Irene Pimentel e Maria Manuela Cruzeiro

Num dos seus textos mais desconhecidos, José Pacheco Pereira recomendou, a propósito de um livro fascinante que então criticava com agressividade e inteligência, a leitura do dito cujo e a sua posterior destruição por via do fogo. A memória mais ardilosa tende a reter apenas a parte da recomendação que diz respeito ao processo de incineração, mas, na verdade, a ordem das coisas era importante. E continua a ser: ler primeiro, queimar depois. Num post escrito de um jeito demasiado curto e grosso, a historiadora Irene Pimentel diz que a sua colega Maria Manuela Cruzeiro, em texto aqui publicado, estabelece «comparações descontextualizadas e anacrónicas». Diz também que MMC instrumentaliza a História, que conclui que democracia e ditadura são uma e a mesma coisa e que assim nos leva a abdicar da defesa da democracia. Nada menos do que isto. Pode ser feitio meu, é claro, mas, parece-me que, quando queremos mandar para o caixote de lixo um texto de outrém, podemos fazê-lo no recato do nosso lar, ou, caso contrário, se temos mesmo a intenção de tornar pública a nossa legítima fúria, talvez seja sensato darmo-nos ao trabalho de justificar um pouquinho mais as nossas posições. Malhar, como faz a IP? Sim, pode ser. Mas malhar com princípio, meio e fim, método que, diga-se, e concorde-se ou não com as suas posições, é possível encontrarmos no texto da MMC.

Passemos, entretanto, ao que verdadeiramente interessa. Do meu ponto de vista, o texto da MMC é um texto importante. Discordo, desde logo, de uma coisa: da tendência para se resumir a experiência de um “grande evento” à vontade do organizador desse “grande evento”, mas este é um debate que deixo para outra ocasião. Com efeito, deixando esta questão de fora , devo dizer que concordo, genericamente, com a MMC. Trata-se de um texto em que se sublinha a continuidade do imaginário imperial entre o antes e o depois do 25 de Abril, chamando-se a atenção, nomeadamente, para o facto de, em torno do lusotropicalismo, se ter estabelecido uma narrativa obcecada em descobrir no passado colonial português um espírito de convívio e de harmonia cuja exaltação remete para a invisibilidade toda a dimensão conflitual associada ao colonialismo português. Dizer que este efeito do lusotropicalismo sobrevive – com modificações, é certo, e modificações que não são despiciendas, também é certo – à queda do Império, eis algo que tem sido feito por vários autores. E a Irene Pimentel nem precisa de sair do seu blogue para encontrar reflexões muito interessantes acerca deste assunto… 

Convém não esquecer que o colonialismo português foi tão suportado por fascistas como por democratas insignes, razão entre outras que ajudam a compreender a continuidade de uma ideologia imperial antes e depois de Abril. A reflexão da MMC, diga-se, é tanto mais interessante quanto ela nos lembra que a Expo’98 surge em palco, não só mas também, como um evento comemorativo da própria democracia portuguesa. A MMC sente-se revoltada com a coincidência, por razões históricas, mas não só, pois chama a atenção, igualmente, para o facto da decisão de realizar a Expo’98 não ter resultado de um processo de discussão assim tão democrático e de, enquanto grande projecto visando a “unidade nacional”, ter construído um consenso unanimizador que funcionou como um interdito absoluto à própria crítica, crítica em nome da qual defende a ideia de democracia. Perante isto, a IP mostra-se simplesmente assustada – e talvez seja por isso que reaja tão violentamente – com a hipótese de resultar, da análise da MMC, uma equiparação entre ditadura e democracia.

Ora, o problema maior da crítica da IP é este: a facilidade com que implicitamente desvaloriza a temática colonial e imperial. A IP pode, com efeito, pretender que o critério ditadura/democracia impere sobre tudo o mais. E que não se fale de legado imperial a propósito de um nacionalismo português democrático, porque isso significaria, em seu entender, que fascismo e democracia serão uma mesma coisa, o que, diria eu, é um raciocínio um nadinha abusivo. Mas aquela desvalorização da questão colonial/imperial trai as próprias pretensões da IP. A questão, com efeito, é esta: será que o raciocínio da IP é efectivamente fiel à oposição democracia/ditadura? Não creio. A IP limita a reflexão sobre o problema ditadura/democracia a um nível meramente nacional, esquecendo que ele foi e é dependente da questão colonial e pós-colonial.

Porventura, a questão torna-se mais clara quando deslocalizamos o debate do caso português. Do ponto de vista do militante anticolonial argelino, de pouco lhe valeu que a França fosse uma democracia e não uma ditadura. A moderação da democracia francesa conviveu bem com o extremismo do seu colonialismo. Mas, mesmo quando nos confinamos ao caso português, convém não nos afastarmos da complexidade do problema. Quando falamos de cidadania, devemos tomar o conceito como inclusivo, na medida em que ele, desde logo, contempla a atribuição de um voto e de uma série de direitos a cada português, seja elee rico, seja ele pobre, seja ele homem, seja ela mulher; mas, ao mesmo tempo, devemos ter em atenção que o conceito de cidadania é, igualmente, um conceito excludente, na medida em que a cidadania é nome do estatuto negado a muitos dos que aqui vivem e que para aqui querem vir viver.

Que em toda esta amálgama – colonialismo democrático francês e colonialismo ditatorial português, colonialismo republicano e colonialismo salazarista, colonialismo salazarista e colonialismo oposicionista, estatuto do indígena e “estatuto” do clandestino – não se devam procurar linhas de continuidade além de linhas de demarcação, isso é o que me surpreende verdadeiramente no post da IP, tantos anos depois de Jaime Serra e Francisco Martins Rodrigues, já para não falar nos anarquistas de “A Batalha”, terem sublinhado as continuidades entre colonialismo monárquico, absolutista, liberal, republicano e fascista; ou, se preferirem, tão poucos anos depois de antropólogos como Miguel Vale de Almeida terem chamado a atenção para a persistência de um imaginário lusotropicalista.

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4 respostas a Irene Pimentel e Maria Manuela Cruzeiro

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  2. Ricardo Noronha diz:

    Nem por acaso, tenho aqui à mão as actas do colóquio «Em tempo de Expo há outras histórias para contar», organizado em 1998 pela Abril em Maio e pelo SOS racismo.
    Nele houve uma mesa em que o Jorge Ramos do Ó e o Miguel Vale de Almeida (mais a Ana Barradas e o Samir Amin) se dedicaram a estabelecer raciocínios muito semelhantes aos de Maria Manuela Cruzeiro. Uma leitura recomendável e que nada perdeu com o tempo.

  3. rui david diz:

    também me parece que a reacção da Irene Pimentel não precisava de ser tão “agreste”.
    mas há coisas do caraças, e uma delas é uma pessoa “nem por acaso”, ter “ali à mão” as actas de um colóquio organizado em 1998… fabulosas coincidências e organização de bibliotecas que me deixam invejoso.

  4. Ricardo Noronha diz:

    Não estou bem a ver o que há de fabuloso.
    Escrevo na secretária do meu quarto. Atrás de mim está uma estante com metade dos meus livros. Na sala, outra estante com outra metade dos meus livros. Só tive que me virar e encontrar as actas do colóquio, folhear e encontrar as intervenções do MVA e do Jorge Ramos do Ó.
    A biblioteca está a sua disposição. Não gosto de sentir alguém invejoso de um património tão modesto.

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