Lenine e Shakespeare

Hamlet-Laurence
(Laurence Olivier)

Regresso a Lenine.

É, de todo, inevitável, pois se se fala de comunismo e de marxismo é de Lenine que se deve (tem de) falar. Calar Lenine é calar o marxismo e o comunismo de uma vez e para todo o sempre. É assim e é assim mesmo, como eu dizia há dias a propósito de outro assunto (Platão) ao nosso amigo ezequiel.

E porque é que não se pode excluir Lenine do marxismo? Por uma simples razão: sem Lenine o marxismo torna-se uma forma de messianismo. É isto que me parece claro no Spectres de Marx (deixem-me citar o título completo: Spectres de Marx: L’État de la Dette. le Travail du Deuil et la Nouvelle Internationale, de 1993) de Derrida, para citar aqui um dos mais interessantes textos sobre esta questão. Jacques Derrida é muito claro neste ponto; vejamos: “Neste momento, se algo existe no espírito do marxismo que eu nunca estarei disposto a renunciar, não é apenas a sua ideia crítica e questionadora… É antes uma certa afirmação emancipadora e messiânica, que é a experiência da promessa de que cada um se pode libertar de dogmatismos e mesmo de quaisquer determinações metafísico-religiosas, nomeadamente do messianismo”.

Portanto, para Derrida, o marxismo é um messianismo, mas não metafísico ou religioso. E é aqui que julgo podermos desembocar na experiência do tempo, da temporalidade, tal como relatada por Walter Benjamin, julgo que na última Tese da Filosofia da História, que nos diz ser intrínseco à experiência messiânica a sensação de que cada segundo pode ser aquele por onde nos chega o Messias. Mas o que é importante na experiência judaica é que cada segundo assim mesmo se mantenha, sem o Messias, para que esta dimensão, espessura e sentido da vivência do tempo se mantenham também.

No caso de Derrida, onde é que ele vai buscar esta dimensão do tempo e da vida, esta ideia de que o marxismo não desemboca numa revolução (leninista, nomeadamente, que Derrida não faz equivaler ao fascismo, mas não inocenta de “totalitarismo”), porque é antes uma “revolução permanente”? Na minha opinião, vai buscar a dois pontos: ao início do Manifesto de Marx e Engels (“um espectro paira sobre a Europa e o mundo”) e ao “time is out of joint” de Hamlet, Shakespeare (note-se que há uma crítica a Derrida feita no volume colectivo, Ghostly Demarcations: A Symposium on Jacques Derrida’s Spectres of Marx, M. Sprinker, org., Verso, 1999). Ora, este espectro de Marx só pode inscrever no tempo o messianismo, tal como o fantasma da justiça persegue do princípio ao fim do drama o pobre Hamlet, atormentado pelo fantasma do seu pai assassinado que busca vingança e essa justiça.

E é precisamente neste ponto que devemos reconduzir, ou conduzir, o marxismo a Lenine, homem da acção e do concreto, não dos espectros nem da espectrologia. A revolução faz-se e faz-se mesmo, é assim e é assim mesmo e no seu momento decisivo. Ora, não é precisamente isso que acontece em Hamlet? Hamlet, como se sabe, é uma obra dramática de uma extensão desmesurada, inclusivamente não se encontra dividida nos Actos tradicionais, mas sensivelmente a meio da obra (em 3.2.) Hamlet é um Lenine: ou seja, há um momento em que ele, aconteça o que acontecer, morra quem tiver de morrer, seja qual for o desfecho trágico (não é isso que conta), não pode recuar.

Ao castelo de Elsinore chega uma noite uma trupe de actores para entreter a corte. A peça a representar é muito semelhante ao que Hamlet julga ter acontecido no reino: o seu tio mata o irmão, pai de Hamlet, conquistando o reino e a mãe de Hamlet. Neste ponto, Hamlet vê chegar o momento de se libertar do fantasma que sempre o perseguiu: é o momento da revolução, é, digamos, o seu “Outubro de 1917”, é o “instante decisivo” – não é espectro nenhum mais, é a hora da verdade. Acção e acção concreta, diria Lenine. Alain Badiou chamaria a este momento “acontecimento”, pois o acontecimento depende deste tipo de decisão tomada na base das consequências desconhecidas: algo se vai passar, não sei ainda bem o quê, mas a isso serei fiel.

O erro de Derrida não está na ligação de Marx a Shakespeare (que é óbvia e era escritor de eleição do filósofo), o erro de Derrida e dos marxistas não-leninistas (como se autodenominam) está neste esquecimento do tempo do “acontecimento”. Temem, digamos a “revolução com revolução”, ou seja, simplesmente, temem sujar ou macular as mãos no “acontecimento” (têm medo de sangue?). Resumindo, enquanto um marxista não perceber Hamlet a fundo, esqueça: não é comunista nem marxista.

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5 respostas a Lenine e Shakespeare

  1. Miguel Botelho diz:

    Muitos parabéns, Carlos Vidal. Já pensou em tirar um curso de mestrado em Inglês e fazer uma tese sobre o assunto?
    Já li muitas banalidades sobre Lenine e a revolução. O seu texto é apenas mais uma delas.

  2. não percebo como é que “o acontecimento, ontológica e epistemologicamente,( é ) estranho a qualquer movimento social ou político que o preceda( ?); isto no meu entender, aponta para algo que não tem qualquer relação com o mundo; o acontecimento surge-me assim como uma espécie de “não mundo” sendo o mundo tudo o que antes se viveu e o que se está vivendo.

    Este comentário que escrevi há dias serve de lastro para me posicionar no que penso ser aqui referido pelo CV sobre o momento do acontecimento.

    -a propósito, lembro uma pequena história:-era eu um pequeno administrador duma pequena lavandaria, perante a urgência de reparar umas canalizações na cave das instalações, um operário chamado para o efeito, labutava arduamente para conseguir o feito, entretanto ia argumentando sobre a situação dos operários em geral, pois que do seu currículo contavam já algumas lutas laborais em estaleiros de Lisboa, isto tudo antas do 25 de Abril; no meio de um certo escuro que nos cercava, num misto de revolta e audácia espelhado naquele olhar que não mais esqueci diz: “sim, porque há alturas em que nós temos que tomar uma decisão, errada ou certa mas temos que toma-la.

    Naquele rosto estava espelhado quanto o acontecimento é imprevisível,
    mas quanto mesmo assim é necessário assumir o risco para que algo aconteça.

  3. parabéns carlos, tiro-te a licença para embirrar com o rapaz, deixa lá o kautsky e a traição à Verdade-Acontecimento. Este bom terror em niilismo activo leva-me a perguntar-te o que é que criaste? O governo democrático das grandes diferenças pulverizadas, não?
    Assim, já é o segundo livro que o Zeferino e a editora que comprou a Caminho estão a vender. Grandes vendedores hein!
    ” Long live the great proletarian revolution ”
    e o corpo sem orgãos também. Vai pá tinta da china tá?

  4. ezequiel diz:

    Muito interessante, Sr. Professor. Infelizmente ainda não li o Spectres de Derrida.
    cumps
    ezequiel

  5. antónio diz:

    Esses philosophes franciús (Deleuze, Guatarri, Derrida…et les autres) são sõ uma das razões porque eu sou completamente anglófilo.
    (e pôssa que também estudei em Nanterre…)

    Em relação a Lenine, não gostaria de ter sido a cozinheira dele, e ainda menos a de Staline, ou mesmo Trotsky, Zinoviev, Radek, Boukharine, Kirov, Ordjhonikizé ou qualquer dos outros.

    A “electrificação” ainda é como o outro, mas os sovietes são uma ‘coisa’ algo desconfortável.

    Sobretudo se não gostarem de ti.

    🙂

    P.S.
    O que é que o L.O. está para aí a fazer ??

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