Insuficiência metafísica
21 de Outubro de 2009 por António FigueiraÀs vezes, quando vou de carro, oiço sem querer a Rádio Renascença às santas horas; como não fui abençoado com o dom da fé, fico a ouvir aquilo com uma estranheza estranha, como quando vou de carro no estrangeiro e ligo a rádio para ouvir uma língua que não conheço: estou de fora, não percebo o sentido do que dizem nem sequer a língua que falam, mas aprecio o ritmo, as ênfases, o aparente propósito. Quando uma vez me separei de alguém, e deixei de conhecer quem eu antes conhecia, tive uma sensação parecida: as últimas cartas que ela me mandou, quando já não conseguiamos falar, confesso que não cheguei a lê-las, porque já não percebia nada do que ela me dizia (e também porque a distância que eu descobria neste caso me incomodava): era tudo abstracto, e fazia referência a um sistema (de palavras e de ideias) que para mim era chinês. Às vezes, quando menos espero, a coisa volta a atacar: ele são ideias que descolam do real, volteiam no ar e parecem poesia quando são só emptiness, ele é uma langue de bois que substitui a língua das pessoas e a descrição útil das coisas e passa a ser um código novo, uma nova comunidade, a que eu descubro que não pertenço, e que será sempre estrangeira para mim. Eu acho que, no fundo, o problema é meu: uma médica do espírito diagnosticou-me uma vez uma insuficiência metafísica.

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