O mundo seria melhor sem… Torquemada? Não; sem Bach, sim

Bom, agora que a polémica, por assim dizer, dos considerandos de José Saramago sobre a Bíblia chegou ao Jugulento, ou melhor aí atingiu um auge de histeria muito ligado aos “textos” da química Palmira, avanço duas observações, se tal me for permitido: admiro o romancista José Saramago e muito, e considero (provavelmente) o seu melhor livro um romance excepcional,  O Ano da Morte de Ricardo Reis. Absolutamente inolvidável e excepcional.

Por outro lado, o que a química Palmira “escreve” incomoda-me, para não dizer a verdadeira verdade: e remeto mesmo para os seus louvores a militares golpistas sul-americanos, e aqui é óbvio que prefiro Savonarola e Torquemada!!

Há ali, na forma jugulenta, uma ignorância histérica que preferia não ter de passar por ela, de vez em quando. Não percebo por isso o actual entusiasmo da química (que é anti-comunista primária) por Saramago (nem o da pintora do patchwork decorativo, que vende muito bem, pudera!, chamada qq coisa Vidigal); entretanto, acrescento que me confesso ateu, e sempre assim foi (fui). Mas já que Saramago terá dito que o mundo seria eventualmente melhor sem a Bíblia, gostaria de aqui fazer uma pergunta disparatada (será??) “à Saramago” e de saber se a coisa se alarga a (“o mundo seria melhor sem…”) Bach, Telemann, Vivaldi, Pergolesi, Caldara, Bruckner, Schoenberg ou Messiaen, ou Miguel Ângelo, Caravaggio, as Stations of the Cross de Barnett Newman (quem é este? É o meu primo!), a capela Rothko e Bill Viola, por exemplo?? Obrigado. Alguém me explique se esta pergunta é pertinente ou é despropositada e “à Saramago” (que admiro, repito)?
(PS: o vídeo em cima foi escolhido a dedo: Nikolaus Harnoncourt dirige Bach num dos seus Magnificat – porque Harnoncourt é, naturalmente e a par de Gustav Leonhardt, o maior intérprete de Bach do século XX)

(PS2: Não vejo nenhuma contradição entre o meu post anterior, sobre a arte e o “horror que habita o mundo”, e o comunismo ou a emancipação do capitalismo, como alguém afirmou; que eu saiba, na obra de um Dostoiévski o sangue corre como champanhe, e nunca li nada de Lenine contra o romancista, muito menos dizendo que o mundo teria sido melhor sem ele – ou disse e eu não reparei??)

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23 respostas a O mundo seria melhor sem… Torquemada? Não; sem Bach, sim

  1. Pedro diz:

    Interessante, o seu argumento, Carlos Vidal. Poderiamos até dizer que se não houvesse fuzilamentos em Madrid no dia 3 de Maio de 1814, não poderiamos ver a obra prima de Goya. E se não houvesse miséria em Londres no século XIX, não teriamos Dickens. E se não houvesse tuberculose, não teriamos A Traviata. 😉

  2. Pedro diz:

    Inventei uma anedota gira. Num planeta onde não há biblia, diz um gajo para outro gajo: Épá, que seca, se houvesse biblia, estávamos agora em casa a ouvir o Bach.

  3. Ironia/Alien diz:

    Sr Prof.,
    Arrisco-me a dizer mais, a ir mais além… O mundo seria muito, mas muito melhor sem todos nós: Seres humanos (?)
    Evoco “This Be the Verse” (os verdadeiros versículos bíblicos), destacando alguns versos (este poeta conhecia bem o Ser Humano)

    “They fill you with the faults they had
    And add some extra, just for you
    […]
    Man hands on misery to man,
    It deepens like a coastal shelf.”

    Philip L.

    Eu só mudaria um verso ao poema: Everybody fills you with the faults they have,
    And add some extra, just for you. (How sweet humanity is!!!)

  4. ezequiel diz:

    Caro Sr. Prof.,

    Se Lenine disse x, é porque deve ser verdade!!

    Ontem, Saramago, na entrevista que concedeu à RTP, disse que (paraf.) “tudo o que não contribua para aproximar os seres humanos” não pode ser bom (? já n me lembro do adjectivo). Ou seja, assume como dado adquirido que as religiões apenas afastaram as pessoas, algo que é uma falsidade. As religiões afastaram e aproximaram pessoas.

    Não gostei também da forma como ele criou a história. Parasitou uma narrativa e introduziu modificações. Prefiro-o quando constrói histórias de baixo para cima, como o ensaio sobre a cegueira, por exemplo. As explicações dele sobre os grandes dilemas teológicos do conflito e da injustiça m (no mundo, a possibilidade de um Deus “injusto”) também n me pareceram muito convincentes.

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  6. Carlos Vidal diz:

    Há aqui uma conversa estúpida (atenção aos comentários de Pedro) de que me dispenso de entrar: sinto com emoção forte a luta entre Bach (desejo de ascese e transcendência, senão relação com a transcendência pelo menos “desejo de transcendência” e verdadeira medição do sofrimento humano, o sofrimento que todos os dias vemos por todo o lado), entre isso e a Bíblia como teatro de crueldades que é, até porque é um produto do homem que o espelha. Isso é Bach (e é muito mais). Se o senhor Pedro quer outra coisa, ou esperaria por outra coisa, por uma Bacha, por exemplo, torne-se engenheiro (mas a sério) e faça outro mundo. Neste, não dispenso Bach, nem Caravaggio.
    Mas dispenso comentários que bem podiam ficar na gaveta, na sua gaveta (não tem gavetas??).
    O resto é merda, não me interessa nada.
    E não preciso de ser praticante religioso (que não sou e nunca fui).

  7. Carlos Fernandes diz:

    Saramago pode não acreditar em Deus, e no Homem-Deus Redentor que se humilhou voluntariamente numa desprezível cruz, reservada aos ladrões e à ralé, mas acredita ( mais o seu editor e mentor Zeferino)certamente no Deus-Marketing , pois o seu “bezerro de oiro” cada vez reluz mais, segundo consta os 50 mil exemplares da 1a edição já foram vendidos.

    (“au au au”, as the Pavlov Dogs´s money wallets would say about this, if they could speak )

  8. Pedro diz:

    Ó senhor Carlos Vidal, eu ofereci-lhe os comentários e você aceitou-os enfiando-os na sua gaveta, que quer agora? Fazer uma peixeirada com a nossa correspondência? Tou zangado, pronto, acabamos já aqui a relação, devolva-me então os comentários, se faz favor, que eu os guardarei, molhados em lágrimas de amargura, na minha gaveta.

    P.S. Carlos Vidal, a sério, sem a Biblia, talvez tivesssemos uma Bacha maravilhosa, divinal, baseada nos Textos Sagrados de Klingon, que faria o Bach parecer o Richard Clayderman. Não seria bem melhor? Eu acho.

  9. Carlos Vidal diz:

    Sr. Pedro, talvez tenha razão, uma Bacha é sempre melhor que um Bach.

    Agora, um tema de discussão interessante é o da relação Bach-Cristo-Bíblia-transcendência-superação…
    (E note-se que estes temas como os da superação ou da emancipação também são temas de comunistas, como eu me defino.)

    José Saramago disse um dia que amava Mozart. Deve ser todo ele menos o das Missas. Acha?
    Acham?

  10. antónio diz:

    Essas frases do tipo “O mundo seria muito melhor se…” são básicamente ‘argumentos de autoridade’ e não valem sequer o papel onde estão impressas.

  11. Irrelevantemente Irredutível diz:

    Caro Sr. Professor,

    Herdámos este mundo dos nossos generosos antepassados: cheio de sofrimento, angústias, calotes, devastado pela ganância, agressão e arrogância, repleto de problemas (alguns insolúveis).
    Gostaria de deixar aos meus filhos e às gerações mais novas um mundo um pouco melhor do que aquele que encontrei… Tarefa titânica, que se me afigura inalcançável… O que o Ser Humano – no geral – gosta mesmo: é de humilhar, agredir e espezinhar o próximo até mais não… É fartar vilanagem… Faltam milhões e milhões de Ghandis neste planeta… Ora, Ghandi deu um grande exemplo, transcendeu-se!

    Como diz, e muito bem, uma aluna no link que deixo em baixo: “I did not create the problems, but they are MY Problems”. E assim cá se vai sobrevivendo.

    http://www.youtube.com/watch?v=dGCJ46vyR9o

    Peço desculpa por usar este seu post para me despedir de si, neste espaço, agradecendo-lhe – com sinceridade – as lições relevantes que consigo aprendi sobre Arte. Já aprendi o que mais me intrigava, o que mais me interessava, ou seja, o essencial (a meu ver) – que me está a ser útil e continuará a ser útil… Quanto a aprofundar conhecimentos… cá saberei desenvencilhar-me sozinha, sem mestre. Já estou muito habituada a desenvencilhar-me. Para além de que nada me impede de vir aqui, volta e meia, ver se há algo de interessante, algo que eu possa aproveitar, na minha óptica.

    Só não lhe agradeço as aulas extra que me quis impingir, com a sua grande alma, sobre “linguística bordeliana/ nininiana/ boçaliana”. Cadeira que não desperta, em mim, o menor interesse. Entra-me pelos olhos a cem e faz boomerang a dois mil e cem à hora. Prefiro não terminar o curso, ficar com essa disciplina em atraso, até ao “Dia de São Nunca À Tarde”… Lamento se vos desiludo e se acham que isso representa uma grave lacuna no meu currículo, mas área disciplinar não quero investir o meu tempo. Não, Não e Não!!! Uma irredutível Nega!!!

    Chegou a hora de sair deste papel de comentadora irónica e “chata como a potassa” (eu sei!) mas do qual faço um balanço bastante positivo.
    Para mim, valeu a pena! (Para si, nem ouso verbalizar… a fazer fé – palavra tão traiçoeira! – nos comentários com que fui brindada… )
    Mesmo assim, Obrigada, Sr Professor! (pelo supra-referido, 3º parágrafo, Ok (?) espertinhos…).
    Adeus ou até sempre!

    A ex-discípula

  12. ezequiel diz:

    bach, wagner…

    foda-se! que seca.

  13. Carlos Vidal diz:

    É o que eu digo ezequiel, nada se compara a Paulina Rubio, ou quem diz esta porque não Lady Gaga. Ou a Minogue (esta é outra história, não é)?
    Cumps.
    CV

  14. após tanto materialismo, discipulado e etc e tal nossos grandes danados estão a danar-se, está a sair bem portanto.
    a caminho paga 5 euros por página em obras de referência didáctica artística, (o conceptual não é arte), fiquei muito bem impressionado com o elequente ataque ao velho testamento por ser uma doutrina de uma melancolia desumana. Agora vou para a horta compor e rasgar mais umas leiras para fingir que sou pessimista e um grande pecador.

  15. anonimo diz:

    Interessante, o seu argumento, Carlos Vidal. Poderiamos até dizer que se não houvesse fuzilamentos em Madrid no dia 3 de Maio de 1814, não poderiamos ver a obra prima de Goya. E se não houvesse miséria em Londres no século …

    Nao vá por aí, caro Pedro. E por aquí…se nao houvesse habido comunismo e Republica Democrática nao poderia também haber habido a reunificaçao de Alemania no dia 9 nov de 1989. Je.

  16. Justiniano diz:

    almajecta (com oxigénio)! E o que vais fazer?

  17. cruzando o dogma com a paixão na intersecção entre a razão teórica e a razão prática em busca da verdade, pecar, pecar muito.

  18. Justiniano diz:

    Na horta, dizia eu!! Cenouras e grelos, pró Natal!!??
    Lembra-te, sempre, que a verdade (razão) está no diário razão!!

  19. a horta serve amiude para a redenção, trabalhos nas duas naturezas, nas duas substâncias unidas numa unica pessoa, feitas as folhas de pagamento, os movimentos de caixa e contabilidade geral, há muito estou preparado para o encerramento do exercício, abraços á grande Teodora.

  20. Justiniano diz:

    Serão entregues! Tem minguado, com a idade. Mandei-a ler a digesta, para ver se perdia outras ideias, mas nada. Teimosa.

  21. Justiniano diz:

    Que te não permitem mais a redenção! Não tens lido os últimos compêndios do saber e de toda a ciência!? O pecado foi convertido em semiótica e consta que lhe dão grande utilidade, a ele e a ti! Consta da última digesta.

  22. antónio diz:

    ezequiel disse, a 22 de Outubro de 2009, 21:42

    bach, wagner…

    foda-se! que seca.

    ____________________________________________________

    Completamente em desacordo, seca (ou secca, como diria o Eça…) é ler O Capital
    Nem sei se o próprio Vital Moreira conseguiu ler isso até ao fim, pelo menos não o traduziu até ao fim…

    Mas há sempre a hipótese das “Lettres sur la Science de la Nature, (Ed. du Seuil ?), se estiver numa de leitura.

    Particularmente aquela onde um deles discorre sobre as gajas boas que estavam lá numa daquelas praias onde eles iam.

    Boas leituras.

    🙂

  23. os vegetais cá da horta são bem regados e frescos, acompanhados de carnes. Quanto ao signo e dura lex atiro chumbo aos caçadores bem como aos pastores.

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