Portugal em Guerra

Numa comentário a um meu post recente sobre o Nobel da Paz de Obama “ezequiel” [21 de Outubro de 2009, 22:26] pergunta-me:

qt ao afeganistão. queres que ele tire de lá as tropas? é isto? explica-me a tua posição, p.f? os EUA deveriam sair de toda a área? será isto?

A resposta curta é sim. Há que não esquecer por que se deu a invasão do Afeganistão. Poupem-me a esparrela de que foi retaliação face aos ataques do 11/Set. Estes, quanto muito, foram o pretexto para planos de dominação imperial da região. Tão pouco foi para derrubar os Taliban, com quem a administração Bush tinha boas relações, e que devido à estratégia militar dos últimos anos voltou a ganhar forças e recrutas em significativas partes da região. Foi para apanhar fragilizar a al-Qeada e capturar Osama bin-Laden? Osama, esse líder que precisa de diálise regular, continua desaparecido [recomendo o documentário de «Onde está Osama bin Laden» de Morgan Spurlock, o mesmo que se empanturrou com hambúrgueres]. Quanto à fragilização da al-Qaeda, como aferir se está mais fraca (afinal deram-se os ataques em Londres, Madrid e outros), ou se conseguiram mais recrutas após a invasão e ocupação do Afeganistão e Iraque, e a continuação do apoio a Israel. O Brookings Institute estima que para cada ataque com aviões sem piloto (os drones) 10 civis morrem por cada militante da al-Qaeda, o que estimula a vontade do povo afegão se ver livre das forças de ocupação. Foi para instaurar a democracia que se invadiu o Afeganistão? Veja-se a fantochada que é o actual processo eleitoral. O mais alto diplomata Estadunidense no Afeganistão, que acompanhava com a ONU o processo eleitoral, foi despedido pelo secretário-geral da ONU quando acusou o seu homólogo Norueguês de ajudar a esconder a fraude eleitoral e ser favorável a Hamid Karzai (ver). Galbraith afirmou mesmo que este processo fraudulento entregou aos Taliban “a maior vitória estratégica dos últimos oito anos de luta contra os EUA e seus aliados Afegãos”.

Há quem argumente que as razões para invadir poderiam não ser válidas, mas que agora que se está lá não se pode simplesmente sair, deixar o povo sujeito à guerra civil entre os “terroristas” e as forças nacionais aliadas ao ocidente. Isso seria irresponsável*! O mesmo argumento é usado no Iraque. O mesmo argumento foi usado no Vietname, na Argélia. As forças estrangeiras não podem é ficar, pois estão a criar mais mal que bem. E quem são elas para prever o que virá caso saiam.

E desejo não só que os EUA retirem as tropas do Afeganistão, mas também que sejam retiradas todas as forças militares, em particular as da NATO, incluindo as Portuguesas. Sim, porque há que não esquecer que Portugal está em guerra. Temos neste momento 105 membros das Forças Armadas Portuguesas (FAP). Segundo o nosso Ministério da Defesa Nacional, Portugal tem as seguintes forças militares na região:

No Afeganistão, na International Security Assistance Force (ISAF), até Agosto de 2008, com uma Companhia que constituiu a Quick Reaction Force do Comando daquela (COMISAF); entre Setembro e Dezembro de 2008, com um Destacamento de C-130 para o Transporte aéreo intra-Teatro; desde Maio de 2008, com um Operational Mentor and Liaison Team a desempenhar missões de assessoria numa Unidade do Afghan National Army (ANA) e na United Nations Assistance Mission in Afghanistan (UNAMA). (…)

A Força Área disponibilizou também, entre Setembro e Dezembro de 2008, um Destacamento de C- 130, para o Transporte aéreo intra-teatro no Afeganistão. (…)
No Afeganistão encontra-se a 1ª Operational, Monitoring and Liaison Team (OMLT) de Divisão, composta por 16 militares, a prestar assessoria militar à Capital Division do Exército Nacional Afegão, numa Operação conduzida ao abrigo NATO. O Módulo de Apoio / Segurança, composto por 56 militares tem por fim último garantir o funcionamento, a protecção e a sustentação das FND nacionais no Afeganistão. A Equipa de Saúde de 16 militares para a Medical Treatment Facility (MTF) Role 2E (Enhanced), colocada em Kaia, integra, desde 15 de Junho de 2009, a estrutura hospitalar Role 2E, liderada pela França. E o Destacamento C-130, constituído por 41 militares, representa o contributo nacional para a Força da NATO em reforço da ISAF durante o processo eleitoral, prestando apoio de transporte aéreo intra-teatro à Força da NATO.

Neste imbróglio de forças, e passados 8 anos, convém recordar que o início da campanha sobre o Afeganistão teve início a 7 de Outubro de 2001, por acção unilateral. Só mais tarde foram mobilizadas forças da NATO e estabelecida as missões das NU, que funcionam sob comando da NATO. Esta presença das NU deu à ocupação do Afeganistão, durante a invasão e ocupação do Iraque, a aura da “guerra justa”, autorizada e oficial, contra o terrorismo. Era ali que havia indícios da presença do Afeganistão: embora também possa estar no Paquistão, aliado dos EUA; e embora os terroristas suicida do 11/Set fossem sobretudo da Arábia Saudita, outra nação amiga dos EUA. Era também no Iraque que ocorriam mais ataques às tropas ocupantes, donde provinham mais feridos e mortos. Daí que durante a campanha presidencial Obama tenha procurado agradar a todos prometer retirar (gradualmente) do Iraque e re-orientar a guerra ao terrorismo para o Afeganistão. Mas a maré tem vindo a virar. O número de ataques a tropas ocupantes aumenta. Por isso o Pentágono procura censurar fotos de soldados mortos em combate. E há que não esquecer que já faleceram em acção dois membros das FAP: o sargento João Paulo Roma Pereira (a 18 de Novembro de 2005) e Soldado Para-quedista Sérgio Miguel Vidal Oliveira Pedrosa (a 24 de Novembro de 2007).

Que dirá sobre tudo isto o novo Ministro da Defesa Nacional, Augusto Santos Silva?

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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16 respostas a Portugal em Guerra

  1. Luis diz:

    E como lembra F. William Engdahl:
    (…) “Mais nove bases

    Em Dezembro de 2004, durante uma vista a Cabul, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld finalizou planos para construir nove bases no Afeganistão nas províncias de Helmand, Herat, Nimrouz, Balkh, Khost e Paktia. As novas somam-se às três principais bases militares dos EUA já instaladas na sequência da sua ocupação do Afeganistão no Inverno de 2001-2002, ostensivamente para isolar e eliminar a ameaça de terror de Osama bin Laden.

    O Pentágono construiu as suas primeiras três bases no Aeródromo de Bagram a Norte de Cabul, o principal centro logístico dos EUA; no Aeródromo de Kandahar, no Sul do Afeganistão; e no Aeródromo de Shindand na província ocidental de Herat. Shindand, a maior base dos EUA no Afeganistão, foi construído a meros 100 quilómetros da fronteira do Irão e a uma distância de ataque à Rússia e também à China.

    Historicamente o Afeganistão tem sido a área central para o Grande Jogo russo-britânico, a luta pelo controle da Ásia Central durante os séculos XIX e princípio do XX. A estratégia britânica então era impedir a todo o custo que a Rússia controlasse o Afeganistão e portanto ameaçasse a jóia da coroa imperial britânica, a Índia.

    O Afeganistão encarado de modo semelhante pelos planeadores do Pentágono, como altamente estratégico. É uma plataforma a partir da qual o poder militar estado-unidense pode ria ameaçar directamente a Rússia e a China, bem como o Irão e outras terras ricas em petróleo do Médio Oriente. Pouco mudou geopoliticamente ao longo de mais de um século de guerras.

    O Afeganistão é uma localização extremamente vital, abarcando a Ásia do Sul, a Ásia Central e o Médio Oriente. O país também está situado ao longo de um proposto traçado de oleoduto dos campos petrolíferos do Mar Cáspio para o Oceano Índico, onde a companhia de petróleo americana Unocal, juntamente com a Enron e a Halliburton de Cheney, tem estado em negociações para obter o direito exclusivo de trazer gás natural do Turquemenistão através do Afeganistão e do Paquistão para a enorme central termoeléctrica a gás natural da Enron em Dabhol, próximo de Mumbai. Karzai, antes de se tornar o presidente fantoche dos EUA, foi um lobbista da Unocal. (…)”

    O resto aqui: http://resistir.info/eua/enghdahl_20out09.html

  2. Diogo diz:

    Caro André Levy, estou absolutamente de acordo consigo. Quanto ao novo Ministro da Defesa Nacional, Augusto Santos Silva, que, segundo consta, gosta de malhar, gostava que ele malhasse com os palitos num poste (a 150 km/h) .

  3. xatoo diz:

    outro pensamento lapidar de Ezequiel nesse post é esta pérola sobre um criminoso de guerra:
    “o General Wesley Clark pôs um fim à interminável guerra da Jugoslávia(…) é um gajo brilhante”
    coitado do e-Zequiel, não é para ser levado muito a sério
    http://www.commondreams.org/headlines04/0126-05.htm

  4. rui david diz:

    eu acho que não era preciso um post tão longo. a resposta é sim, e basta.

  5. antónio diz:

    Que grande treta, que grande conversa, que esplêndidas “análises”…

    A única razão porque se deve sair do Afganistão é porque, conforme está mais que demonstrado, é impossível ganhar.

    O resto é blá blá.

    🙁

  6. Aires da Costa diz:

    André Levy

    Portugal em Guerra?
    Desculpe mas o senhor só pode estar enganado! Para Portugal estar em guerra é preciso uma decisão do Parlamento. Nem mesmo o BE (já que a omissão do PCP não é de estranhar com os seus caldos de galinha) levantou esta questão. O que deve haver é uma missão de paz

    Luís

    Pode ser que tenha razão na sua análise sobre o interesse estratégio do Afeganistão, mas eu estou mais tentado para o interesse sobre o controle dessa outra matéria prima: o Ópio.

  7. ezequiel diz:

    Fiz uma pergunta. Tu respondeste. Muito obrigado, André. Se me permites, gostaria de dizer o seguinte:

    Por razões muito diferentes das tuas, com toda a certeza, eu fui e sou contra a “guerra ao terrorismo”, tal como foi planeada e implementada pelo Bush e os seus comparsas. O terrorismo não se combate com uma “guerra.” Combate-se de outra forma. A justificação da guerra do Afeganistão foi a de que os Talibans, que na altura detinham o poder do “estado”, proporcionavam à Al Quaeda um santuário onde pudessem preparar a guerra santa. (Munique tb foi um “santuário”!?… mas ninguém declarou guerra à Alemanha!) Este é um raciocínio estúpido. Existem dezenas de possíveis santuários. A verdade, nua e crua, é que o terrorismo islâmico não necessita de santuários. (ou seja, n é necessário atacar estados, regimes ou territórios) Basta atacar certos indivíduos e organizações, estejam eles e elas onde estiverem.

    A meu ver, a invasão do Iraque e a guerra do Afeganistão tem mais q ver com interesses geo-estratégicos do que com os talibans, o Saddam e o seu nefasto regime, a democratização e bla bla. Quais serão estes interesses? Deixo-te mais esta pergunta, caro André. estou curioso quanto à tua resposta (se quiseres responder, claro).

    Os EUA nunca deveriam ter invadido o Iraque e o Afeganistão. Deveriam ter feito algo de muito diferente. Foram estúpidos. Não é coisa rara na política estrangeira Americana.

    A CIA deveria ter tratado da guerra sozinha. Este erro, o de combater o terrorismo com exércitos, marinhas, forças aéreas e soldados convencionais tem sido repetido por todos (Russos, Americanos, Israelitas, Britânicos etc), sem excepção. É um erro elementar, a meu ver. E trágico. Absolutamente trágico. (milhares morreram). Só os serviços secretos é que deveriam combater o terrorismo. O paradigma ainda não mudou. Espero que mude num futuro próximo.

    Xatoo,

    Pois. Os Sérvios deveriam ter limpo do mapa centenas de milhar de pessoas para depois, e só depois, conquistar a tua infindável admiração. Quando os Sérvios acabassem de fazer uma “limpeza” à casa, a Europa teria mais uns quantos milhões de exilados, uma situação de guerra permanente no Sul da Europa…e possivelmente uma mini Chechnyia às portas da Europa…Aquilo que os Russos fizeram na Chechnyia (um perigoso ninho de fanáticos) foi tão contraproduzente como aquilo que os Americanos fizeram e estão a fazer no Iraque e no Afeganistão…

    cumps
    ezequiel

  8. ezequiel diz:

    oops. errata:—estão a fazer no Iraque e no Afeganistão…os Sérvios preparavam-se para fazer algo com consequências muito semelhantes (teriam criado uma mini chechniya às suas portas)

    tou cansado.
    boas noites “camaradas”
    LOL
    ezequiel

    ó Xatoo, n tens mais nada que fazer do que brincar com o meu nome. é mesmo o meu nome. não é um pseudónimo foleirote.

    cumps
    z

  9. ezequiel diz:

    Mais uma vez: obrigado pela gentileza de teres respondido à minha pergunta desta forma.
    Abraço
    ezequiel

  10. ezequiel diz:

    n precisas de publicar isto. eu cometo imensos erros tb.

    “Numa comentário a um meu post recente sobre…”

    num comentário a um post publicado por mim

    bom domingo

  11. Luis diz:

    “Os Sérvios deveriam ter limpo do mapa centenas de milhar de pessoas” ????? Mas os sérvios é que foram “limpos” às centenas de milhares das suas casas e propriedades. Nem sequer isso ainda percebeu? Nem sequer ainda percebeu que na Sérvia continuam a viver em harmonia ex-jugoslavos de todas as etnias? E nem sequer ainda percebeu que a Chechénia é uma república russa como muitas outras e que o que os russos fizeram na Chechénia é exactamente o mesmo que os espanhóis fazem no país basco, os italianos na Sardenha ou os franceses na Córsega?

  12. ezequiel diz:

    Caro Luís,

    Dizer que aquilo que os Russos fizeram na Chechniya é o mesmo que os espanhóis fizeram no país basco (etc) é de uma miopia atroz. os russos rodearam Grozny e arrasaram a cidade. reduziram-na a um monte de escombros. bem sei que a chechniya é um ninho de terroristas (antes dos ataques russos) mas a estratégia adoptada por Yeltsin foi simplesmente brutal. a solução encontrada… encontrar um mafiosi local disposto a instituir o clientelismo como meio de pacificação..foi muito mais inteligente do que todas as campanhas militares juntas.

    A contabilidade das guerras é coisa macabra. Todavia: 1) foram os sérvios que iniciaram as campanhas de agressão (en masse) contra populações civis; 2) só eles, Sérvios, é que tinham acesso privilegiado aos meios da repressão estatais. Eram e são a comunidade-estado mais poderosa-o da ex-jugoslávia. O que diz acerca da Sérvia e da sua tolerância por ex-jugoslavos de todas as etnias é mentira. Croatas, talvez. Muçulmanos, não. (n estou a insinuar que os Bósnios muçulmanos são uns santos…venha o diabo e escolha!!)

  13. antónio diz:

    Ooops…os sérvios afinal sãos inocentes da coisa ?

    Aquelas caçadas sobre os desgraçados que atravessavam a rua em Sarajevo, feitas a partir dos montes, com ‘longas carabinas’ eram feitas por índios mohawk ??
    O Milosevic, o Ratko qq. merda e os outros eram meninos de côro ???

    Pah, tenho que revisionar>/i> a minha concepção da história…

    Aliás, aqui especialistas nisso é o que há mais, portanto deve ser-me fácil…

    🙁

    E já agora o Tito (croata, se bem me lembro…) era mesmo um gajo porreiro ??

    Queres que eu comece a fazer um name droppingdos “camaradas” que ele mandou para a prisão ?
    É que não me custa nada, seu artolas.
    Vai-te catar .

    🙂

  14. rui david diz:

    ó luis, pelo amor da santa, achas que tem alguma porra de comparação a chéchénia com o pais basco?
    a sardenha e a córsega…, podes dizer-me onde é que vendem esses cogumelos, por favor?
    ó gajos do PC, podem mandar para aqui outro comentador encartado, por favor?
    caramba, uma pessoa pode discutir tudo, mas há que manter um mínimo, um minimozinho de “aderência” à realidade, ou então começamos a falar das visões psicadélicas de cada um.
    fónix… é que há limites pá.

  15. antónio diz:

    Realmente…
    a parvoeira apêcêsada pega-se como se fosse aquelas merdas daquelas gripes. E depois há gajinhos/as que teclam não importa o quê…

    :-((

    aderência à realidade ??
    Qual coisa, eles “aderem” a umas merdas que lhes disseram antes, a realidade que se mude.

    E os único limite é a estupidex natural, mas com um bocado de azar, quando crescerem, vão todos para o ppd.

    Jeezuuzzz !

    🙂

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