Bíblia

Sinceramente não sei como se consegue falar de Levítico, do Livro de Job e do Evangelho de Marcos como se fossem o mesmo livro. Não sei como é que se consegue falar dos dois Deuses referidos na Bíblia como se fossem o mesmo. Oh sim, o sermão da montanha é só crueldades. Esmiúça, Saramago, esmiúça. (replay)

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65 respostas a Bíblia

  1. João Vasco diz:

    hediondas, digo

  2. Bruno Sena Martins,
    permita-me discordar: a Bíblia pode ser usada para lógicas de poder, mas não para lógicas de libertação. Não encontra nenhum mito na Bíblia sobre a rebelião contra a autoridade (encontra alguns na mitologia grega: por exemplo, o mito de Prometeu). Alguns dos principais mitos da Bíblia, aliás, podem ser lidos como apologias da submissão à autoridade. Por exemplo: Abraão admite sacrificar a vida do próprio filho por obediência a Deus, e Deus recompensa-o pela sua obediência. Mais tarde, Cristo aceita que o seu «Pai» não o salve de uma morte certa, dizendo que «não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres». Tanto a morte de Isaac como a de Cristo são injustiças, das grandes. Nenhum se revolta contra o seu destino. Nenhum coloca em causa a autoridade.
    Não encontra também, na Bíblia, uma única defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Encontra várias defesas da desigualdade, e até da submissão das mulheres aos homens.
    Poderia continuar.

  3. Bruno Sena Martins,
    não pense que não dei conta dos comentários que não passaram. É bonito ver o Cinco Dias a defender o Público…

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  5. Aqui chegados, Ricardo Alves escreve: “a Bíblia pode ser usada para lógicas de poder, mas não para lógicas de libertação” – constatamos que os fundamentalismos não se confinam ao campo das religiões. Negar que a Bíblia (a expulsão dos vendilhões do templo, como pequenino exemplo, já para não falar do exílio na Babilónia ou da escravidão no Egipto) possa ser eco de movimentos de libertação é negar a luta de milhares de resistentes a ditaduras na América Latina, em África e (em menor escala) na Ásia, que beberam na Bíblia essa fonte de resistência. Até isto Saramago seria incapaz de contrariar, como bem sublinhou o líder parlamentar do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, num debate sobre o “caso Saramago”.

  6. Bruno Sena Martins diz:

    Diz Ricardo Alves: “a Bíblia pode ser usada para lógicas de poder, mas não para lógicas de libertação.” Não é verdade, como provam movimentos de libertação fundados na Bíblia, p. ex: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_liberta%C3%A7%C3%A3o

    Mesmo o catolicismo mais ortodoxo, que tem uma triste história de ligação a despotismos vários, pôde, nalguns contextos, ser uma estandarte de libertação, p. ex. na Polónia comunista ou em Timor, contra a ocupação Indonésia.

  7. Bruno Sena Martins diz:

    “não pense que não dei conta dos comentários que não passaram.” Caro Ricardo Alves, não tenho estado online, não percebi, a que comentários se refere?

  8. Caro Bruno Sena Martins,
    referia-me a um comentário que escrevi sobre a invenção da «guerra contra o Natal», através do jornal «Público». Não passaram.

  9. Bruno Sena Martins,
    a chamada «Teologia da Libertação» é um movimento marxista. Que simultaneamente estivessem na ICAR foi uma coincidência histórica e sociológica. Mas que nada tivessem, no fundo, a ver com o catolicismo foi confirmado pelos dois papas que lidaram com o movimento: Wojtyla e Ratzinger.

    Quanto à Polónia e a Timor: é evidente que a hierarquia católica local apoiou a resistência ao comunismo e à ocupação indonésia, respectivamente. Justamente porque os respectivos regimes não davam muito espaço à afirmação do catolicismo (por razão de totalitarismo comunista e islâmico, respectivamente). Mas o simples facto de a «resistência» local ter sido dinamizada pela ICAR trouxe problemas a prazo: em Timor, os católicos já tentaram que a religião católica fosse obrigatória, e tem havido conflitos por razões de religião (Alkatiri que o diga); na Polónia, o regime dos irmãos Kaczinski chegou a proibir as «paradas do orgulho gay» (com o apoio entusiástico dos mesmos padres que tinham combatido a ditadura comunista), por exemplo.

    Pois é, Bruno. Quando se confia no catolicismo como «libertador», acaba-se a fazer a cama a novas tiranias…

  10. Miguel Marujo,
    esses resistentes a ditaduras da América Latina não eram resistentes por serem católicos. Eram resistentes por serem comunistas uns, oprimidos outros. A teologia não liberta, oprime. Já foi estudar o papel do clero católico na ditadura argentina, por exemplo? Havia um padre que chegou a usar a confissão para obter segredos políticos, entre duas sessões de tortura. Foi condenado a uma pena de prisão pesada há pouco tempo. E as declarações dos bispos argentinos durante o pior período, em que morreram 30 000 argentinos? Também não as conhece?

    http://esquerda-republicana.blogspot.com/2007/07/sacerdote-catlico-implicado-em-genocdio.html

    A expulsão dos vendilhões do templo: eles oprimiam quem? Comerciar é oprimir? A expulsão dos vendilhões é um episódio de defesa da «pureza» de um lugar, não de luta contra a opressão. A escravidão no Egipto: acaba com um crime horrendo: a morte de todos os primogénitos egípcios. Era mesmo necessário?

  11. Bruno Sena Martins diz:

    Ricardo, é importante não confundir as possibilidades de apropriação da Bíblia como texto libertário com a hierarquia da ICAR. O meu ponto central é exactamente a possibilidade da Bíblia escapar aos seus usos e apropriações hegemónicas. Sento verdade que o catolicismo nalguns contextos específicos esteve ao serviço das lutas libertárias, muitos usos libertários da Bíblia foram exactamente à revelia da ICAR.

  12. não vale a pena debater com o Ricardo: se a Igreja fez bem em Timor foi só para resistir à ocupação indonésia. Nunca um católico (ou cristão), na cabeça fundamentalista de Ricardo, pode usar a Bíblia como fonte de resistência, como projecto de liberdade – que também o é! Como foi para muitos católicos na América Latina que, inclusive, lutaram contra as conivências de bispos e padres e outros católicos com essas ditaduras. Mas: aos ateus que ajudaram essas ditaduras, aos ateus que mataram nessas ditaduras, que nome daremos? Deixe estar: não digo que mataram ou torturam em nome do seu ateísmo. Não: mataram ou torturam em nome da desumanidade – e disso nenhum homem, independentemente das suas crenças religiosas ou crenças ateísticas, está livre.

    (PS: “invenção da «guerra contra o Natal», através do jornal «Público»” é uma cruzada de Ricardo Alves, contra factos e lavrando insultos ao jornalista que trabalhou esses factos; sim, também há muitos cristãos que reagem da mesma maneira a supostas cavalgadas laicistas; os fundamentalistas nos extremos atraem-se até na negação de factos.)

    Por mim, fechei. O proselitismo fica bem ao Ricardo.

  13. “é importante não confundir as possibilidades de apropriação da Bíblia como texto libertário com a hierarquia da ICAR” – Bruno, e então que dizer do arcebispo Romero, assassinado em El Salvador por paramilitares da extrema-direita?

    Só mais esta nota: a Teologia da Libertação é fundada na Bíblia, propondo uma leitura marxista em questões sociais e económicas, não é um movimento marxista! Leonardo Boff ou frei Betto sempre pegaram nas palavras da Bíblia para ler a sociedade. Classificar a TL como faz Ricardo é querer negar a fonte de inspiração contra as injustiças que foi a Bíblia. A teologia não é opressora.

  14. João Vasco diz:

    Aquilo que verifiquei neste debate e aquilo que verifico na reacção às declarações de Saramago.
    Uma pessoa não pode fazer uma interpretação diferente dos textos bíblicos ou dos movimentos sociais, criticando a Bíblia ou a ICAR, sem ser chamada de fundamentalista.

    O Ricardo usou um tom cordato, e deu os seus argumentos. Em vez de explicarem que medida é que os consideravam errados, preferiram chamar-lhe fundamentalista e dizer que não vale a pena discutir.

    Por mim vale. Eu estou sempre aberto a que me mostrem que as minhas ideias estão erradas, mas com argumentos e não com insultos. E até agora não tenho visto como muito convincentes os que me apresentam da outra parte.

  15. Bruno Sena Martins:

    «Sendo verdade que o catolicismo nalguns contextos específicos esteve ao serviço das lutas libertárias».

    Não sei quais foram essas lutas e esses contextos. É evidente que em países esmagadoramente católicos como os da América Latina, apareceram católicos na oposição às ditaduras locais. Mas esses católicos, como o Bruno e o próprio Miguel Marujo já reconheceram, fizeram-no à revelia da hierarquia. Será que a interpretação da Bíblia feita pelos leigos de base é «melhor» do que a feita pela hierarquia? Porquê? Saramago fez justamente uma interpretação da Bíblia da qual discordam. O Bruno chamou-lhe mesmo «generalização burra». E no caso do Saramago alinham pela hierarquia.

    E sim, a chamada «Teologia da Libertação» foi um movimento marxista. Não é na Bíblia que encontram o desafio ao poder temporal. Não é na Bíblia que encontram a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

    Se defendem esses valores, e acredito que o façam sinceramente, é porque esses valores foram difundidos, celebrados e explicados pelos filhos do iluminismo desde o século 18. E esses valores afirmaram-se contra as igrejas, nomeadamente a católica.

    Ou vão dizer-me que a Inquisição foi contra a vontade da ICAR?

    Ou que a separação entre Estado e Igreja era uma reivindicação católica?

    Ou que os direitos das mulheres foram avançados pelo clero católico?

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