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A culpa é do manchinhas

25 de Outubro de 2009 por Ricardo Noronha

A propósito do celeuma causada pelas declarações da deputada Rita Rato, pouco tenho a acrescentar (mas nada me impede de o tentar). Dá-se o caso de eu, ao contrário da maioria dos comentadores do assunto, ter realmente conhecido pessoalmente a Rita, quando ambos éramos militantes da JCP na FCSH (a «nova»). Do que entretanto se passou e dos caminhos – seguramente muito distintos – que ambos percorremos, não cumpre aqui falar.

Não me parece que a Rita desconheça o que se passou nos campos de concentração da URSS ou o que se passa na China.  A propósito deste segundo caso, é sabido por qualquer comunista que os trabalhadores daquele país não se podem organizar livremente para defender os seus interesses colectivos. Aqui chegados, parece-me que só pode assistir a um comunista a faculdade de reconhecer aos outros – incluíndo aos que vivem noutro continente – os direitos que exige para si. Poder vender livremente a sua força de trabalho e associar-se para o fazer nas melhores condições possíveis – eis o terreno histórico sem o qual a emancipação dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores se torna muito duvidosa. E, uma vez que os comunistas de todo o mundo adoptaram para si um hino que declara a internacional  o futuro da humanidade, esta forma de diplomacia assaz curiosa, que deixa para os dirigentes chineses a exclusividade do debate acerca da  via chinesa para o socialismo, surge-me como algo enigmaticamente mergulhado no pântano das formalidades burguesas.

No fundo, a Rita afirmou algo que não se distingue assim tanto de qualquer empresário que faça bons negócios naquele país ou de qualquer diplomata que não possua na sua agenda a liberalização do regime. E isso não deixa de ser um problema sério, uma vez que não é essa a companhia mais aconselhável a uma jovem comunista.

Em todo o caso o que aqui me trouxe é fundamentalmente outro tema, ainda que não inteiramente separável deste, e que tem a haver com o tipo de reflexão que vai sendo feita no interior do PCP acerca dos problemas genéricos da «construção do socialismo».  Gradualmente, vai ali ganhando terreno a ideia de que o sistema até não era mau, mas que as pessoas trabalhavam pouco, ou os dirigentes eram corruptos, ou o longo braço da CIA tudo consegue manipular. Tudo isso está muito bem para comer conquilhas, escrever policiais e romances de intriga diplomática, mas torna-se um pouco mais problemático para um partido que quer moldar o futuro e construir uma sociedade sem classes.

A Rita referiu um congresso no qual o PCP interpretou as razões profundas para o colapso do «socialismo real». E o problema também passa por aí. É que não apenas as conclusões desse congresso foram consideradas um primeiro passo de um processo mais amplo, como desde então (1990), as formulações adoptadas se vêm tornando cada vez mais sibilinas e indecifráveis. Trata-se sempre de uma frase em que se valoriza o contributo, para a luta contra o imperialismo, dos países que apontam como um objectivo a construção do socialismo, independentemente das possíveis apreciações acerca da concretização desse objectivo. Resumindo, dizem sempre qualquer coisa do género: gostamos que haja Partidos Comunistas no poder porque é menos um país que o lado negro da força utiliza para os seus inconfessáveis desígnios.

O problema disto é que, nada dizendo acerca do que concretamente se pensa sobre a condição operária na Coreia do Norte ou sobre a liberdade de imprensa em Cuba, os e as militantes ficam confrontados com um vazio conceptual. Eles têm uma opinião, mas temem não concordar com ela. Afinal, o que pensa concretamente «o partido» acerca do tema? E, um pouco a medo, dizem ter dúvidas acerca da falta de democracia na Coreia do Norte (dúvidas todos  podemos ter mas creio que nem sequer os marxistas-leninistas-juche da Coreia do Norte discordarão que as democracias se caracterizam, desde logo, por dispensarem mecanismos genealógicos de sucessão) ou não conhecer o suficiente sobre o respeito pelos direitos humanos na China.

A propósito do que ouvi mais do que uma vez,  em debates internos acerca das «questões e problemas do socialismo», encontrei um texto do reaccionário (ma non troppo) Pedro Mexia, que aproveito para citar, o que provavelmente me condenará ao eterno anátema e opróbio. É um pouco lamentável que seja um conservador a demonstrar o melhor e mais subtil sentido de humor a propósito do socialismo real (mesmo relembrando com um sorriso o humor de micha), mas assim vão os males do mundo. A imagem (excelente) é do Pedro Vieira.

“Gorbatchov, esse grande mafioso, cedeu em toda a linha. Quando ele decidiu transmitir pela TV o Congresso do PCUS, houve (e fico comovido com esta nota) uma quebra de vinte por cento na produção dos proletários soviéticos, entretidos a ver a novela política em vez de laborarem alegremente no kolkhoze, sorrindo no alto dos seus corpos musculados, ladeados de raparigas louras com altas espigas de trigo.
O Socialismo Traído é um maravilhoso livro fútil porque parece aqueles tios caturras que dizem que nunca ninguém chegou à Lua, e que foi tudo filmado em Hollywood. Ora vejam: «Qual foi a causa do colapso soviético? A nossa tese é a de que os problemas económicos, a pressão externa e a estagnação política e ideológica que a União Soviética enfrentava no início da década de 1980, isoladamente ou em conjunto, não provocaram o colapso soviético. Ao invés, este foi despoletado pelas políticas de reforma específicas de Gorbatchov e dos seus aliados. Em 1987 Gorbatchov voltou as costas à linha de reformas iniciadas por Iuri Andrópov, linha que o próprio Gorbatchov seguiu durante dois anos». Faz sentido. Que sistema é que entra em colapso por causa de problemas económicos, pressão externa, estagnação política e ideológica e, acrescente-se, uma derrota militar? Está-se mesmo a ver que a culpa é do manchinhas.”


Comentários

Comentário de rui david
Data: 25 de Outubro de 2009, 20:59

eu estou mesmo a ler o que estou a ler ou este gajo vai ser enviado para o Gulag para re-educação?

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 25 de Outubro de 2009, 22:26

Rui David, ultimamente só mandamos pessoas para Quarteira. As viagens para a Sibéria são muito caras.

Comentário de manuelmgaio
Data: 25 de Outubro de 2009, 22:40

Para quem tinha pouco a acrescentar, acrescentou muito. E começa com um truque muito pouco correcto (o do “conheço pessoalmente a Rita”), cheio de insinuações.
Não o conheço a si mas apenas lhe quero lembrar que sejam quais forem os erros, até os crimes, cometidos na construção e na defesa do socialismo, são histórica e comprovadamente insignificantes quando comparados com os que foram e continuam a ser diariamente cometidos pelo capitalismo.
Esta evidência é sempre esquecida quando o que interessa é atacar o socialismo e o comunismo e os seus militantes. Mas, para si, esta é certamente outra história.
É triste que a sua passagem pela JCP não lhe tenha ensinado, pelo menos, a respeitar e não insultar os que seguiram um caminho diferente do seu.
Quanto a Gorbatchov e aos direitos humanos, nem vale a pena responder.

Comentário de rui david
Data: 25 de Outubro de 2009, 22:49

o capitalismo selvagem ainda não conseguiu pôr de pé uma companhia low cost para a sibéria para tratar destes casos?
mas aceita-se. como manifestação de crueldade gratuita será difícil arranjar melhor do que quarteira.

Comentário de toulixado
Data: 25 de Outubro de 2009, 23:17

Quase que escrevias um romance. A imaginação é tramada, atraiçoa-nos e depois temos que encher chouriços.

Comentário de Filipe Diniz
Data: 25 de Outubro de 2009, 23:41

O verbo “malhar” continua em grande. Depois de malhar na Rita (que foi mais ingénua do que seria de esperar) agora toca a malhar no PCP. Como habitualmente, caricaturando as posições que toma. Que não podem estar certas, pronto, uma vez que se trata de um grande colectivo de tontos, que cultiva um conjunto de ideias simples e básicas, descritas com tanta argúcia pelo autor do post. E, no fundo, era tão fácil actualizarem-se, sofisticarem-se um pouco, não é? Assinavam, sei lá, o “Monde Diplomatique” e outra bibliografia da especialidade, respondiam certo às perguntas inocentes dos excelentes jornalistas que ainda têm paciência para entrevistar comunas, e o Ricardo Noronha ficava sem assunto.

Comentário de Raul
Data: 25 de Outubro de 2009, 23:45

“A civilização moderna é devida mais à derrubada de erros antigos acumulados, que à descoberta de verdades novas.”
( Marquês de Maricá )

Que a Rita Rato seja a primeira de muitas de esquerda a esquecer as atrocidades dos seus antecessores. E que as jugulares façam o mesmo. Só assim se pode pensar em futuro…caso contrário não saimos da cepa torta…

Comentário de pedro bala
Data: 26 de Outubro de 2009, 0:00

Curioso. Esta crítica à liberdade de imprensa em Cuba diz tudo. Gostaria de saber o que entende o Ricardo Noronha por liberdade de imprensa. Deixo-lhe este vídeo. Está em italiano, língua que Noronha deve dominar já que de lá vem muita mixórdia política que lhe deve interessar. Divirta-se.

http://www.youtube.com/watch?v=pIiEC6Ogsfo

Comentário de João Calviño
Data: 26 de Outubro de 2009, 0:05

Eu também poderia vir aqui dizer que… conheci pessoalmente o ricardo noronha, e até conheci.
E é bom saber que há coisas que se mantêm. a mesma atitude mantêm-se…
é bom saber que as pessoas, apesar do tempo passar, continuam imutáveis… desde os tempos da JCP.

Comentário de antónio
Data: 26 de Outubro de 2009, 0:15

Isto é rápido:

1. O que é que aconteceu à capacidade de síntese, agora cada post é uma espécie de preâmbulo a uma tese de doutoramento ?

2. Esse R.N. vai definitivamente ser exilado para Quarteira, a Sibéria está mais cara que Moustique, hoy dia…

3. Os comunistas agora têm dúvidas ??
Pah, afinal vais mesmo para a Sibéria.

A minha única questão existencial é se a tua colega da FCSH terá tempo para te visitar.

Ah, substância…:
Como é que se consegue escrever tanto e dizer tão pouco ?
Ensinam isso agora na ‘Nova’ ??

Por amor de… Kobe Bryant (só porque momentâneamente me esqueci do nome do gajú da Coreia do Norte…)

:-)

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 26 de Outubro de 2009, 0:16

Como dizia o outro: «não disparem, camaradas!»
Não malho em ninguém Filipe, nem insinuo nada (truque? mas eu conheci-a mesmo, e então?). Grandes colectivos de gente inteligente já tomaram decisões incrivelmente tontas. Ninguém o lastima mais do que eu. Se os seus argumentos não ultrapassam o le monde diplomatique, temo que pasquins como o correio da manhã continuarão a ter uma vida fácil. Não tem por aí nenhuma insinuação mesquinha acerca da minha vida privada? Consta que vão muito bem nestas ocasiões.
Fico à espera que digam qualquer coisa de esquerda acerca do capitalismo chinês. Qualquer coisa democrática. Qualquer coisa.

Comentário de antónio
Data: 26 de Outubro de 2009, 0:41

“Camarada”, Pedro Bala, hai scelto un cognome che me dice qualcosa.

Il tuo film é tropo lungo, e magari non sarebbe la migliore scelta que potresti fare.

Quando c’eravamo in Italia, qualunque discorso di Berlinguer se capiva meglio, e poi tutte le donne gridavano “Bacia-lo, bacia-lo”!, non avevamo bisogno de fare molto di piú.

Comunque penso que ho capito il senso generale.

Mas os typos são uma merda, parece feito para ser difícil de ler.

Auguri,

A.

Comentário de antónio
Data: 26 de Outubro de 2009, 0:45

R.N., qualquer coisa de esquerda sobre o capitalismo chinês

‘Tás tonto ?
E depois vamos viver do quê ?

:-)

Comentário de pedro bala
Data: 26 de Outubro de 2009, 0:47

Tem piada. Protestas contra quem possa insinuar acerca da tua vida privada mas não tiveste qualquer pudor em afirmar que conheceste, pessoalmente, a Rita Rato. O truque é simples e conhecido. Dar a entender que conhecendo a pessoa – mesmo que não se levante qualquer facto dessa experiência para a discussão – para sobrevalorizar a própria argumentação. O cinco dias já teve dias melhores.

Comentário de Filipe Diniz
Data: 26 de Outubro de 2009, 1:00

Ricardo Noronha, não faz parte do meu argumentário fazer insinuações, mesquinhas ou não, acerca da vida privada de ninguém. Muito menos da sua, pela qual não tenho interesse de espécie nenhuma. Rapidamente lhe estalou o verniz, é a única coisa que posso constatar. Veja você se é capaz de dizer alguma coisa de esquerda sobre o capitalismo português, e talvez possamos conversar.

Comentário de Aniceto Azevedo
Data: 26 de Outubro de 2009, 1:09

Ricardo Noronha: fico à espera que diga qualquer coisa sobre qualquer coisa…

Comentário de Aniceto Azevedo
Data: 26 de Outubro de 2009, 1:27

Não se preocupe, entretanto, com anátemas ou opróbrios, Ricardo (tomou esse jargão do Manchinhas, foi?). Quem leu o livro Socialismo Traído e a “recensão” que Mexia lhe dedicou, fica simplesmente ciente da profundidade e da seriedade intelectual do Ricardo e do seu posicionamento político.

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 26 de Outubro de 2009, 1:32

Bom. Se eu fizesse de conta que não a conhecia, seria melhor? Limitei-me a dizer que a conheci e que estive nalgumas reuniões com ela, sem qualquer outro sentido. Vou um pouco mais longe. Não sinto senão simpatia para com ela (e pelo joão calviño, que sinceramente não sei quem é). Espero que isso chegue e que a comissão central de controlo não a penalize por isso.
O capitalismo português e o capitalismo chinês são suficientemente semelhantes para que eu não tenha que escolher entre um e o outro. Mas, lá está, eu não acho que o capitalismo português seja um importante contributo para a resistência ao imperialismo.
Obrigado Pedro, pelo vídeo. Por certo conhece algum cinema português dos anos 30. As pessoas pareciam ser todas tão felizes…

Comentário de antónio
Data: 26 de Outubro de 2009, 4:27

Espantoso.

:-)

Então agora o grande debate é sobre ele conhece ou não conhece ela ?

E já agora, sabem o que significa atarantados em portuga, ou precisam de ir ao google ??

Comentário de rui david
Data: 26 de Outubro de 2009, 8:14

A coisa está preta. Para que é que o rapaz foi dizer que conhecia a miúda?
Esta sequência de comentários (e ainda nem chegaram todos os comentadores habituais…) é elucidativa das perspectivas libertadoras que nos esperariam a dar-se o caso de o eleitorado optar um dia pela defesa decidida e intransigente das “micro-pequenas-e-médias-empresas”.

diz o pedro bala que o cinco dias já teve dias melhores.
Melhores do que isto, rapazes? Unanimismo proletário a cascar no herege?

“apenas lhe quero lembrar que sejam quais forem os erros, até os crimes, cometidos na construção e na defesa do socialismo, são histórica e comprovadamente insignificantes quando comparados com os que foram e continuam a ser diariamente cometidos pelo capitalismo.
Esta evidência é sempre esquecida quando o que interessa é atacar o socialismo e o comunismo e os seus militantes. “…. (sem comentários)

o que eu digo é que o 5 dias é bom demais para vocês.
Dá uma imagem excessivamente lisonjeira do vosso campo.
É o “rosto humano” que esconde a parte submersa do iceberg da vossa gigantesca tacanhez caceteira. Esse é o problema do 5 dias.

Comentário de djugashvili
Data: 26 de Outubro de 2009, 10:31

Idi na Hui!

Comentário de Justiniano
Data: 26 de Outubro de 2009, 12:04

Caríssimo Ricardo Noronha -
Por curiosidade genuina.
O que é isso, verdadeiramente, do capitalismo chinês?
Melhores cumprimentos,

Comentário de chico da tasca
Data: 26 de Outubro de 2009, 12:12

É absolutamente extraórdinário a capacidade que a Comunalhada tem de relativizar e de branquear o rol extenso de crimes que o Comunismo cometeu, desde o inicio da sua implantação e ao longo das décadas em que foi Poder (sempre à Força e na base da Repressão) nos diversos países.

Ao mesmo tempo, não se cansam de chamar a terreiro o Fascismo, e o Salazarismo, mesmo sabendo que este, por comparação com o Comunismo, se tratou de uma Democracia Avançada.

Toda a História do Comunismo é uma história de Crime, de Repressão e de Sangue.

É a Ideologia mais nojenta que eu conheço, que só tem paralelo com o Islamo-Fascismo dos dias de hoje.

O que essa gentalha tentou fazer no PREC, foi a implantação neste país de uma Ditadura e de uma total Subserviência ao Imperialismo Soviético, fazendo deste país uma quinta da Ex-União Soviética.

A possibilidade desta gentalha vir a tomar o Poder neste país, seria motivo mais do que suficiente para um levantamento pelas armas.

Isto em defesa da Democracia, dos Direitos Individuais, do Individuo, e da Liberdade, tudo conceitos que os Comunistas espezinham por onde passam.

Morte ao Comunismo !!!!

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Data: 26 de Outubro de 2009, 12:55

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Comentário de rui david
Data: 26 de Outubro de 2009, 13:45

chico, já passou o PREC, o ELP já lá vai, vive-se em democracia, há coisas que devem de ser discutidas, direitos democráticos a preservar para todos, tudo na boa, man…

Comentário de Anicet Azevedo
Data: 26 de Outubro de 2009, 14:04

Olhem, o Ricardo Noronha deu agora em escrever com o nome de chico da tasca.

Comentário de Verdasco
Data: 26 de Outubro de 2009, 15:32

Sim, a Coreia do Norte não é uma democracia só porque o poder é hereditário. É como dizer que o Elton John só é paneleiro porque usa óculos escuros cor-de-rosa.

Comentário de xatoo
Data: 26 de Outubro de 2009, 16:37

literatura comparada?
caro Ricardo Noronha
comparar “o capitalismo chinês” com “o capitalismo português” não é a mesma coisa que comparar peidos com marmelos?
Na China foi adoptada a politica “um país, dois sistema”, um, de livre iniciativa para se articular com a economia global, outro para uso interno de economia centralizada e planificada por forma a manter na posse das comunidades os núcleos chave da economia e recursos.
Em Portugal só temos um sistema, e mesmo assim é mau, pq as decisões não são tomadas democraticamente
A massa critica populacional (força de trabalho) tem uma diferença de 1,338,612,968 almas menos 10,707,924 almas penadas igual a 1,327,905,034 pessoas no exército industrial de reserva

o PIB chinês é de $7.973 triliões e cresce 9% ano, o de Portugal é de $236.5 mil milhões, (e decresce), e a maior parte do PIB advem do sector de serviços e outras chorudas parasitagens em proveito da infima elite na forma de comissões sobre economias estrangeiras. E obra feita? tanto a nivel social quanto urbano? está no bolso do pijama do sócrates

Eu me naturalize desde já num daqueles chineses de terracota se vejo aqui algo para comparar

Comentário de antónio
Data: 26 de Outubro de 2009, 16:41

Oh Verdasco, o Elton John (ou se preferires,Reginald Kenneth Dwight sempre foi gay, desde os tempos em que vivia com o Bernie Taupin, no século passado.
Não tem nada a ver com óculos, nunca teve.

:-)

P.S.

E “paneleiros” são os teus (____________preenche aqui)

Comentário de zé do boné
Data: 26 de Outubro de 2009, 17:32

-Milhões e milhões…de mortos nos gulags
.I grande Guerra (também esta, por culpa dos comunistas, claro!) – Do tifo, da Guerra Civil entre vermelhos e brancos – da guerra contra a intervenção estrangeira: intervenção acarinhada entre outros pelo grande democrata Churchill,“é necessário matar a criança no berço referindo-se à revolução bolchevique ”” se fosse Italiano teria de estar ao lado de Mussolini” pelo embargo imposto pelas potências burguesas, à Revolução Bolchevique, a II Grande Guerra.etc, etc ,….a população Soviética , teria necessariamente de diminuir de tal forma que nos fins de 1945 – nada restaria, a não ser o Estaline e pouco mais.
-**********************************************
amostra
-Por acaso alguém ouviu falar, numa coisa chamada, Comuna de Paris.
-Por acaso alguém se lembra, ou faz referencia aos “meninos /homens”, que desciam ao fundo das minas de carvão, para com o seu trabalho, fazerem as fortunas do Capitalismo nascente.
-Por acaso alguém faz referencia aos povos indígenas pura e simplesmente exterminados ou reduzidos à escravatura.
Por acaso alguém se lembra da Guerra do Ópio…contra a China. O que ela representou para o êxito do capitalismo ocidental – E suas s consequências, para o Povo Chinês.
-Alguém se lembra, ou faz referência ao uso da Bomba Atómica contra o Povo do Japão.
-Por acaso alguém se lembra, ou sabe algo sobre o Plano Condor, o que significou para os Povos da América Latina.
A guerra contra o Vietname. O genocídio a Guerra química e biológica contra este povo, que ainda hoje faz vítimas …Ninguém diz nada não se passou nada.

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 26 de Outubro de 2009, 17:42

Isso são diferenças de grau, não de natureza. Eu disse que tinham semelhanças, não que eram iguais. O diabo está nos detalhes. De resto, são distintos sistemas de exploração do trabalho assalariado. De um ponto de vista de classe (adivinhe qual), são suficientemente semelhantes para que não se tenha de escolher entre eles.
A não ser, é claro, pelo facto de a luta de classes em Portugal ter imposto um conjunto de liberdades e direitos sindicais – sempre sobre ameaça é certo – que tornam a vida dos trabalhadores aqui um pouco menos insuportável. Acho que isso é importante, mas está longe de ser suficiente. A luta continua, portanto.

Comentário de LAM
Data: 26 de Outubro de 2009, 21:03

diz RN:
“O problema disto é que, nada dizendo acerca do que concretamente se pensa sobre a condição operária na Coreia do Norte ou sobre a liberdade de imprensa em Cuba, os e as militantes ficam confrontados com um vazio conceptual. Eles têm uma opinião, mas temem não concordar com ela. Afinal, o que pensa concretamente «o partido» acerca do tema? E, um pouco a medo, dizem ter dúvidas acerca da falta de democracia na Coreia do Norte (dúvidas todos podemos ter mas creio que nem sequer os marxistas-leninistas-juche da Coreia do Norte discordarão que as democracias se caracterizam, desde logo, por dispensarem mecanismos genealógicos de sucessão) ou não conhecer o suficiente sobre o respeito pelos direitos humanos na China.”

E este é também o meu problema. É possível um socialismo sem os gulags, sem as limitações à liberdade de imprensa e sem as paradas militares? Ao fim e ao cabo sem os “erros” apontados à posteriori ao regime soviético (e quem diz ao soviético diz ao chinês, norte coreano, cubano, etc)? e, um socialismo assim, terá terreno para ser algo mais do que uma social-democracia?
Ou, expondo a contradição, poderá ser esse “socialismo” que (à partida condenando os gulags, as limitações à liberdade de imprensa etc), tendo de se ater e conviver com os valores da democracia burguesa, almejar mais do que aquilo que hoje designamos por social-democracia?
Penso que este problema não é só meu. Penso que este é um problema da esquerda portuguesa (e não só), e não adianta chutar a bola para a frente agitando “lapsos” ou “indefinições” ideológicas quando estas estão assentes em tamanha contradição.

Comentário de xatoo
Data: 26 de Outubro de 2009, 23:04

quando não se considera atentamente a inserção das unidades nas estruturas de dominação não há detalhes que nos valham.
De que servem os direitos sindicais num panorama de trabalho inexistente?
Certo? concordo portanto, a luta continua!, só que nunca mais começa…
culpa dos intelectuais?

Comentário de miguel serras pereira
Data: 26 de Outubro de 2009, 23:33

Caro Ricardo Noronha, bastaria ler boa parte dos comentários ao que escreveu – e que eu subscrevo substancialmente – e reparar no seu tom escandalizado de beatas e ratos de sacristia, alguns com passagem pela taberna a seguir à missa, para perceber que vêm de obscurantistas militantes. Um obscurantista militante é um anti-democrata por excelência, e um inimigo jurado da emancipação dos trabalhadores, da do conjunto dos cidadãos e da sua própria. A questão aqui esquivada não é se o socialismo – entendido como superação da condição de mercadoria da força de trabalho e superação da separação entre os produtores e os meios de produção – é possível sem os gulagues, mas justamente a oposta: como podemos chamar socialista a regimes que negam aos trabalhadores os direitos mais elementares, que instauram formas servis de trabalho, que encerram em campos de concentração e morte lenta substanciais “franjas” da sua população? Não basta dizer que o “socialismo real” teria sido melhor sem os campos, sem os Processos de Moscovo, sem os dirigentes sindicais transformados em capatazes e polícias, sem a entronização de um Estado cuja liberdade, como dizia Marx, é inversamente proporcional à dos cidadãos. É preciso dizer e compreender que não há emancipação do trabalho nem democratização da gestão da esfera económica com trabalhos forçados, sem liberdade de expressão e de associação, com um Estado que usurpa e sufoca o que seria o espaço público da tomada de decisão, e vigia por meio da polícia secreta o espaço colectivo informal da convivência quotidiana. É preciso depois agir politicamente em conformidade. Um abraço solidário
msp

Comentário de antónio
Data: 27 de Outubro de 2009, 1:02

Finalmente, alguém que alguém de saber escrever em português, faz sentido e tudo.

(não desfazendo em… tu sabes que eu sei que tu sabes do que eu estou a falar, mas convém não dar bandeira…, private joke, quem não gostar deite-se ao lado).

Parabéns sinceros, M.S.P.

:-)

Comentário de antónio
Data: 27 de Outubro de 2009, 1:05

alguém = além, sorry pelo typo…

Comentário de Aniceto Azevedo
Data: 27 de Outubro de 2009, 2:05

MSP, acha portanto que o estado que usurpa e sufoca se resume a optar ou não por ele? Os beatos e ratos de sacristia, obscurantistas militantes, não compreendem a articulação entre emancipação e democratização – e optam pelo campo de concentração. Os beaux esprits compreendem – e optam pelo agir politicamente em conformidade.
Para contar às crianças, a história é boa e edifica. Para compreender a complexidade social e intervir nela talvez seja péssima e não possa mesmo ser tomada a sério, um segundo que seja. O senhor nunca viu, certamente, uma revolução (real, e não etérea).
Ademais, quanto mais repressivo e autoritário um regime se torna, mais eloquentemente demonstra a sua fraqueza, o cerco que o tolhe e o condena, as forças (as classes) que se lhe opõem – e não, como pensa, o contrário, isto é, e não a sua força todo-poderosa que se impõe e abate sobre a inocente e boa sociedade.
No seu raciocínio há apenas esquemas maniqueístas e simplistas. De um lado, os ratos de sacristia (ainda para mais com passagem pelo tasco, imagine-se); do outro, as almas belas, irmanadas na liofilizada cidadania governante. Aqui, o estado usurpador; ali, a sociedade selvagem e boa.
Um dia, houve um bom homem que conheceu um auto-intitulado dialéctico com espírito de sapateiro e, em contrapartida, um sapateiro com espírito dialéctico.
Quem sabe se esse sapateiro de hoje não vive nos malditos ratos etilizados de espírito obscurantista. E, para seu espanto e indignação, transportando com ele milhentas vezes mais carradas de democratismo efectivo do que certos bonzos da virtude democrática.

Comentário de miguel serras pereira
Data: 27 de Outubro de 2009, 9:07

Aniceto Azevedo & Cia,
não sei quantas revoluções você viveu. Por mim, conheci apenas o período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, e procurei participar, por palavras e obras, nos acontecimentos (criação de comissões de trabalhadores, colectivos que editavam jornais – o meu foi o Combate, o do João Crisóstomo, digamos assim, para o distinguir do posterior “Combate Socialista” e, depois, só “Combate”, na órbita do PSR -, manifestações q.b., etc.). Quando, depois do 25 de Novembro, Augusto Abelaira foi destituído da direcção da “Vida Munddial”, recusei-me, como a maioria da redacção, a continuar a trabalhar na revista e encetámos uma luta com a nova administração, que se prolongou até ao fecho de todas as publicações de O Século. Mas isto pouco importa. O que importa é que você perceba que o socialismo, que a cidadania governante reitera no núcleo do seu projecto de autonomia, significa o avanço no sentido da conquista e exercício do poder pelos trabalhadores organizados e não o seu arrebanhamento/arregimentação por corpos especializados de “governantes profissionais” que, invocando os “interesses históricos do proletariado” reduzem por meios policiais e militares os trabalhadores a condições de menoridade mental e de humilhação política que representam um agravamento da opressão e uma reciclagem da dominação hierárquica sobre o conjunto da vida social. A democracia não é a liofilização do socialismo, mas condição necessária do seu projecto de emancipação e autonomia. Como diz Moshe Lewin, um autor cuja interpretação estou longe de partilhar acerca de outros pontos: “Poderemos falar de um Estado soviético socialista [na URSS]? É difícil sustentar uma tal tese. O facto de [esse Estado] se ter designado a si próprio como ’socialista’, com um partido ‘comunista’, só tem pertinência em termos de palavras de ordem e de cartazes oficiais. O socialismo é uma forma de democracia que supera todas as formas que possam existir no mundo capitalista. O que não nos diz nada sobre o tipo de sistema económico que uma tal democracia poderá desejar instaurar; digamos simplesmente que o regime terá de estar entre as mãos da sociedade, sem capitalistas nem burocratas” (que monopolizem, entenda-se, a decisão política e disponham despoticamente dos meios de produção. Cf. Moshe Lewin, in Le Monde diplomatique, Archives, Nov. 2007). É possível que você continue a considerar-me uma bela alma da cidadania governante ou um bonzo da virtude democrática. Mas faço-lhe notar que os próprios termos da acusação que me dirige denunciam um ódio entranhado à democracia, por um lado, e que, por outro, querer reforçar o democratismo efectivo suprimindo as liberdades e direitos democráticos é como querer construir um círculo quadrado. Como dizia Rosa: “A democracia socialista não começa apenas na terra prometida, depois de ter sido criado o substrato económico do socialismo, a título de prenda de Natal para o bom povo que tivesse, no intervalo, apoiado fielmente um punhado de ditadores socialistas. A democracia socialista começa ao mesmo tempo que a destruição da dominação de classe e que a construção do socialismo”.
msp

Comentário de miguel serras pereira
Data: 27 de Outubro de 2009, 10:25

Acrescento, em tempo útil (espero), ao meu comentário anterior, a recomendação de uma visita à crónica de ontem de Manuel António Pina no JN: http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=1401328&opiniao=Manuel%20Ant%F3nio%20Pina

Está lá quase tudo, menos que Vítor Dias se esquece de dizer que a ignorância dos crimes na Indonésia, para ser tão grave como a ignorância do Gulag por parte dos responsáveis do PCP, teria de ser admitida pelos apoiantes do regime que os cometeu. Ou não?

msp

Comentário de Aniceto Azevedo
Data: 27 de Outubro de 2009, 12:32

MSP:
1º – «beatas e ratos de sacristia, alguns com passagem pela taberna a seguir à missa», «obscurantistas militantes», «anti-democrata por excelência», «inimigo jurado da emancipação dos trabalhadores, da do conjunto dos cidadãos e da sua própria», etc. Para quem se queixa de ser alvo de acusações, nada mau. A não ser que estejamos perante belas e luminosas metáforas poéticas, cujo nível não se confunde com a linguagem suja dos ratos de sacristia.
2º – Diz-me que eu tenho um «ódio entranhado à democracia». Esta terá de engolir em seco, porque simplesmente eu não lhe admito uma injúria de tal quilate. Sem entrar em grandes desenvolvimentos pessoais, lembre-se apenas de que muitos dos «ratos de sacristia» (e quando digo muitos, são mesmo muitos) que hoje são para si o bombo da festa cidadã, na altura em que provar o amor à democracia significava prisão e tortura estiveram no seu posto e lutaram por ela. Acho que basta ficarmos por aqui.
3º – V. engoliu uma cassete. A cidadania governante é a única resposta a tudo. A física newtoniana e Einstein? Cidadania governante. Fichte e a revolução francesa? Cidadania governante. As dificuldades reais da transição para o socialismo? Cidadania governante. Dickens e o realismo? Cidadania governante. Os manuscritos matemáticos de Marx? Cidadania governante. Cidadania governante a rodos, para dar e vender. O que demonstra que, para si, as dificuldades que a história apresenta se superam com muita vontade, com muito querer, e que, em última instância, o carácter repressivo deste e daquele regime se funda na vontade de implementar ou não a cidadania governante. Não é isto uma história para garotos?
Ou, para usar uma metáfora científica, não está V. preso à física newtoniana para explicar partículas quânticas?

Comentário de antónio sousa
Data: 27 de Outubro de 2009, 13:33

-Somos todos anjinhos.

Comentário de miguel serras pereira
Data: 27 de Outubro de 2009, 17:52

Aniceto Azevedo:
Vamos por partes. 1. Eu não me queixo de acusações, mas dos maus argumentos que me opõe e do modo como você esquiva as questões fundamentais. 2. Não me passa pela cabeça negar a coragem dos militantes comunistas que combateram o Estado Novo. Mas a sua coragem e determinação, frente a um regime ditatorial e opressivo, não torna automaticamente o PCP democrático – nem internamente nem como agente político cujo comportamento prefigura as grandes linhas de força de um tipo de organização da sociedade. Do mesmo modo, a coragem de Soljenitsin, frente ao Kremlin, não faz com que o possamos considerar um defensor das liberdades democráticas. Entendido? O “ódio entranhado” à democracia que transborda do seu modo de discutir não impede que você possa ter sido um resistente à ditadura de Salazar e Caetano. 3. É notável que esquive, entretanto, todas as questões de fundo, recorrendo ao artifício de desvalorizar os meus argumentos sem os considerar nem lhes responder. O que importa saber é se você entende que um regime político que teve gulagues, que manteve as posições de comando da economia e a disposição dos meios de produção nas mãos de uma fracção reduzida da sociedade, que negou os direitos e liberdades fundamentais aos trabalhadores, que impôs ao conjunto da população por meios policiais ora a arregimentação ritual sob a égide deste ou daquele guia ou “coriféu do marxismo-leninismo”, ora a despolitização e a privatização forçadas – o que importa saber, dizia eu, é se você considera que esse regime é, apesar de tudo, socialista, representando um passo em frente na emancipação dos trabalhadores, devendo por isso ser defendido. 4. A “cidadania governante”, o “projecto de autonomia”, o “exercício democrático do governo político e económico por aqueles que governa”, incluem e aprofundam a reivindicação socialista e libertadora que consta da divisa: a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores. São objectivos políticos e critérios da acção e organização presentes. Se não os aprova, discuta-os e oponha-lhe outros. Coisa que não faz, e que, se tentar fazê-lo, não creio que o leve longe.
Acho que, de momento, posso dispensar-me de continuar.
msp

Comentário de manuel j. neto
Data: 27 de Outubro de 2009, 19:50

Caro MSP,
aproveito a sua participação nesta caixa de comentários e a sua vontade e disponibilidade para o debate para lhe colocar à consideração algumas observações e pergntas.
1. não acha necesserário que, na discussão deste caso, se deva guardar algum espaço, por pequeno e secundário que seja, para criticar a leviandade, no mínimo, que significa o facto de alguém perguntar a um comunista (ou socialista) qual a sua opinião sobre os gulags soviéticos? Repare-se que aqui não se pretende abrir um debate sério, estruturado e historicamente rigoroso sobre o acontecimento dos gulags na ex-URSS mas apenas e só uma impressão, uma opinião, um “acho que” sobre o dado objectivo da condução à morte de um número obsceno de seres humanos há cinquenta anos atrás. Como se isto fosse sequer susceptível de ser objecto de uma “opinião” em vez de um pensamento crítico. É, como o Carlos Vidal diz abaixo, colocar o gulag ao nível do cozido à portuguesa, do futebol no bairro, do espectro estrito da política paroquial para consumo interno e isto parece-me, no mínimo, indecente tornando-se mais grave ainda tendo em conta que a questão contém uma insinuação implícita (do meu ponto de vista ignorante e idiota, para além de moralmente questionável): a de que alguém pode ser responsabilizado, integrado numa associação criminosa ou meramente acusado de cumplicidade pelo facto de as suas convicções ideológicas ou políticas coincideram, em abstracto apenas, com as daqueles que cometeram crimes em seu nome (e muitas vezes, como sabe, esta utilização foi meramente instrumental).
2. o Vitor Dias já colocou a questão e percebi, por um comentário anterior, que dela discorda; convem, ainda assim, reforçar o ponto: o capitalismo, não dispondo de uma mundividência holística, não funcionando como uma “cartografia cognitiva dotada de sentido” ou sendo, de certa forma, “privado de mundo” não deixa ainda assim de ter pressupostos de concepção política básicos e no seu contexto, e como, muita vezes, emanações, ramificações, explicitações do seu substracto ideológico, foram muitas, repetidas e exaustivas vezes cometidos crimes. Devemos colocar isso também em consideração aos apoiantes da democracia do mercado e entrar numa espiral alucinante (e vagamente remanescente do catolicismo) de acusação, culpabilização e auto-flagelação? Na minha opinião, não.
3. De certa forma, parece-me que obrigar repetidamente um comunista em 2010 a penitenciar-se pelo gulags corresponde a uma forma de pensamento que me parece viciada: a mesma que levou Hannah Arendt a considerar tipologica e ontologicamente equivalentes os regimes nazi e soviético, ignorando o facto de o nazismo corrresponder, ainda que guardando uma ou outra vinculação ideológica de pendor racista e anti-semita com algum lastro, misturando com esoterismos e paganismos reciclados, a um buraco negro histórico que não terria passado de uma nota de rodapé meia aberrante e cómica num compêndio da história política do século XX não tivesse havido uma crise económica como a de 29, entre outras circunstâncias históricas; o comunismo por seu turno corresponde, mesmo em 17 como sabe a uma outra vinculação que não surge com a URSS mas vinha já de trás, afirmada teoricamente. Por isso mesmo, alguém afrimar-se nazi em 2010 é necessariamente diferente de alguém afirmar-se comunista.
4. A questão que no entanto mais me interessa aqui é relativamente lateral mas revelou-se plenamente na discussão que fui acompanhando acerca deste assunto: a tendência para, principalmente numa certa esquerda mais desalinha, para a exigência (vazia, inútil e idiota, no meu ponto de vista) da condenação do extermínio de milhões de pessoas (?) que pessoalmente não vejo que leve a lado nenhum e que pasa totalmente al lado da questão. É CLARO que quelquer pessoa lamenta e condena o extermínio, dizê-lo é uma banalidade sem consequência nem devir. O pior é que normalmente esta exigência (moralista e empenhada em não se sabe bem o quê, num activismo retórico de uma certa esquerda que está num maquis mental, a protagonizar uma resistência fantasiosa a coisa nenhuma não se apercebendo que faz parte do jogo) vem acompnahda de um discurso axiologicamente neutro acerca dos “direitos humanos”" que zizek critica no livro que o senho traduziu, o violência, e com o qual estou de acordo. O que é mais significativo nesta postura, e isto mais do que qualquer outra consideração interessa-me particularmente, é o facto de se traduzir num a-historicismo, num movimento de voluntária subtração em relação à força centrífuga da história e de colocação numa espécie de parênteses, num intervalo de tempo, na anti-matéria. Recusar a violência tout court, limitar-se a condená-la e exigir a sua condenação retrospectivamente é banal e contruir mitificações acerca da sua recusa é sobrecodificar a realidade. Tdos sabemos como é fácil estar do lado certo quando nos colocamos antecipadamente fora do confronto, fora portanto do vórtice vertiginoso e delirante da história. E esta é, inevitavel e infelizmente uma história de violência, quer queiramos quer não. Importa, do meu ponto de vista, mais do que lamentá-la ou condená-la (e há que dize-lo, os comunistas, a esquerda em geral, fê-lo mais do que qualquer outro campo ideológico), importa compreendê-la sem formulações éticas ou morais distorcidas. O campo do debate político paroquial, para consumo internoe e dominado pela conjuntura e os pressupostos mediáticos mais rasteiros (que é leit-motiv desta discussão) não é seguramente o mais adequado para o fazer. Imlica outro tempo de respiração e outra profundidade, como sabe. E implica o embate com coisas desconcertantes como esta e que considero paradigmática: Pol-Pot e o Cambodja, seguramente uma das experiências mais atrozes e traumáticas do século XX, planeada por um homem educado, relativamente sensível e discreto que adoptou como nome as iniciais de POLíticaPOTencial (em frances – politique potentiel). Se virmos bem as coisas, isto configura mais explicitação da natureza do neolibealismo e da tecnocracia actual do que contribui para a discussão acerca da esquerda, do comunismo e da sua auto-crítica e das vias de emancipação do homem, ao contrário do que o Zé Neves aí acima parece fazer crer.
Com um abraço, se quiser responder agradeço,
manuel neto

Comentário de manuel j. neto
Data: 27 de Outubro de 2009, 20:05

advertência:
por lapso esqueci-me de referir que obviamente o meu comentário anterior é também, e talvez até principalmente dirigido ao Ricardo Noronha, o autor do post, e já agora também ao Zé Neves, ambos reproduzindo um discurso que me parece particularmente perigoso e e alvo das críticas que fiz.
Fui induzido na escrita pelo facto de o último comentário que li ter sido o de MST.
cumprimentos a todos

Comentário de rui david
Data: 27 de Outubro de 2009, 21:15

Eu queria-te ver, sem perceberes, bom comunista que eras, levado para um buraco qualquer, a tua família para outros, a meditar sobre o perigo, e o vazio idiota do “discurso axiologicamente neutro acerca dos “direitos humanos”".
O que é que esta bosta quer dizer?
Que tudo não passou de uma estatística, cujo maior inconveniente é o de poder embaraçar, hoje, os comunistas em entrevistas (e andava esta malta ainda há tão poucas semanas indignada com o “condicionamento” imposto aos media)…
Toda esta fuga para a frente apenas quer dizer uma coisa: que não há nada a fazer e o Gulag continua exactamente com a mesma vitalidade POLiticamentePOTencial que há cinquenta anos. Haja espaço…

Comentário de miguel serras pereira
Data: 27 de Outubro de 2009, 23:09

Caro Manuel Neto, vou tentar responder, dissipando os mal-entendidos. 1. Não sou por princípio e sempre contra a violência. Há uma violência democraticamente legítima, e dá bem pouco valor à liberdade e à igualdade quem não aceita a luta de morte quando elas estão em jogo. Mas a violência de um Estado policial, a existência de campos de trabalho forçado, a omnipresença de uma polícia secreta acima da lei, a tortura, as liquidações e deportações de massa decretadas pela burocracia e com quotas de vítimas a cobrir e superar, são traços que comprometem irremediavelmente uma política de emancipação – sejam quais forem as circunstâncias: estas podem derrotar os que em determinado momento combatem por uma república de conselhos (é a força das circunstâncias), mas os que combatem por uma república de conselhos não podem, sem se transformarem em inimigos dessa república, tornar-se agentes de um regime de dominação hierárquica. Quem defende o poder organizado das assembleias de cidadãos que se dão a sua própria lei, que só são governados na medida em que podem participar igualitariamente no exercício do poder político do qual relevam, pode ter em múltiplas circunstâncias o dever de pegar em armas – mas não em defesa de um poder político que tem como traço fundamental asfixiar a liberdade política dos cidadãos. 2. A questão das relações entre os regimes totalitários terá de ficar para outra altura. Em todo o caso, Hannah Arendt considera que o “totalitarismo” na URSS acaba com a morte de Estaline: depois, em seu entender,há uma ditadura, um Estado opressivo, etc., mas não um regime totalitário propriamente dito. E concordo que um comunista, hoje, quando se desliga do “partido” e da concepção do partido como detentor supremo da única condução legítima das “massas”, adoptará muito mais facilmente posições propriamente democráticas ou, se capitular perante a ordem estabelecida, “liberais” e articuláveis na paisagem de um “Estado de Direito”, do que um nazi. 3. Não comentei, nem estou interessado em discutir, senão por tabela as declarações de Rita Ferro. Mas interessa-me mostrar que os regimes ditos do “socialismo real” são uma ilustração do contrário da emancipação dos trabalhadores – que, como diz o Zé Neves, só pode ser auto-emancipação, e que representam casos de opressão e exploração agravadas por comparação com outros países nos quais as lutas travadas por diversos movimentos sociais têm logrado impor limites à dominação e assegurar direitos universais que forçam as oligarquias a uma dose maior ou menor de liberalismo, como o Ricardo Noronha disse acima.
Sei que a falta de tempo me obriga a deixar de lado os desenvolvimentos e explicações – com exemplos históricos concretos – que as suas objecções justificariam. Mas creio ter deixado clara q.b. a minha posição. Espero ter aqui mesmo ou noutros lugares outras oportunidades de o fazer, sempre que isso me pareça necessário ou simplesmente de alguma utilidade. Agradeço por fim o tom e a franqueza da sua interpelação. Sinceramente

msp

Pingback de cinco dias » Ainda a polémica sobre Rita Rato e uma rejeição completa do “socialismo democrático”
Data: 28 de Outubro de 2009, 0:48

[...] direitos humanos na China e a sacralização da democracia (o sufrágio universal, o parlamento), o Ricardo Noronha fez, involuntariamente, com que eu aqui me concentrasse nalguns dos tópicos citados, mas [...]

Comentário de manuel j. neto
Data: 28 de Outubro de 2009, 4:35

abrir parênteses:
(rui david,
lamento mas não, eu não acho que o gulag tenha sido só uma estatística e basta ler de novo o comentário, embora eu ache que não vale a pena o trabalho, para encontrar vários adjectivos entre outras considerações que o comprovam. O que eu digo só é que , em 2010, pós-colonialismo europeu (ex mais atroz: Congo belga -já leu o Coração das Trevas do Conrad?), pós-nazismo, pós-estalinismo, pós-muro de Berlim e guerra fria, para nos restringirmos ao século XX, é demasiado fácil proclamarmos enfaticamente a lista dos direitos humanos fundamentais (e para isso basta ver a inoperacionalidade e ineficácia jurídica da Carta dos Direitos Humanos). E fácil porque correspnde a uma leitura distanciada do mundo (particularmente moralista quando tenta responsabilizar alguém por cumplicidade com crimes do passado), uma leitura que não se implica na história nem se quer implicar no presente, e não raras vezes se revela, no contexto actual, um mau diagnóstico que mascara e oculta voluntariamente o lastro totalitarista e nazi que se dissemina no presente.
Não quero deixar de dizer que achei sinceramente graça ao seu último comentário sobre Pol Pot e que o “haja espaço”, acertadissimo, define muito bem uma certa inclinação genocidiária que houve ao longo do último século, particularmente do nazismo, que provavelemte quereria apenas isso, espaço. Um abraço)

Caro MST,
Compreendo que não tenha respondido às questões que levantei, que não tenho a certeza de serem sequer pertinentes. Gostaria de poder fazer um comentário às suas últimas observações mas, apesar de acompnhar, não com demasiada atenção, algumas questões e discussões prementes da esquerda e de ter lidos seus comentários neste blog acerca da cidadania governante, não tenho o conhecimento nem sequer o interesse suficiente em reflectir acerca da possibilidade da auto-emancipação das massa (conceitos e teorias que me parecem hoje muito fantasiosas e implausiveis). Resta-me só, em primeiro lugar, notar que já antes a sua posição tinha ficado clara e que, de resto, não tenho intenção de jogar, neste âmbito como em todos os outros, com ambiguidades ideológicas ou morais. Em segundo lugar, queria esclarecer o seguinte: estamos de acordo quanto a possibilidade de uma violência justificada e legitima mas de forma alguma considero, tal como MST, o gulag uma ilustração dessa tese – espero que isto tenha ficado claro. O que queria dizer é que estes acontecimentos se inscreem numa constelação histórica complexa, pluridimensional e de leitura difícil e que talvez sim, talvez como disse o companheiro de sala de aula de Hitler nos primeiros anos de instrução, sobre certas coisas seja necessário guardar algum silêncio.
Resta-me apenas agradecer-lhe o seu generoso feedback ao meu comentário, que relido agora parece apressado e pouco relectido, e dizer-lhe que a sua participação em espaços de debate é extremamente significativa, muito gratificante e encorajadora.
cumprimentos e um abraço com amizade.

Comentário de manuel j. neto
Data: 28 de Outubro de 2009, 5:27

Caro MST,
um esclarecimento apenas que me parece importante: as questões que levantei não foram formuladas em termos de discordância com as suas posições mas antes propulsadas por uma vontade em conhecer a sua posição quanto a outras dimensões da discussão. Tal como o senhor, eu não estou minimamente interessado, como me parece ter ficado claro, em discutir as declarações da Rita Rato.

Caro Rui David,
para ser um pouco mais explícito: tenho problemas com o frenesim retórico óptica e plástica da esquerda (comunista e não-tão-assumidamente comunista, whatever), com o seu militantismo ou activismo militante, dependendo da variante, que faz da denúncia o seu passatempo preferido mas que não se compromete com o mundo, ou apenas se compromete em função da necessidade de assegurar as suas posições e interesses, nem, e isto é o mais grave, se denuncia a si própria. Incomoda-me a sua postura a-histórica e a sua produção proliferante de códigos de interpretação do mundo que a impede de efectivamente ver o mundo em que vive e, entre outras coisas, a transfixação da política potencial ( de um espectro de Pol-Pot) nas sociedades de hoje. Por isso digo que é fácil e inútil em 2010 (na época dos consensos trágicos em torno das questões civilizacionais que deram origem as coisas mais delirantes e idiotas como a teoria do fim da história) condenar o gulag – difícil é ridentificar os traços, as remanescências, os lastros e as leituras possíveis do gulag numa perspectiva transhistórica e que afirme algo de axiológica e ideologicamente relevante porque isso supõe uma postura crítica mas ao mesmo tempo afirmada numa suspensão que rejeita a denúncia strictu sensu. É esse o debate que quero fazer.
cumprimentos

Comentário de miguel serras pereira
Data: 28 de Outubro de 2009, 17:14

Caro Manuel Neto,
é um gosto discutir consigo – só que terei de ser breve (mas, de passagem, quando se referir a mim por iniciais, use, por favor MSP, e não MST – não leve a mal o reparo, pois eu próprio troquei o nome de Rita Rato por… Rita Ferro!).
Talvez o horizonte não auspicie ventos muito favoráveis à democracia, no sentido em que a entendo – ou ao projecto de autonomia. O problema é que se desistirmos de o querer, da vontade política de agir e pensar nesse sentido, teremos de desistir de muitas coisas mais: o espírito crítico nos lugares da coexistência quotidiana, no espaço público e no “diálogo da alma consigo própria”, e restar-nos-ão por horizonte ou o culto destes ou aqueles ídolos e mitos tutelares da dominação ou o cinismo e os reflexos condicionados do homo economicus. Ou ainda, alguma mistura das duas grandes receitas. Só mais uma observação: eu não falei de auto-emancipação da massa, mas da possibilidade de lutarmos por uma sociedade que é livre e autónoma porque se forma formando mulheres e homens livres e autónomos, indivíduos capazes de iniciativa e responsabilidade, de distância e interrogação em relação a si próprios, de participação e singularidade. Cordialmente
msp

Comentário de manuel j. neto
Data: 28 de Outubro de 2009, 19:51

Caro MSP,
lamento ter-me enganado nas iniciais do seu, engano para o qual só o seu reparo me alertou (era muito tarde e talvez essa seja uma boa desculpa…).
Quanto ao seu último comentário. Não nego a necessidade da luta ou a manutenção no horizonte de um objectivo de construção de uma sociedade livre e autónoma; e também não discordo de si, evidentemente, quando diz que não devemos desitir de um pensamento crítico e principalmente do “diálogo da alma consigo própria”. Reconheço também no activismo de esquerda e naqueles que tentam prosseguir com este e outros debates um voluntarismo bem-intencionado. Acho simplesmente que estes discursos e estas bases de reflexão falham de certa forma o ponto e recusam a evidência da inadequação das suas tipologias críticas a uma realidade que migrou para uma outra coisa, para uma outra direcção. Por isso digo que falta alguma capacidade de auto-denuncia , de crítica dos seus próprios pressupostos de critica.
Um exemplo: o da liberdade de expressão. Eu não sou evidentemente a favor de qualquer tipo de condicionamento da liberdade de expressão, tal como ele existe, mas parece-me que fazer desse o centro de um discurso emancipatório é fundamentalmente errado. Um filófoso de que gosto imenso (digo filósofo embora não esteja a ser totalmente rigoroso mas talvez por falta de melhor termo), Boris Groys, que viveu e deu aulas na ex-URSS reponde, quando questionado acerca da falta de liberdade nos países socialistas, que neles, como sistemas políticos no sentido mais estrito do termo (no seu livro post-scriptum du comunnisme ele explica isto) – ou seja, estruturados a partir da palavra – o que era dito tinha uma importância específica e politica pelo que poderia conduzir a efeitos concretos de ordem também política enquanto que, por contraste, que nos países ocidentais e capitalistas a palavra tinha perdido o seu lugar e a possibilidade de inscrição no sistema. Resumindo: uma ideia subversiva veiculada publicamente poderia conduzir à morte e à prisão na URSS enquanto que na Alemanha do século XXI a palavra, se for especializada e consoante o seu grau de legitimidade, significa quando muito, no caso de Groys, uma fonte de rendimento económico, em conferências, palestras e aulas em respeitáveis universidade (e talvez quanto mais subversiva mais seja valorizada). O nosso problema no que diz respeito à liberdade de expressao parece ser este: o da total inocuidade do uso que dela fazemos, a impossibilidade de inscição de todos os discurso, que se revela em plena consonância com a cargografia cognitiva pós-histórica da globalização. Tipologias como as da esquerda moderna de hoje revelam-se, nesta ordem de ideias, totalmente desfasadas e inuteis e deveriam portanto ser objecto de revisão e auto-denuncia.
Muito grato pelo interesse nos meus comentários e disponibilidade para o debate, despeço-me atenciosamente,
manuel neto

Comentário de miguel serras pereira
Data: 28 de Outubro de 2009, 20:58

Caro Manuel Neto,
sim, mas. Brevemente: não podemos querer defender o “diálogo da alma consigo própria” esquecendo que este é uma criação social-histórica e não uma qualidade natural do indivíduo. Os indivíduos humanos não falam nem consigo próprios nem com os outros sem que a linguagem, que é uma social-histórica primeira, os institua como actores da palavra. Portanto, não renunciar ao tipo de indivíduo, capaz de viver consigo próprio de maneira explícita e se responsabilizar singularmente pelos seus actos e pensamentos, é não renunciar a manter vivo e a alargar a que eu chamo o projecto político da cidadania governante, ou projecto de autonomia (como lhe chamava Castoriadis).
A segunda questão. Sim, há outros mecanismos de neutralização da palavra que não a censura clássica ou a proibição policial. Em certas condições, são mesmo mais eficazes. Podíamos considerar aqui um tema caro ao Tito Cardoso e Cunha sobre a importância “comunicacional” do silêncio. Podíamos reflectir sobre os meios de comunicação e o su modo de funcionamento. Sobre as ameaças das “novilínguas” e dos regimes cada vez mais impostos à palavra no sentido de restringir o pensamento. Sobre o que são as exigências mínimas e as reivindicações mais urgentes da democracia na matéria. Mas nada disso justifica a censura clássica ou a repressão policial, ou a censura “comunitarista” que recalca nos membros da tribo a tentação de duvidar da verdade que lhes foi revelada e proposta como condição de identidade.
Quanto à esquerda moderna, não sei bem o que tem em vista. O “vale tudo”, o indiferentismo, o relativismo multiculturalista, a multiplicação dos direitos identitários interessam-me pouco, ou, muitas vezes, só negativamente. Mas aqui teríamos pano para mangas bem maiores do que as que este espaço permite. Cordialmente
msp

Comentário de Eugénio Oneguine
Data: 29 de Outubro de 2009, 10:39

mst e mjn,
vão começar um namoro aqui?

Comentário de nuno
Data: 25 de Fevereiro de 2010, 17:00

Eu sou de esquerda. Ou de extrema esquerda, segundo alguns. E não compreendo porque é tão raro encontrar (à esquerda) posições como a do Rui Tavares, que escreveu no Twitter, recentemente:
“Morreu Orlando Zapata Tamayo, preso político cubano em greve de fome. Um dia triste e feio. Cuba tem de libertar os seus presos políticos já”
http://twitter.com/ruitavares/status/9572304265

A mim não me interessa se uma atrocidade é cometida por uma democracia capitalista, um regime militar, uma nação fascista, um estado teocrático ou um país socialista/comunista… Não interessa, é sempre condenável. Se sobre a Guerra no Iraque concordo que não interessa às vítimas se as bombas são lançadas por uma democracia; obviamente tenho de defender que, num regime socialista, não interessa a um preso político se foi preso por ser contra-revolucionário e difundir propaganda reaccionária. Se na defesa da utopia se abrirem todas as excepções para a força e a repressão, então mata-se, desde o início e inequivocamente, qualquer possibilidade de utopia.

E por isso, eu que sou de esquerda/extrema esquerda, entendo perfeitamente que alguém de direita, depois de me escutar a falar de ideologia e propostas políticas, pergunte simplesmente, “pois… e a Coreia do Norte, qual é a tua posição quanto à Coreia do Norte?”. E se a resposta for evasiva, turva, então a ideologia, o que se disse antes e o que disser a seguir fica, obviamente, em causa.

Se eu perguntar a um capitalista, depois de o ouvir falar sobre os méritos da democracia liberal e a liberdade dos mercados, “então e qual é a tua posição sobre o trabalho escravo? sabes que há mais de 20 milhões de escravos no mundo?”, quero uma resposta honesta. Se me fugir à pergunta, desconsidero o que me disser a seguir.

É como um ateu que perguntasse a um católico (depois de o ouvir discorrer sobre religião), “então… e qual é a tua posição sobre a concordata? e os direitos dos homossexuais?”. É uma forma de clarificar as coisas. Se o católico fugir à questão, perde credibilidade se a seguir quiser falar de ecumenismo, liberdade religiosa, etc.

É curioso que o tema deste post (criticado por leitores de esquerda), concretiza-se em alguns comentários. Em vez de se contradizer o que é dito no texto, atira-se com um “o capitalismo é bem pior”.
«O problema disto é que, nada dizendo acerca do que concretamente se pensa sobre a condição operária na Coreia do Norte ou sobre a liberdade de imprensa em Cuba, os e as militantes ficam confrontados com um vazio conceptual. »
Aí está. E eu quero saber o que pensam sobre estas questões os políticos em que voto. Quero mesmo.

Comentário de rui david
Data: 25 de Fevereiro de 2010, 22:48

nuno, és um gajo porreiro (de extrema esquerda e tal, até…) mas és ingénuo. A deputada Rato, o sujeito das Bicicletas, o rapaz Vilarigues, o Bernardino e restante família, já te explicaram à saciedade o que pensam sobre estas questões. E é mesmo isso que tu disseste. E não passa daí. Fuzilaram o dissidente, ou deixaram-no que morresse à fome? A culpa foi dele. Houve milhões (poucos, disse o Vilarigues, um rapaz que em tempos recolheu assinaturas para libertar presos políticos, incluindo o Pai dele…), e os que houve foram gente sem grande préstimo, quanto muito houve uns “erros”, uns “exageros”… mas então não é que há também tanta gente nas prisões americanas?
Não passa disto rapaz, não passa disto… e continuam todos muito coerentes, muito indignados com as “injustiças”, muito morais, muito muito muito…

Comentário de nuno
Data: 26 de Fevereiro de 2010, 10:01

Eu digo, como o Slavoj Žižek, quando se refere a Cuba, ao Chavez e aos regimes que caíram, como o da URSS, “we should criticize them ruthlessly”.
http://www.youtube.com/watch?v=_GD69Cc20rw

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 26 de Fevereiro de 2010, 15:31

É a coisa mais acertada que o ouvi dizer nos últimos tempos.

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