O Bloco nas Autarquias

 Já lá vão três dias sobre o dia das eleições, já li várias opiniões sobre os resultados das mesmas e várias explicações. Com maior serenidade agora, creio ser-me possível fazer uma análise mais a frio do que se passou, sobretudo dos resultados do Bloco de Esquerda, já que estive envolvida na campanha autárquica no concelho de Cascais.

Desde logo, dizer que o resultado eleitoral do Bloco me surpreendeu pela negativa.

 O facto de pouco ter mudado de 2005 para cá, parece-me algo preocupante, e deve pôr toda a gente a pensar bem no que se anda aqui a fazer. Falando de Porto e Lisboa, acho urgente reflectir sobre o que terá falhado na campanha do João Teixeira Lopes e restante comitiva, pois visto de fora, pareceu-me exemplar: homem da terra, com pensamento consistente e difundido sobre como deve a cidade ser organizada, com uma presença com impacto nas ruas, a falar com as pessoas, e nos debates, absolutamente arrasador (no debate longo e difícil na RTP1, foi o claro vencedor!) …sobre Lisboa, a história é quase oposta. Falta de dinâmica, e de envolvimento da própria candidatura, correndo o risco de me enganar, já que não participei da mesma, pareceu-me ser o caso típico do mínimo possível, com algumas coisas engraçadas (outdors muito bons, a acção da pintura do mural…), mas com algumas más escolhas estratégicas, por exemplo, o facto de pouco ou quase nunca se ter ouvido o candidato à assembleia municipal, o que na cidade de Lisboa me parece é insólito.

Para falar daquilo que me toca directamente, Cascais, que foi dos melhores resultados do Bloco a nível nacional, apesar de apenas se ter mantido mandatos, subiu a nível percentual, o que face ao actual cenário, deve ser considerado uma vitória. Fruto duma campanha diária, descentralizada pelas várias freguesias, na procura permanente daquilo que parecem ser os principais problemas do município.

 Para além das muitas expectativas criadas, baseadas nos resultados das Europeias e das Legislativas, e naquilo que tem vindo a ser um crescimento significativo do Bloco desde o seu aparecimento, parece-me evidente que a desilusão face aos resultados do Bloco tem que ver com algum desconhecimento por parte da direcção do Bloco sobre a realidade deste a nível local.  

O trabalho autárquico é um trabalho de proximidade, onde as bandeiras políticas que colam a nível nacional, como “justiça na economia”, perdem sentido e intensidade quando aplicadas à rua onde se vive, às escolas onde as crianças estudam ou às condições dos centros de dia. Quando se diz que nas autárquicas “se vota em pessoas e não se vota em partidos”, esta ideia não se fica só pela teoria mais batida sobre estas eleições, é algo muito prático, que tem que ver com a identificação, por parte das populações, daqueles que lhes parecem estar realmente interessados nos problemas do bairro, da rua, de cada munícipe.

As pessoas do Bloco, pelo menos até agora, estiveram muito pouco despertas para esta realidade. Há uma urgência de responder às necessidades políticas a um nível nacional, e internacional, esquecendo muitas vezes que existe um trabalho mais específico, mais regular, mais invisível, com menos momentos de glória e reconhecimento, que é o trabalho nas autarquias.

As caras a nível nacional, não podem ser as caras a nível autárquico, só porque sim. Estas caras têm que se identificadas com a terra, e serem identificadas por quem lá vive. E isto vale tanto para a aldeia mais recôndita do país, como para Lisboa ou Porto.

 Que o Bloco tem muito que aprender já se sabe, já muitos o vieram dizer. Espero que este debate que se tem gerado, por apoiantes e opositores, em torno deste fracasso eleitoral do Bloco, venha de facto contribuir para relembrar em militantes e simpatizantes, mas sobretudo, naqueles que dirigem este partido, que nada disto são favas contadas, que importa pensar todos os dias se a estratégia seguida se adequa ou não, refazê-la quando for preciso, e ouvir sem preconceitos quem queira contribuir.

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