E.M.CIORAN, o homem de Rasinari, leiam-no já, sff

casa de C.
Rasinari, Sibiu, Roménia.

Um poeta que eu muito admiro – Manuel de Freitas – traduziu agora para português os Syllogismes de l’Amertume do homem de Rasinari. Como seria de esperar de Manuel de Freitas, a tradução é esplendorosa, por isso posso abrir em duas páginas ao acaso este livro e citar as mais estranhas, certeiras e belíssimas (literariamente, se quiserem) frases que já li; façamos a experiência:

– “Neste universo provisório, os nossos axiomas valem tanto como um fait-divers.”

– “Objecção contra a ciência: este mundo não merece ser conhecido.”

– “Como é que alguém pode ser filósofo? Como é que se pode ter a ousadia de enfrentar o tempo, a beleza, Deus e tudo o mais? O espírito incha e saltita desavergonhadamente. Metafísica, poesia – impertinências de um piolho…

– A liberdade? Sofisma dos que são saudáveis.

– É o Intolerável, e de modo nenhum a Evolução, que deveria ser a ideia fixa da biologia.

– Todo o problema profana um mistério; por sua vez o problema é profanado pela sua solução.

Enfim:
– A sabedoria? Suportar dignamente a humilhação que nos infligem os nossos buracos.

Bom, aqui chegados, cabe-me perguntar (-me): como é que é possível sistematizar (impossível, de todo), dissertar ou comentar o pensamento do homem de Rasinari, assim espalhado por milhares de aforismos ou silogismos como estes? Como agrupar isto, como estabelecer a partir daqui “linhas de força”, ideias-chave, em suma, como encontrar aqui o que quer que seja de edificante e de coerente?

Não me importaria nada de tentar esta impossibilidade, e proporia mesmo três linhas de leitura para esta obra (que não pode, de modo algum, ser denominada “filosófica”): 1) a preeminência da renúncia (uma coisa aparentemente crística e/ou mística): dos bens materiais, das ideias, das ilusões e das desilusões; 2) esta renúncia, este apego à despossessão, ainda por cima do corpo e das ideias, afasta daqui três tópicos passivos: 3) a desistência da vida (porque não se desiste daquilo que nunca se assumiu, nem se aceitou nem rejeitou); o pessimismo (é uma palavra sem sentido para o homem de Rosinari) ou o suicídio (de certo modo, um grande acto, heróico, que, por isso, deve ser excluído).

No lugar destes três tópicos propõem-se: 1) o pesadelo, 2) a insónia (estar permanentemente atento sem querer nada é o mais subversivo dos actos), 3) a amargura (que é revolta) e o desespero (que nos resgata da vontade do suicídio, como vem escrito em Sur les Cimes de Désespoir); 4) por fim, temos ainda de considerar a rejeição simultânea ao amor pela utopia, pois é incompreensível a aceitação de uma sociedade (utópica) onde reina a ordem, de onde se apagou qualquer traço do mal e se cantam hinos ao trabalho, mas também uma sociedade sem utopia é um lugar estagnado, esclerosado e arruinado; lemos, a este propósito em Histoire et Utopie (na tradução de Miguel Serras Pereira): “É por isso, enquanto agente de destruição, que a revolução se mostra útil; ainda que fosse nefasta, haveria uma coisa que continuaria a resgatá-la: só ela sabe que género de terror usar para abalar este mundo de proprietários, o mais atroz dos mundos possíveis”.

E pronto, terminei, procurem pois por estes Silogismos da Amargura que não se vão arrepender.

(Ah uma última pista, de outro livro: “O FACTO DE EU EXISTIR É A PROVA DE QUE O MUNDO NÃO FAZ SENTIDO”)

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2 respostas a E.M.CIORAN, o homem de Rasinari, leiam-no já, sff

  1. Carlos Fernandes diz:

    CVidal, não querendo chagá-lo, mas a meio do seu post,”… aqui chagados” não foi erro intencional, presumimos, eh eh eh…

  2. Carlos Vidal diz:

    Está emendado, Carlos Fernandes.
    Se há um escritor que nunca poderia chagar ninguém é precisamente este romeno.

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