vilarigues, um rapaz que em tempos recolheu assinaturas para libertar presos políticos, incluindo o Pai dele…), e os que houve foram gente sem grande préstimo, quanto muito houve uns “erros”, uns “exageros”… mas então não é que há também tanta gente nas prisões americanas?
    Não passa disto rapaz, não passa disto… e continuam todos muito coerentes, muito indignados com as “injustiças”, muito morais, muito muito muito…

  6. nuno diz:

    Eu digo, como o Slavoj Žižek, quando se refere a Cuba, ao Chavez e aos regimes que caíram, como o da URSS, “we should criticize them ruthlessly”.

  7. Ricardo Noronha diz:

    É a coisa mais acertada que o ouvi dizer nos últimos tempos.

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