Bloco de Esquerda

Em reacção ao resultado do BE nas autárquicas, levantam-se vozes críticas.  Mas as críticas, diga-se, apontam para vários lados. Parte delas é de âmbito exclusivamente eleitoral, visando, sobretudo, equacionar que razões levaram o BE a ter menos votos do que esperava e o que deve ser feito para o BE vir a obter mais votos, restrigindo-se a análise do problema às vicissitudes da política de alianças do BE. São críticas, digamos, fáceis, que se inspiram, não raras vezes, no prestígio que os lemas do unitarismo e do frentismo colhem na memória histórica à esquerda, mas que ignoram quer o lado excludente do frentismo e do unitarismo (a unidade entre comunistas e socialistas na França de final dos anos 30 implicou a exclusão das reivindicações anticoloniais da agenda da esquerda francesa, por exemplo) quer a dimensão basista em que o frentismo se apoiou (unidade, unidade, unidade, mas unidade “a partir de baixo”, o que coloca o problema do sectarismo muito além da questão das alianças eleitorais e, até, do estrito âmbito do que por regra se entende por política). Existe, entretanto, uma outra via crítica, que coloca um problema que me parece muito mais importante. Um problema pouco discutido no BE, pelo que me apercebo, e que não precupará a generalidade dos seus dirigentes, ainda pelo que me apercebo. Um problema que interpela o BE nas suas diferentes matizes, da suposta heterodoxia do Daniel Oliveira à alegada ortodoxia do Luís Fazenda. Este problema é o da redução da vida partidária à vida parlamentar, da comunicação política ao espaço mediático dominante, das bases e dos meios da militância (mais ou menos partidarizada) a um núcleo dirigente e seus assessores. Este núcleo dirigente e seus assessores, cuja generosidade e competência não está em causa (como não esteve, nunca, nas críticas feitas à direcção do PCP por alguns dos seus críticos internos), detém demasiado poder para um partido que pretende reinventar democraticamente as formas de fazer política. Diz o Rui Bebiano, num post em que refere muitas coisas de que discordo, mas que, neste ponto, assino por baixo: “Tornou-se agora mais sensível uma das debilidades do Bloco que tem acompanhado o seu trajecto. Refiro-me ao facto de, durante a maior parte do tempo, a sua agenda se ter concentrado em excesso no trabalho parlamentar e nos calendários eleitorais, reduzindo progressivamente uma das áreas de intervenção do BE original que era a participação diária dos seus militantes, e também das suas estruturas nacionais, em causas que tenham a ver com interesses e expectativas situados para além do combate institucional. Reconheça-se: um espaço que o PCP tem sabido preencher melhor”.

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8 respostas a Bloco de Esquerda

  1. Paulo diz:

    Zé Neves,
    Apenas algumas reflexões:
    Pareceu-me um pouco que em Lisboa o grande desígnio dos partidos ditos de esquerda foi derrotar a coligação dos partidos de direita – leia-se o Pedro Santana Lopes. Ora parece-me que essa fixação embotou tudo o resto. Porque as questões da cidade, parece, ficaram relegadas para segundo plano.
    Eu sou de direita, mas tenho a ideia que a esquerda sempre combateu os falsos unanimismos. Logo, mais importante que saber se os partidos mais pequenos – BE e PCP – deveriam ter estabelecido qualquer acordo com o PS, seria saber se tinham uma alternativa àquelas opções políticas da maioria agora eleita, ao contrário de Santana Lopes. E eu acho que se não tinham, deveriam ter, porque tudo aquilo me parece muito pouco consensual. E mais, interrogo-me se a maioria dos lisboetas se identifica com elas.
    A mim pareceu-me que a esquerda, no caso de Lisboa, parecia ter um único desiderato. Que atingiu, mas a que preço. E quem se tornou irrelevante em termos de política lisboeta tem uma quota parte de culpa. E não me falem apenas em voto útil. Este é apenas o resultado do que se disse acima.

    Cumprimentos,
    Paulo

  2. ruy diz:

    António Costa ganhou Lisboa com os votos do PCP e do BE. Ambos perderam um vereador e cerca de 20.000 votos em relação às autárquicas de 2005. Foi uma severa derrota para estes dois partidos, que só podem lamentar-se e queixaram-se de si próprios. E perderem para um candidato que exprime uma inequívoca política de direita – uma nova direita mascarada de esquerda – neoliberal, de grandes negócios e de falta de transparência. São responsáveis pela sua derrota miserável por se mostrarem hesitantes ou mesmo solidários com a política de António Costa – Sócrates para Lisboa, por lhe darem objectivamente credibilidade de “esquerda”. Deixaram-se usar para o triunfo de uma política da cidade de Lisboa de direita e de negociatas.

    O BE, ao tratar o PS como um partido de esquerda e não como um partido da nova direita que realmente é, ao misturar-se assim ideológicamente com ele dando-lhe credibilidade de “esquerda”, o BE não se afirma como alternativa e estará sempre sujeito à fuga dos votos úteis. Nas últimas eleições demonstrou isto mesmo. Ergueu Santan Lopes, Rui Rio e o PSD como principais adversários sem entender que na realidade era o PS, António Costa e Elisa Ferreira os seus reais adversários. Alias, o PCP há anos que mantem esta estratégia com os resultados que se vêem. O BE segue-lhe os mesmos passos porque terá igual destino.

  3. zemanel diz:

    Zé, caso não saibas, existe uma corrente na esquerda do BE (que não pertence à direcção PSR/UDP/Política XXI) e que tem apresentado moções alternativas às da direcção nas últimas Convenções do BE. Devias ler o que escreveram… e os resultados das autárquicas não seriam surpresa nenhuma.

  4. viana diz:

    Concordo com o post do Zé Neves. Dado que no blogue do Rui Bebiano, tanto quanto percebo, não é possível comentar, vou aproveitar para o fazer relativamente ao post a que o Zé Neves chama a atenção.

    No ponto 1 do seu post, Rui Bebiano erradamente assume que todo aquele que votou no BE nas eleições legislativas mas não o fez nas eleições autárquicas, necessariamente votou no BE nas primeiras apenas para protestar (contra o PS, o sistema, etc), ou seja sem se identificar e necessariamente apoiar o programa eleitoral do BE. Parece não lhe passar pela cabeça a possibilidade de existência de pessoas que terão votado por convicção ideológica no BE nas legislativas, e que votaram noutros partidos nas autárquicas por razões não-ideológicas (desde o voto útil, até ao simples facto de apreciarem o trabalho autárquico feito por outro partido). Aliás, ao CDS-PP aconteceu essencialmente o mesmo fenómeno, e este partido não é habitualmente referenciado como um “partido de protesto”. Na cabeça do Rui Bebiano quem votou convictamente no BE nas eleições legislativas só pode ser um fanático ideológico, que votará necessariamente BE em qualquer outra eleição. Estranha opinião de alguém que parece votar convictamente no BE mas que não se considerará um fanático ideológico.

    Concordo genericamente com os pontos 2 e 3 (este assunto do post do Zé Neves).

    Relativamente ao ponto 4, que reflecte essencialmente o tom do comentário do Daniel Oliveira no Arrastão, acho que há alguma mistificação no modo como é apresentada a questão da desirabilidade do acesso ao Poder (governativo) pelo BE. Quer o Rui Bebiano quer o Daniel Oliveira acham que o BE deve assumir que pretende governar e que está disposto a coligar-se com outros partidos para o fazer. Mas com isso ninguém discorda. Nunca ouvi quer os dirigentes nacionais do BE quer dirigentes locais a afirmar peremptoriamente “não, nunca, em circunstância alguma”. O que eu os ouvi dizer foi que estavam dispostos a governar e a coligar-se se fosse possível utilizar esse Poder para efectivamente transformar as relações de Poder existentes na sociedade. Quer o Rui Bebiano quer o Daniel Oliveira parece que acham que isso é exigir demasiado. Se repararem bem, nos seus textos, nunca começam pelo essencial da sua mensagem: é preciso estar preparado para ceder, para o compromisso. Deixam tal afirmação sempre para o fim. E isso não é por acaso. O que eles pretendem é antes de mais ver o BE a influenciar a governação, sendo secundária a sua efectiva influência, mas obviamente não acham convincente exprimir a sua opinião nestes termos. Para mim, e para outros apoiantes do BE (e chamo a atenção para o último texto de Jorge Bateira colocado nos Ladrões de Bicicletas e publicado no Público de dia 6), existem aspectos centrais da política programática do BE que não são negociáveis, em particular o objectivo transformador das relações de Poder na sociedade. Só poderá haver negociação **após** ser claro para os outros partidos que tais aspectos centrais não são negociáveis. De outro modo não vale a pena: a médio-longo prazo fazer pouco pode ser pior que nada fazer. Afirmar que o BE não esteve disponível para se coligar em Lisboa é esquecer que o PS não estava disponível para aceitar alguns dos aspectos centrais que tornam a política do BE diferente da do PS, como por exemplo a não aceitação que passem incólumes negócios obscuros como o da extensão do terminal de Alcântara, que terão um forte impacto na cidade. Afinal, Daniel o que achas que o BE podia ter adicionado de original ao programa da coligação liderada pelo PS, com possibilidade de ser aceite?… Onde estaria a “diferença possível”?

  5. Ora, aí está um assunto que merece reflexão.
    Também escrevi um post sobre isso no Peão (http://avezdopeao.blogspot.com/2009/10/no-rescaldo-das-eleicoes-locais.html).

  6. Augusto diz:

    Independentemente de outro tipo de analises, 565.000 votos que os portugueses deram há pouco mais de 15 dias ao Bloco, certamente não são só pelo seu trabalho parlamentar, quem tem essa visão redutora , talvez venha a ter grandes surpresas.

    Aliás o paragrafo transcrito de texto do Rui Bebiano, é tão genérico que não diz nada, quais são os combates que o BE deixou cair, e que o PCP tem tomado na suas mãos, dito assim sem ser explicado, é mais uma frase sem qualquer sentido.

    Depois porque por muito que se diga , e se discuta que eleições autarquicas, são eleições especiais, em que conta quase tudo, menos os grandes temas de politica nacional, certamente porque não são as Camaras que vão resolver os problemas do defice, do desemprego, da tão propalada asfixia democratica, da defesa da escola publica, do SNS, da politica externa, da liberdade sindical, do aumento do custo de vida, dos 2.000.000 de pobres, da aumento das pensões de reforma, etc etc etc, e mesmo temas fracturantes como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, da eutanasia, nada disso passa por uma campanha autarquica, porque não é da competência das Camaras mas do Governo.

    Há uma coisa que passa e que é o grande cancro do poder autarquico A CORRUPÇÂO que campeia, os negócios entre empreiteiros e camaras, os empregos para os amigos, as fugas aos PDM, os ataques ambientais, a destruição da orla maritima, a poluição dos rios, o transito caótico nas cidades, , infelizmente quase ninguem quis discutir estes problemas, e por isso a campanha fulanizou-se, vai ganhar o Isaltino ou o Perestrelo, o Rio ou a Elisa, o Seara ou a Ana Gomes, o Costa ou o Santana, e mais nada.

    Quem apostou fazer outro tipo de campanha, e tentou trazer á discussão problemas conncretos, ou foi silenciado ou cilindrado, talvez dentro de quatro anos, com a saida forçada de muitos autarcas, se dê a necessário renovação , e discussão dos reais problemas das populações.

    E aí forças como o BE terão uma palavra a dizer.

  7. Renato Teixeira diz:

    O BE é o melhor blend político inventado nos últimos 30 anos mas perde localmente pois muitos percebem que não passa de um tigre de papel insuflado de uma clique de burocratas e funcionarios que não representam movimento nenhum e que as pessoas não reconheçem nas suas localidades nem nas suas organizações laborais. As poucas e expecções até tiveram bons resultados.
    É claro que o BE perdeu votos para o António Costa em Lisboa. Passou anos a dizer que o Zé fazia falta e o Zé estava lá com ele. Tal como a Helena Roseta, qual silhueta do Alegre que o BE também tem passado a vida a promover. A unica leitura que eu vejo que se pode tirar é que os leitores perceberam que se é para votar na copia, BE, mais vale votar no original (PS). Daniel Oliveira, entre outros cheios de pressa para governar, o que quer que seja a qualquer preço, chora por não ter tido direito a festejar no ultimo palanque dos festins eleitorais: Lisboa. Com os Zés, o Sá Fernandes e o Sócrates, com a Roseta e com António Costa. E que justo que seria. Sá Fernandes não seria nada sem o BE, e os dirigentes do BE que o apoiaram têm direito a carpir as suas máguas na praça pública. A tese o Daniel Oliveira nem é de resto original e foi ouvida na noite eleitoral na boca de António Costa: “Esta é uma vitória de quem uniu!”
    Até apetece criar um grupo de facebook: “Vamos fazer uma festa para o Daniel Oliveira festejar com o PS!”.
    O BE perdeu votos em Lisboa não porque não esteja a crescer eleitoralmente, (as legislativas provam isso mesmo) mas porque passou os últimos anos a promover Alegres, Rosetas, Zés, e afins que estavam a festejar no palanque do governo. O eleitorado passou a factura de anos de oportunismo na cidade de Lisboa e mostrou ao BE que se passar a ser os Verdes do PS (como claramente aconteceu em Lisboa) o seu voto deixa de ser útil.

  8. Pastor diz:

    Novamente…Pois é o “rebanho” ficou desiadamente grande, e sem uma o umas orientações, minimamente bem definidas. Também os Pastores parecem nada fazer para com o seus pares e restante colectivo, finalmente mostrarem um ou rumos claros. como Pastor creio que habitualmente dá m…d

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