A retórica de Francisco Sarsfield Cabral

Nas páginas do Público de hoje, Francisco Sarsfield Cabral dá-nos mais um exemplo da desfaçatez com que se escreve acerca do PREC e das suas implicações sobre o alinhamento político da esquerda portuguesa. Li e reli, estupefacto, o seu artigo, subordinado ao recorrente tema «A retórica da esquerda unida».  Para tomar o seu lugar junto de Van Zeller e dar às angústias patronais uma caução intelectual, Sarsfield Cabral não hesitou em retomar uma argumentação que tem tanto de velho como de truncado. Diz ele que o termo «esquerda» é demasiado ambíguo e vago para dar  substância a uma estratégia política, o que, sendo verdade, pode ser aplicado a qualquer um dos outros termos correntes no vocabulário político ou económico (será o termo «economia de mercado», menos vago e ambíguo?). Fala-nos ainda Sarsfield Cabral acerca de um nebuloso anticapitalismo do Bloco e do PCP, certamente descortinado numa conversa com o seu taxista favorito, uma vez que nada no programa com o qual se apresentaram às últimas eleições legislativas autoriza semelhante caracterização.

A pérola a que me pretendo dedicar é um parágrafo, central na  sua argumentação e que reproduz lugares-comuns que, por serem convenientes, nem por isso deixam de ser disparates. Diz  Sarsfield Cabral: “Por compreensíveis motivos tácticos, os dirigentes comunistas e bloquistas não gostam de tornar explícita a sua posição anticapitalista. Mas ela está lá, e aponta para «quebrar a espinha à burguesia», como se dizia em 1975, quando não havia inibições tácticas (o que foi muito útil, aliás, para se perceber quem queria o quê). Ora, se o PS orientasse a política económica do seu governo pelo seu anticapitalismo tornaria a presente crise num desastre total.”

Bom, imagino que o leitor não compreenderá a razão para o meu espanto. Coisas destas aparecem recorrentemente na imprensa desde que se percebeu que 20% do eleitorado poderia votar à esquerda do centro. Estamos perante uma situação curiosa, em que os únicos partidos cujo programa aponta decididamente a superação dos bloqueios estruturais do capitalismo português são considerados anticapitalistas e designados como «esquerda radical». Recordo o que escreveu, a propósito de Spínola,  Jaime Semprún: “É preciso não desvalorizar o papel que a estupidez frequentemente é chamada a desempenhar na história.”

Voltando ao argumento inicial, dá-se o caso de eu me ver confrontado, com muita frequência e por razões inerentes às minhas tarefas profissionais (?), com artigos de jornais envelhecidos, papel amarelado e seco onde se encontram das mais raras pedras preciosas, nomes familiares, temas distantes, posições inesperadas. E assim é que, nem por acaso, tenho em mãos (ou, melhor dizendo, ao alcance de poucas teclas) um artigo assinado por Francisco Sarsfield Cabral, publicado a 9 de Maio de 1975 em «O jornal».  Talvez por compreensíveis motivos tácticos, talvez por arreigado anticapitalismo (nunca o saberemos), o nosso sisudo colunista dedicava-se então ao refrescante tema das nacionalizações. Para encabeçar a coluna, um título tão ambíguo e vago como «Da emergência à transição».  E o que escrevia então Sarsfield Cabral?  Tudo coisas com as quais eu estou genericamente de acordo. Querem ver?

“Por exemplo, as nacionalizações – passo decisivo na transição para o socialismo – também constituem, a seu modo, medidas de emergência: passando a controlar directamente os sectores estratégicos da economia, o Estado tem agora a possibilidade de dinamizar o investimento e a produção, substituindo-se a centros privados de decisão que, na conjuntura política em que temos vivido, naturalmente eram levados pela sua lógica própria a um retraimento fatal. Assim, a própria mudança de estruturas económicas é imposta pela necessidade de suster o agravamento da crise. Mas isso só encontrará plena justificação se for confirmado na prática – isto é, se o Estado mostrar uma boa capacidade de iniciativa e intervenção. […] Até ao momento, e decorrido pouco mais de um mês desde que o actual Governo tomou posse, os indícios são positivos: têm sido tomadas medidas concretas (em matéria de preços, por exemplo) e parece haver um bom espírito de coordenação entre as várias instâncias do poder – Conselho da Revolução e departamentos governamentais designadamente.”



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9 respostas a A retórica de Francisco Sarsfield Cabral

  1. Contestar um texto de hoje citando afirmações do autor de há 34 anos é, no mínimo, bacoco.
    O Ricardo Noronha, assim, há-de ir longe…

  2. JP diz:

    Pois é o que o dinheiro faz a este pobre rapaz…

  3. Ricardo Noronha diz:

    Nem longe nem perto. Não quero ir a ladonenhum.
    É o próprio autor que faz do passado o centro da sua argumentação e a citação é, por isso, inteiramente lícita. Se, como diz Sarsfield Cabral, o que se passou em 1975 veio provar e demonstrar o anticapitalismo do PCP e da «extrema-esquerda», bem como quão ruinosas seriam as suas soluções para a crise, o que se lê no seu artigo revela que à época encarou as nacionalizações de outro ponto de vista. Assim sendo, e se desejava remexer no passado para encontrar nele apoio para as suas ideias, talvez não lhe tivesse feito mal colocar-se a si próprio na equação.
    O seu comentário é por isso no mínimo bacoco.

  4. rafael diz:

    A lógica do Ricardo é perfeita. Nao é licito fazer critica a actos e actores de há 30 anos, quando há 30 anos, a opiniao de FSC os acompanhava perfeitamente. O texto do victor dias em http://tempodascerejas.blogspot.com/2009/10/uma-frase-de-f-sarsfield-cabral.html também me pareceu bastante certeiro

  5. Boa Ricardo Noronha. Não só pela crítica ao artigo de Sarsfield Cabral, como pela resposta a Fernando Redondo e continua a estudar a nacionalização da banca, em 75. Pelo que ouvi no Colóquio dos Comunistas tens muitas e boas informações.

  6. A reacção ao meu comentário mostra bem que se continua, 34 anos depois, a insistir no anti-capitalismo sem perceber que se devia estar a pensar no pós-capitalismo.

  7. Ricardo Noronha diz:

    Ó Fernando… não mostra nada disso.
    Com todo o respeito pela sua pesquisa (fui eu que moderei a sua sessão no congresso Karl Marx, lembra-se?), o que aqui está em causa é inteiramente outra coisa. Trata-se deste uso recorrente do que aconteceu no PREC (aliás envolto em mais do que uma nebulosa) para justificar o rotativismo ao centro e à direita. Por tudo o que já aqui escrevi, penso que é claro que não me parece que as nacionalizações ou uma aliança da esquerda «superem» o capitalismo. Não é a isso que se propõem nem é isso que está em causa. Mas é um espantalho recorrente que inquina qualquer debate político. Incluindo o que o você pretende levar a cabo.
    Queira desculpar o «bacoco».

  8. Caro Ricardo
    Eu sou um bocado obtuso com os nomes e por isso não fazia ideia nenhuma de que nos conhecíamos. Seja como for eu não costumo concordar ou discordar com base na identidade do interlocutor.
    Também não costumo ser ofensivo (espero que o interlocutor assim o entenda).

    Explicando um pouco melhor a minha crítica: eu leio o texto do Sarsfield no presente e não me parece que ele se refira ao passado.
    O que está então por trás da acusação que ele faz ao PCP e ao BE ?
    É a inexistência de uma definição, de uma proposta minimamente clara, sobre o tipo de organização da produção e distribuição da riqueza na sociedade que se pretende alcançar.
    Perante essa lacuna é legítimo concluir que permanecem, como um lastro que não foi alijado, as soluções “tradicionais” do “socialismo real” (as propostas de nacionalização parecem confirmar esta presunção).

    Pense-se o que se pensar de Sarsfield, isso é secundário, não se pode deixar de considerar a gravidade desta acusação, que é recorrente, e a incapacidade habitualmente demonstrada para a ela reagir.
    Foi neste quadro que eu achei que ir buscar uma citação de há 34 anos não era boa ideia.

    Um abraço

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