Ópio do Povo

As palavras de José Saramago são uma provocação dirigida ao coração de todos os crentes. Mas representam também uma dificuldade para boa parte da esquerda. Da minha parte, começo por saudar a provocação. Mais a mais, quando vejo que o alarme por ela suscitado permite, finalmente, enterrar o “affaire Maité”. Entretanto, à boleia do Nobel, vale a pena pensar na dificuldade em que as suas palavras colocaram tantos ateus de esquerda, entre os quais me incluo.

Ao eleger a Bíblia como seu alvo, fazendo-o com maior ou menor sofisticação, e sendo certo que não é despiciendo o modo saramaguiano de declarar publicamente o que quer que seja, o nosso escritor jogou pela medida grande. Ele sabe – se não sabe, desconfio que desconfie – que o Livro de Job e o Evangelho de Marcos não são uma e a mesma coisa, como refere o Bruno; isto é, ele sabe que uma coisa é sempre uma reunião, quando não uma tensão, entre várias coisas diferentes, quando não contraditórias. Mas quiçá Saramago se tenha fartado. Fartado de, lá por saber que uma coisa é sempre coisa vária, ter que andar para aqui a calar, uma e outra vez, a sua legítima vontade. E a sua vontade é colocar o dedo na ferida propriamente dita – ou no que ele julga ser a ferida propriamente dita. Ora, esta sua atitude parece não ter vindo a calhar. Andamos nós a procurar livrar-nos da má fama do slogan que diz da religião que esta não passa do “ópio do povo” e, a contra-corrente, Saramago regressa ao palco para levar tudo à frente, tudo a eito, à grande e com o maior estrondo possível. A sua agressividade, com efeito, perturba-nos, até porque, ao longo das últimas décadas, à esquerda, habituámo-nos a tocar na questão religiosa munidos de todas as pinças. Percebemos que a relação entre política e religião era e é assunto complicado, que se presta a deturpações de toda a espécie, como demonstra este mesmo episódio. Habituámo-nos a dizer que ir por aí – pela crítica da religião – é meio caminho andado para perder as massas de vista e outro tanto para se abdicar do espírito de diálogo entre as famigeradas civilizações. A nossa cautela e os nossos caldos de galinha, independentemente dos seus motivos, produziu, diga-se, resultados muito importantes, que são hoje adquiridos incontornáveis e preciosos em qualquer movimento político e social à esquerda: com efeito, descobrimos que nem todos os religiosos são miguelistas empedernidos (falta-nos descobrir que nem todos os miguelismos são miguelistas empedernidos, mas isso é outra conversa), descobrimos teleologias da libertação e o seu radicalismo (que hoje se encontram à esquerda dos próprios governos brasileiros de esquerda), encontrámo-nos como católicos progressistas (que até servem para líderes de bancada parlamentar), descortinámos que as religiões (descontando o “God bless America”…) são aliadas no combate anti-imperialista à guerra e no culto da Paz, e descobrimos, até, que as religiões primitivas citam os comunismos primitivos. Enfim, aprendemos a saber que que Ratzinger não é Frei Bento Domingues, que a crítica do islamismo tem vindo de par com o racismo, que Bin Laden não é o Sheik Munir, etc., etc., etc. Ao mesmo tempo, e pergunto se uma coisa implicaria a outra e julgando eu que não implicaria, deixámos de colocar em causa a própria condição da crença, passámos a desconfiar absolutamente das grandes narrativas políticas dos homens mas a relativizar a nossa crítica às grandes narrativas divinas, como se persistirmos nesta crítica pudesse revelar a natureza totalitária de uma nossa esquerda que muitos dos seus opositores dizem estar sempre disposta a mudar o povo por decreto quando este se revela menos progressista do que esperaríamos. Enfim, fomos amiúde sensíveis à conversa anti-esquerdisto-ateísta. E se ser sensíveis ao que nos crítica não deverá ser visto com penoso, no caso é. Porque aquela conversa, na maior parte das vezes, apresenta uma qualidade discutível. Insiste, por exemplo, na via da amálgama, fazendo coincidir o anti-clericalismo de muitos republicanos com o ateísmo de muitos comunistas. Ora, talvez valha a pena dizer duas coisas a este respeito.

Em primeiro lugar, mas isto não é o mais importante, convém lembrar que o conflito histórico entre republicanos e Igreja Católica (que se reacenderá timidamente no próximo ano) não é, no caso português como noutros, um conflito da pura ordem das coisas do espírito. Teve igualmente algo que ver com a própria ordem das coisas, das terras, dos bens, das propriedades, do poder político, etc.. Isto, por um lado. Em segundo lugar, e este é o ponto mais importante, convém dizer que a crítica da religião em Marx, a partir da qual se consagrará a célebre expressão do “ópio do povo”, não é pura e simplesmente convergente com o anti-clericalismo de inspiração republicana. Este, na sua imensa diversidade, por certo ignorada por mim próprio, está amiúde preocupado em tomar a religião como produto de uma simples conspiração clerical. O filão marxiano, que também não desdenha o anti-clericalismo republicano, porém, aponta outra direcção crítica: equacionar a religião a partir da problemática da alienação, problemática que só a imensa precipitação, de marxistas, não-marxistas e anti-marxistas, pode, de quando em quando, resumir na história de uma ou muitas urdiduras palacianas e de outras tantas intrigas de corte. “A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão da dor real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como o é o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo”. Assim escrevia Marx, cujo trabalho em torno da religião tem ocupado um dos seus leitores mais fecundos, seu nome Michael Löwy. 

Ou seja: uma coisa são pelo menos duas coisas, uma negada e outra não negada, mas duas coisas inscritas numa só coisa. Saramago, creio eu, sabe bem, ou se não sabe seguramente intui, isto mesmo. Talvez se tenha fartado, isso sim, de ver a malta toda a fugir – como o diabo da cruz, diga-se – à velha fórmula do “ópio do povo”. Ora, se citarmos a frase por inteiro, acrescentado o que antecede o sound-byte opiáceo, não há o que dela incontornavelmente nos separe.

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