Bíblia

Sinceramente não sei como se consegue falar de Levítico, do Livro de Job e do Evangelho de Marcos como se fossem o mesmo livro. Não sei como é que se consegue falar dos dois Deuses referidos na Bíblia como se fossem o mesmo. Oh sim, o sermão da montanha é só crueldades. Esmiúça, Saramago, esmiúça. (replay)

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65 Responses to Bíblia

  1. como é que um tipo que escreve livros diz tanto disparate sobre o Livro deixa-me siderada

  2. Sérgio diz:

    Bom, os dois primeiros são novelas de horror à la Stephen King e Clive Barker. O segundo é o que deu origem aos Nicholas Sparks, Richard Bachs e Susana Tamaros deste mundo. 🙂

  3. Enquanto esmiuça, vão surgindo as “mesmas” ideias para um mesmo “TEMA”. POR QUE MOTIVO TIVE QUE ATURAR O “MEMORIAL DO CONVENTO” como obra obrigatória a dar aos alunos do 12ºano?
    DESCOBRIU ELE A Fórmula de uma nova pólvora?
    E mais não digo que esse senhor faz-me náuseas…
    LUSIBERO

  4. Tárique diz:

    Maria Elisa Ribeiro: “O Memorial do Covento” não é obrigatório, é facultativo. Em alternativa podia dar a “Aparição”, de Vergílio Ferreira.

  5. Meu caro,

    Sobre o autor deste novo livro, escrevi assim

    http://atributos-1.blogspot.com/2009/10/nao-gosto-do-homem-nem-um-bocadinho.html

    Melhores cumprimentos

    JM

  6. Bruno Sena Martins,
    onde é que o Saramago falou desses três livros como se fossem o mesmo?

  7. Ricardo, Saramago falou que tudo o que se lê na Bíblia é “absurdo” e “disparatado” (cito o Daniel Oliveira, insuspeito), foi Saramago que meteu todos os livros no mesmo saco, não distinguindo o Cântico dos Cânticos destes três que o Bruno cita. E eu repito o conselho: é ler o Sermão da Montanha, só para início de conversa.

  8. djugashvili diz:

    Nem vale a pena comentar o que dizem os crédulos…e,fazem de conta que não sabem nada do criacionismo mas,não falta nada para que tenham a coragem e avançarem no ensino privado…a bem do retrogado

  9. djugashvili diz:

    O ‘Livro’,dona,manda não matar mas,são precisamente os mais religiosos que matam.Matam que se fartam.Matam na América do Sul,na Palestina,no Iraque,no Afeganistão assim como na Colômbia cristã,nas Honduras.O Livro parece-me uma historieta de psicopatas.Acreditando no Adão e Eva logo,os ‘primeiros’ humanos são filhos do Incesto.Leram bem?..

  10. Augusto diz:

    Penso que nunca na blogosfera se discutiu tanto a biblia.

    Muita boa gente vai aproveitar para comprá-la, agora que parece estar na moda, e ao mesmo tempo compram o Cain do Saramago, os livreiros agradecem.

  11. Augusto diz:

    Aturar o Memorial do Convento…. Saramago faz-lhe nauseas….

    Realmente se a estupidez pagasse imposto( como dizia o saudoso Solnado)

  12. Bruno Sena Martins diz:

    Ricardo Alves, fá-lo ao colocar tudo no mesmo saco:

    “A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana. É um livro sem o qual os seres humanos seriam provavelmente melhores”

    Há de facto passagens e livros na Bíblia que nos oferecem um Deus vingativo e até algo tenebroso, no entanto a generalização é burra.

  13. diz:

    Grande Saramago, a dizer mais umas quantas verdades, doa a quem doer.

    A generalização, neste caso, não é burra. A Biblia é mesmo um manual de maus costumes, e a religião cristã é das piores:antropocêntrica, entupida de represálias, religião machista, resposável pela falta de respeito pelas mulheres, e responsável por muito atraso social.

    O Cavaco é que deve estar muito contente com esta nova polémica, agora que ele até tinha conseguido que o novo Papa viesse a Fátima.

    Ai Saramago, não te resta mais nada que continuar no exilio… nascestes avançado demais, para o contexto cultural português…

  14. Bruno Sena Martins diz:

    “religião cristã” Zé? Para começar mais de metade da Bíblia não tem nada a ver com a religião cristã a menos que numa leitura profundamente revisionista. No Antigo Testamento praticamente só o livro de Isaías e o versículo de um ou outro profeta (Jeremias, p. ex.) se poderá ligar ao advento de Cristianismo.

  15. Bruno Sena Martins e Miguel Marujo,
    o que apontam não quer dizer que ele tenha misturado tudo ou que iguale os diversos livros da Bíblia. Só está a tirar a conclusão geral da leitura. Que é justíssima.
    Aliás, o Ecclesiastes e o Cant dos Cants, que vocês tanto gabam nestas alturas, são completamente secundários. E perfeitamente dispensáveis para a génese do cristianismo.

  16. claro, Ricardo, dominas bem melhor que qualquer cristão o que é ou não “completamente secundário” e da dispensabilidade desses livros para “a génese do cristianismo”, quando citas dois livros do Antigo Testamento, que de facto é comum a judeus e cristãos.

  17. Pois é, Miguel Marujo. Só os religiosos podem falar de religião, não é?

  18. Eu não escrevi isso. Pelo contrário, gosto muito de discutir com todos. Mas fico sempre surpreendido com o carácter categórico de afirmações como essa.

  19. Aires da Costa diz:

    Ana Cristina Leonardo
    Maria Elisa Ribeiro

    A vós recomendo vivamente a 1ª carta de S. Paulo aos Corintos, exemplificando:
    11 As reuniões litúrgicas

    …O homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus; a mulher, porém é glória do homem. O homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem.”

    … Se, apesar disto, alguém pretender discutir, nós não temos tal costume, nem o têm as Igrejas de Deus.

  20. Categórico? Dizer que o Novo Testamento, para os cristãos, é mais importante do que o Cântico dos Cânticos, é arriscado?

  21. “são completamente secundários. E perfeitamente dispensáveis para a génese do cristianismo” – é um bocadinho diferente dizer agora que o Novo Testamento é mais importante para os cristãos, mesmo que os cristãos tomem como um todo a Bíblia – o Antigo e o Novo Testamento são fundadores da nossa fé. Os livros que referiste não são completamente secundários, nem perfeitamente dispensáveis.

  22. 1 Timóteo:

    «11 A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.
    12 Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.
    13 Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.
    14 E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.
    15 Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação.»

    Se daqui concluirmos que o cristianismo tem laivos de machismo, o Bruno Sena Martins é capaz de dizer que estamos a fazer uma «generalização burra»…

  23. Espero que o Ricardo traga aqui escritos não cristãos (não apenas de outras religiões, mas “pagãos”) dessa época sobre a mulher só para ler o que diriam. Depois podemos falar de generalizações.

  24. c diz:

    é só ir ao antigo egipto ou aos pagãos celtas , miguel marujo para perceper as amplas liberdades da mulher. nos pagãos o deus mais importante até é uma deusa. e sempre houve sacerdotisas e tal até ao advento das religiões machistas monoteístas fálicas. aliás , não custa muito perceber que o sexo masculino criou um deus à sua imagem e semelhança ( dos seus anseios ) e não ao contrário. todopoderoso , omnipotetente , a curtir ser adorado …dá-me ideia que é o sonho da maior parte dos homens exercer poder e ser venerado. sem ofensa.

  25. Pronto, estamos de acordo que a Bíblia, no papel que apresenta para as mulheres, está ultrapassada. Eu diria que até é nociva, mas não espero que o Marujo concorde comigo.
    Desculpe lá: dizer que a visão bíblica das mulheres é melhor do que a visão que os povos do deserto tinham na mesma época até pode ser consensual. Mas isso só sublinha ainda mais que hoje, século 21, o papel que a Bíblia apresenta para a mulher é inaceitável. E podem tentar virar o bico ao prego, vir com o Ecclesiastes e o Cântico dos Cânticos, que isto não deixa de ser verdade.

  26. Quanto à importância de uns livros sobre os outros: o António Marujo, católico praticante que é, a quantas missas já assistiu em que se citassem partes de: Josué, Números, Samuel, Rute, Reis, Crónicas, Esdras, Neemias, Tobite, Judite, Ester ou Macabeus? Ou mesmo a maior parte dos «livros proféticos»? Dizer que os cristãos tomam a Bíblia como um todo, passa. Mas não igualam os livros todos. E Saramago também não o faz – ao contrário do que tentou dizer o Bruno Sena Martins, que parece não ter tentado compreender o Saramago.

  27. Ricardo, deixe o António Marujo em paz.
    Só para que fique registado: no meu casamento, um dos sacramentos maiores para os cristãos, a primeira leitura foi do livro de Rute. Pronto: dá uma pequenina ideia da importância menor que terá… Saramago ataca a Bíblia como um todo, iguala todos os livros, daí a intervenção dele ter indignado tantos e tão bons ateus. Excepto o Ricardo que melhor do que ninguém compreendeu Saramago, ao contrário do Daniel Oliveira, do Nuno Ramos de Almeida, do Bruno Sena Martins. Eu por mim, se fosse o Ricardo, “canonizava” Saramago – mas acho que já o fizeram. Por isso, lhe custa tanto ver que o seu “santo” tem pés de barro.

  28. c, também lhe podia lembrar aqui o papel das mulheres na Bíblia, de Eva a Sara, de Rute a Maria, das mulheres – as primeiras entre todos – que chegaram ao túmulo e viram que ele estava vazio… por aí fora. Querer reduzir, como Ricardo, o papel da mulher a duas passagens das cartas de Paulo é querer não ver os outros livros. E noto que lêem a Bíblia como os fundamentalistas cristãos, o que não deixa de ter graça: literalmente.

  29. já agora, de uma pesquisa rápida, sobre o Antigo Egipto e as mulheres, leio algo bem diferente do que escreve c.: «As mulheres não tinham quaisquer títulos importantes e, à excepção de alguns membros da família real e das rainhas reinantes, tinham pouco poder político. O título que detinham mais vulgarmente era o de “senhora da casa”, termo de respeito que talvez signifique pouco mais do que “Srª Dona”. Quase todas eram analfabetas e, portanto, excluídas da burocracia – a que é, de qualquer modo, pouco provável que tivessem aspirado – e da maior parte das áreas intelectuais da cultura. Fato sintomático do atrás referido é o de a idade a sensatez serem qualidades respeitadas nos homens, representados como estadistas idosos e corpulentos, mas não as mulheres. Nas representações dos túmulos não se distingue sequer a mãe de um homem da sua mulher, sendo ambas figuras jovens. O modo como são representadas as mulheres é, obviamente, parte da interpretação que os homens faziam delas e evidência um estado de coisas ideal. Na realidade, a influência das mulheres talvez não fosse tão circunscrita e podem ter desempenhado papéis muito mais variados do que as provas parecem sugerir.» [http://pt.wikipedia.org/wiki/Antigo_Egito]. Vale o que vale – o que acho espantoso é querer ler-se o papel dos homens, das mulheres (já agora, da democracia, da vida comunitária, da sociedade) de há milhares de anos com os olhos e as prerrogativas do século XXI.

  30. João Vasco diz:

    Por acaso o sermão da montanha é mais cruel que quase todo o antigo testamento.

    É óbvio que é monstuoso apedrejar alguém porque foi insolente com o pai.

    Não tão óbvio, mas muito mais cruel, é condenar alguém, por mais malévolas e sinistras que fossem as suas acções, ao sofrimento eterno.
    E esta ideia, a ideia da suprema violência e sofrimento, surge no sermão da montanha. A ideia do sofrimento eterno não está muito presente no Deus bruto e simples do antigo testamento.

    É com Jesus, que fala de amor e perdão, que se explora ideia que é símbolo do ódio e da falta de miseicórdia: o sofrimento eterno. E no sermão da montanha evoca várias vezes essa ideia.

    Sejamos claros, Jesus alega (não no sermão, mas mais tarde) que casar com uma mulher divorciada é motivo suficiente para sofrer por toda a eternidade.
    O Deus descrito na Bíblia – e incluo o evangelho segundo João – não é um Deus de amor.

    O sermão da montanha não é excepção, pelo contário.

    É esta a minha opinião, é esta a leitura que faço.
    Não tenho desdém por quem faça a leitura oposta: discordo pacificamente e estou disposto a discutir as interpetações de cada um.

    Mas pelas reacções que vejo às palavras de Saramago, a discussão é tudo menos pacífica. Parece que grande parte dos que o criticam o fazem de forma violenta e gratuita, em vez de argumentar com tranquilidade e sem insultos quais foram os alegados erros em que Saramago incorreu. Se a crítica é face ao tom do Saramago, então o tom da crítica desacredita-a.

  31. Aires da Costa diz:

    Meus caros

    Estou a começar a pensar que o Saramago se não tivesse apoiado o António Costa não tinha chocado tanto alguns ateus de esquerda

  32. Aires da Costa diz:

    Meus Caros

    Está a começar a parecer-me que se o Saramago não tivesse apoiado o António Costa alguns ateus de esquerda não tinham ficado tão escandalizados com as suas declarações sobre a Bíblia

  33. Aires da Costa diz:

    Miguel Araújo
    “escritos não cristãos (não apenas de outras religiões, mas “pagãos”) dessa época sobre a mulher só para ler o que diriam”

    A questão é que ACTUALMENTE a Igreja Católica ( e a generalidade das Igrejas cristãs), utiliza a Bíblia como Livro Sagrado e como tal inquestionável. Sobre o papel das mulheres na Igreja ACTUAL pergunto-lhe se sabe porque é que as mulheres não podem ser padres, bispos ou papas?

  34. c diz:

    Miguel , pode ler aqui mais qualquer coisa sobre a mulher no egipto.

    http://www.anpuh.uepg.br/xxiii-simposio/anais/textos/POLIANE%20VASCONI%20DOS%20SANTOS.pdf

    “Sua capacidade era plena e completa com a maioridade; apesar de não sabermos exatamente quando esta se iniciava, devia ser com uma idade que permitisse o uso de discernimento e que a responsabilizava pelos seus atos. HERÓDOTO4 dizia que os costumes e leis egípcias eram contrários ao resto do mundo. DIODORO SÍCULO5 dizia que a mulher tinha plenos poderes sobre o marido e que eles se submetiam à vontade de suas mulheres.
    Se as mulheres recebiam uma instrução adequada, mesmo que fossem de origem….”

  35. o Araújo não sei o que dirá, Aires da Costa. Eu falo por aquilo que sempre defendi: o papel das mulheres – se conhecesse o que há muito escrevo – tem de ser outro na Igreja, adequando o discurso vaticano à prática eclesial do muito que já se faz pelo mundo fora.

    Da mulher no Antigo Egipto, cara c, pelos vistos a matéria não é unânime. Mas apenas pedi a comparação para se entender que um texto tem a sua hermenêutica. A sua época, o seu contexto, não perceber isto é não entender nada da História.

  36. Caro Miguel Marujo,
    esqueci-me de dizer que lamento ter-lhe chamado «António Marujo». Não pretendi confundir o Miguel com o inventor da famosa «guerra galáctica contra o Natal», e por isso me desculpo.

  37. João Vasco diz:

    Quem não considera que a Bíblia é sagrada sabe que ela é fruto do seu contexto, da sua época.
    Isto, na verdade, até um indício de que se trata de um livro profano. Mais inexplicável seria que escapasse ao contexto em que foi escrito.

    Mas verificamos que até Platão foi mais intemporal que os autores dos evangelhos, ou Paulo. E isto já para não falar no antigo testamento…

    Mas precisamente porque os valores da época eram em vários aspectos tão desumanos, precisamente porque a inferioridade da mulher era um dado adquirido, porque a escravatura era vista como natural, porque uma cultura belicista estava tão presente, porque a submissão era em muitos contextos vista com bons olhos, é que a Bíblia não é um bom guia moral.
    Porque, sendo dependente de um contexto que não é o nosso, está ultrapassada.

    Os católicos, ao contrário de muitos outros cristãos, defendem-se bem. Dizem que as pessoas em geral não têm capacidade para compreender a Bíblia, e que é a Igreja Católica que a deve interpretar.
    Esta alegação esbarra logo no historial da Igreja Católica (inquisição, evangelização forçada de nativos, cruzadas, caça às bruxas, etc…). Os católicos admitem os erros da sua Igreja (excepto, quase sempre, os que hoje comete) mas alegam que a Igreja “não é perfeita, é feita de homens falíveis”.

    É uma alegação que ninguém disputa, e é mais indício a favor da ausência de inspiração sobrenatural na instituição. E o problema é precisamente esse.
    Se a instituição é falível e nela não podemos confiar acriticamente para interpretar a Bíblia (a ICAR tanto nos disse que a sua mensagem justificava as cruzadas, como que a sua mensagem é pela Paz, consoante as conveniências e pressões políticas) então faz sentido que façamos nós uma leitura crítica da Bíblia.

    E descubramos precisamente aquilo que a ICAR diz: ela é fruto do seu contexto histórico-cultural. Precisamente por isso é que é um mau guia moral para os dias de hoje.

  38. Ricardo, escusa de insultar. O António, que é meu irmão, é um excelente jornalista. E deu conta de muitas manifestações “contra o Natal”. A si só lhe dá jeito determinados factos, já percebi.

    Aos argumentos batidos de João vasco, não vou contrapor com a longa lista de crimes horrendos do ateísmo. Porque todos foram crimes. Acho graça é que sejam ateus a reivindicar-se da leitura correcta de um livro que dizem ser fabulatório. Haja fé.

  39. Aires da Costa diz:

    Miguel Marujo
    “Eu falo por aquilo que sempre defendi”

    Os seus escritos pertencem ao Velho ou ao Novo Testamento?

  40. os meus escritos são de hoje, e bebem no AT e no NT, no Vaticano II e em muita exegese bíblica feita desde sempre…

  41. João Vasco diz:

    «Aos argumentos batidos de João Vasco, não vou contrapor com a longa lista de crimes horrendos do ateísmo.»

    Claro que não vai, porque isso não faria sentido.
    Mesmo que tivessem havido muitos crimes cometidos em nome do ateísmo*, isso não afectaria em nada a minha alegação de que seria um erro confiar acriticamente nas interpretações Bíblicas da ICAR – e é a própria que admite a sua falibilidade.

    Daí eu ter escrito, e não vi razões para mudar uma vírgula «Se a instituição é falível e nela não podemos confiar acriticamente para interpretar a Bíblia […] então faz sentido que façamos nós uma leitura crítica da Bíblia.

    E descubramos precisamente aquilo que a ICAR diz: ela é fruto do seu contexto histórico-cultural. Precisamente por isso é que é um mau guia moral para os dias de hoje.»

    * Crimes cometidos em nome do ateísmo, não houve muitos.

    Crimes cometidos por ateus já houve muitos – mas menos que por católicos. Quer em valor absoluto (pois existem menos ateus), quer em proporção da respectiva quantidade (só em guerras no seio da Europa Católica ao longo da sua história…).

    O problema é a disparidade de critérios: quando se comparam os crimes cometidos por ateus (em particular nos regimes comunistas) não aos crimes cometidos por católicos, mas sim aos crimes cometidos em nome do catolicismo (inquisição, cruzadas, etc…) para os quais o ateísmo não tem um análogo à altura.

    Mas, repito, isso é uma questão diversa daquela que discutia.

  42. Miguel Marujo,
    não respondeu aos argumentos do João Vasco sobre o Sermão da Montanha. É pena.

    Quanto ao seu irmão: fica-lhe bem defendê-lo, e nada tenho contra o jornalismo de causas (católicas, no caso). Simplesmente, inventar factos e impedir o contraditório não é justo nem leal.

    Olhe, leia neste blogue:

    http://5dias.net/2006/12/25/feliz-natal-o-excelencias/

    Cumprimentos,

  43. o Sermão da Montanha é um texto de uma generosidade e de um amor tal que só quem faz uma exegese condicionada é que pode ler o que João Vasco ali lê… Tomaria o mundo – e a muita da esquerda – que as Bem-aventuranças fossem lidas por chefes de estado e de governo.

    Do Natal: ficção é dizer que aquilo é jornalismo de causas. O contraditório foi mais do que dado. Eu conheço bem essa história com que está a querer desviar o tema (e já agora a argolada, que se explica por um qualquer complexo de atacar só por ter achado que era António Marujo). O seu militantismo é que não tem de ser o único contraditório, e sinceramente para este peditório já dei.

    Ah, e o texto do Rui Tavares é também um equívoco, reduzida a uma eventual guerra da Fox News. Mas enfim. Para esse peditório, então, já dei mesmo.

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  45. João Vasco diz:

    «o Sermão da Montanha é um texto de uma generosidade e de um amor tal que só quem faz uma exegese condicionada é que pode ler o que João Vasco ali lê…»

  46. João Vasco diz:

    O comentário anterior está incompelto

  47. João Vasco diz:

    Miguel Marujo:

    Afirma que «o Sermão da Montanha é um texto de uma generosidade e de um amor tal que só quem faz uma exegese condicionada é que pode ler o que João Vasco ali lê…»

    Vejamos então algumas das coisas que Jeus diz (Mateus 5:22)

    «Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.»

    Jesus ameça quem tomar certas e determinadas acções com o fogo do Inferno.

    É possível conceber uma ameaça maior?

    Estar disposto a castigar um comportamento com o maior castigo concebível, de forma tão injusta e desproporcionada quanto cruel, é amar?

    Se a minha Mãe me visse prestes a atirar-me de uma janela, o amor que me tem não lhe permitiria pensar “bom, é a escolha dele, ele é que sabe”. Mas Jesus avisa explicitamente que más acções para com o próximo serão pagas com o maior castigo que é possível conceber. Um castigo que ultrapassa infinitamente a nossa capacidade de o imaginar.

    Se este Deus existisse (felizmente temos boas razões para pensar que não é o caso) haveriam pessoas a sofrer por toda a eternidade. É mesmo impossível imaginar maior crueldade.

    Portanto sou da opinião que a mensagem de Jesus, em certa medida, supera em crueldade a do antigo testamento.

    E fundamento-a numa interpretação que me parece legítima. Claro que é possível alegar que devemos ter em conta o contexto historico-cultural, que a exegese deve ser sofisticada e não primária, etc… Isso são princípios com os quais concordo em abstracto, mas que não refutam por si nada daquilo que afirmei em concreto.

    Em que medida é que quando Jesus diz “se fazes isto vais para o Inferno” ele não quer dizer isso mesmo? Se alguma condicionante contextual permite alegar que a interpretação adequada é outra, faz mais sentido apresentar essa condicionante em concreto do que alegar a importância geral de tomar em conta o contexto, princípio com o qual estou de acordo.

    Estou disposto obviamente a rever a minha opinião, mas com base em argumentos válidos e não apenas com o recurso à autoridade de especialistas, que são obviamente parte interessada (como é sabido, é falacioso utilizar a autoridade de especialistas como argumento quando estes são parte interessada). Assim, não basta dizer “quem estudou o contexto historico-cultural” acredita que a tua leitura é errada; seria necessário explicar com base em que argumentos é que chegam a essa conclusão, e se estes forem bons revejo a minha posição, e espalho os ditos argumentos. Se os argumentos forem bons, apresentá-los vai evitar muitos equívocos.

    Mas eu suspeito que esses argumentos nunca são apresentados porque não existem (aliás, existem mas são maus argumentos).

  48. Saramago faz escola. Pega-se num único versículo de um Sermão que se prolonga por três capítulos e analisa-se a coisa. Tá bem.

    Deixo mais versículos, muitos mais:
    «Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.» — (Mateus, 5:3-12)

    «Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.» — (Mateus, 5:13-16)

  49. Bruno Sena Martins diz:

    Caríssimos, como esta discussão bem dá conta, a Bíblia é composta por textos muito heterogéneos, dados a diversas interpretações que, por isso mesmo, de acordo com os momentos históricos e a “vontade de saber” dos intérpretes, podem ser usados tanto para lógicas de poder como para lógicas de libertação. Com óbvias nuances (no Velho Testamento: Daniel não é David, José não é os seus irmãos, os juízes não têm o poder dos Reis; no Novo Testamento: Jesus não é Paulo, o Enavangelho de Marcos não é o Evangelho de João) o Novo Testamento tende a oferecer de Deus uma face diferente, porque mais benigna, da dominante no Velho Testamento.

    Que a Bíblia possa ser usada em oposição à lógica de “trono e altar” — que dominou ao longo da história, com a Igreja Católica e as suas interpretações a fazerem de bastião do poder político — prova-o, por exemplo, para não irmos mais longe, a teologia da libertação. Basicamente, e aqui queria chegar, não dá para fechar a coisa em dois sounbytes como o fez Saramago. Que a discussão aprofunde: bom sinal.

  50. João Vasco diz:

    Miguel Marujo:

    Que uma análise de um texto cite parte do mesmo não tem nada de mais.
    Devo notar que isto não é uma tese de doutoramento, é um comentário num blogue. Claro que eu poderia ter dado muito mais razões e escrito muito mais sobre este assunto, mas limites de tempo e espaço fazem com que me tenha ficado por aquele exemplo e aqueles comentários.

    O Miguel alega que existem passagens belas no sermão da montanha. Mas isso só provaria que eu estava errado se um livro só pudesse ter passagens belas ou passagens ediondas, e eu não vejo as coisas de forma tão simplista, a preto e branco.

    Eu acredito que mesmo um texto que tem em si mais crueldade que quase todo o antigo testamento pode ter passagens belas. Não digo que seja o caso, prefiro não julgar as passagens que citou para não descentrar a discussão. Aquilo que digo é que mesmo que fossem passagens belas e sábias, elas não impediriam que o texto, no seu todo, contivesse em si a maior ameaça que é possível conceber.

    E se estou errado, peço que me dêm um exemplo de uma ameaça maior do que a ameaça do Inferno.

    Se eu ameaçasse matar o meu filho caso ele enganasse alguém, eu seria um pai cruel. Mas a amaeça de Jesus é infinitamente (repito: infinitamente) maior. E por isso, não poderá ser, na minha opinião, considerado menos cruel.

    E o facto de eu ser cruel por fazer esta hipotética ameaça de matar o meu filho caso ele enganasse alguém, não deixaria de ser verdade mesmo que poucos segundos antes eu tivesse dito que se ele fosse bem comportado poderia sempre contar com a minha ajuda.

    O Miguel não acredita que é cruel ameaçar seja quem for com o sofrimento eterno? Eu diria que mais cruel que isso é cumprir a ameaça, e se assumir que Jesus não mente neste sermão da montanha (ou que essa passagem não foi nenhuma distorção da sua mensagem), então Jesus mostra uma crueldade quase indescritível.

    O que lhe parece?

    Bruno:

    «o Novo Testamento tende a oferecer de Deus uma face diferente, porque mais benigna, da dominante no Velho Testamento. »

    Ouvi isso muitas vezes e durante muito tempo aceitei-o como verdade.
    Agora eu diria algo diferente, o Deus que nos é mostrado no Novo Testamento é em certa medida mais “sofisticado”. É um Deus Universal, e não de um deus étnico, é um Deus mais próximo de ideiais platónicos de perfeição do que dos deuses tribais de antigamente, é um Deus certamente diferente. E com as sugestões de amar o próximo, amar os inimigos, dar a outra face, até parece outra música.
    Mas em certa medida é um Deus mais exigente e implacável. E em certa medida é um Deus bem mais cruel. Porque sendo o Inferno um castigo infinito, quase sem referência no Antigo Testamento, o facto de ser amplamente referido no Novo Testamento parece-me mais relevante (e horrível) que todos os genocídios e mortes que o Deus do AT teria provocado. Afinal, penso eu, a dor causada por inúmeras mortes não é nada comparada à dor infinita.

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