O Populismo segundo Ernesto Laclau

A propósito do debate que se realiza às 18h30 desta terça-feira, dia 13, no teatro Maria Matos, intitulado “Política, Razão e Emoção” e que conta com a participação de Manuel Villaverde Cabral e de Manuel Loff, a Unipop publicou, no jornal do Teatro Maria Matos, uma pequena montagem de entrevistas a Ernesto Laclau, onde este tece alguns comentários acerca da ideia de populismo. Fica aqui para todos. Editado a partir de entrevistas aos jornais Clarín (Maio 2007) e Folha de São Paulo (Maio 2006).

 A partir de seus trabalhos o populismo deixou de ser uma palavra pejorativa para muitos. Como fez isso? Fiz o que os cristãos fizeram com a cruz, que era um sinal de opróbrio e eles a transformaram em algo positivo. No sentido que eu lhe dou, populismo são as demandas dos de baixo que ainda não estão bem inscritas no discurso político, mas que começam a se expressar. É nesse sentido que penso que o populismo é um fenômeno positivo. Claro que isto pode ir em sentidos divergentes, porque há populismos de direita ou de esquerda.

 Qual a sua definição de populismo? Primeiro, sou contra a ideia de que o populismo seja um conceito pejorativo, ou seja, que o único que é válido é o momento institucionalista e que o movimento de mobilização é sempre vilipendiado. Mas o conceito também não é necessariamente positivo. Não é algo que se relacione como um tipo de regime ou ideologia. É uma forma de construir o político que consiste em privilegiar o que eu chamo de lógica da equivalência sobre a lógica institucional diferenciada. Por exemplo, se temos uma localidade onde os moradores pedem à prefeitura que seja criada uma linha de ônibus para levar e trazer ao trabalho. Se é criada, sem problemas. Mas, se não conseguem, isso vira uma frustração. Quando as pessoas têm outras dessas demandas frustradas, de saúde, de educação, então começa a ter uma certa solidariedade entre todas essas demandas. Então, tende-se a dicotomizar o espaço social entre o campo dos que estão no poder e dos que estão abaixo. Isso já é uma situação pré-populista. Quando todas essas cadeias equivalenciais de demanda se cristalizam em torno de certos símbolos comuns, nesse caso já temos o populismo no sentido estrito.

 O sr. defende o governo Chávez, que a experiência alarga a participação democrática. Mas há ganhos efetivos? O caso de Chávez é o que mais se aproxima do populismo clássico pelo fato mesmo de que se tinha lá um sistema político podre, com uma base clientelista, com uma escassíssima participação de massa. Havia a típica situação pré-populista: havia demandas que ninguém podia canalizar dentro do sistema político. Chávez começa a interpelar essas massas por fora do sistema institucional tradicional. Faz essas massas participarem do sistema político pela primeira vez. Isso se produz por meio de mecanismos populistas, através da identificação com o líder. O que se dá não é um populismo do tipo autoritário, porque essa não é uma mobilização de cima. Pelo contrário, há um aspecto de auto-organização das massas, nos locais de trabalho. E nisso a participação dos técnicos cubanos foi decisiva. É um ganho efetivo. Não há dúvidas que o futuro latino-americano passa por esse tipo de projeto.

As críticas feitas a partir dos Estados Unidos ou da Europa se concentram em Chávez como suporte do populismo de esquerda… Eu estive na Venezuela no ano passado e vi como vai se dando o processo nessa sociedade. Antes do governo de Chávez essas demandas populares não encontravam eco, hoje isso é possível. Antes da chegada de Chávez o que existia na Venezuela era um regime superclientelístico de gestão da coisa pública, como na Argentina dos anos 30. Quando as demandas das bases não encontram inscrição nos modelos institucionais normais se dá a identificação com um elemento transcendente que é a figura aglutinadora do líder. Essa é a característica geral de todos os regimes populares, não só na América Latina. O gaullismo na França era um fenômeno similar.

 E o excesso de personalismo de alguns governantes não pode ameaçar a democracia como sistema? Creio que não. A ameaça para as democracias na América Latina não vem dos populismos, mas do neoliberalismo. Os maiores atentados contra a democracia na região ocorreram em regimes como o de Videla, Com Martínez de Hoz ou com Pinochet e os Chicago Boys, no Chile. O que acontece é que no populismo se encontram os dois elementos, a mobilização a partir de baixo e a identificação a partir de cima. E o que os discursos da direita tratam de dizer é que o que conta é apenas a identificação de cima com o líder e não vêem o processo da mobilização a partir de baixo, mas os dois elementos estão em tensão. Muitas vezes a identificação com o líder se confunde com autoritarismo, mas pode ter identificação com o líder e mobilização de massas simultaneamente ao aumento da participação democrática.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

21 respostas a O Populismo segundo Ernesto Laclau

  1. Pingback: O Populismo segundo Ernesto Laclau :: w a z z u p

  2. João Valente Aguiar diz:

    Desculpem a intromissão mas agradecia a divulgação da seguinte iniciativa que me parece de relevância científica e cultural.

    Um abraço

    O Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Fundação Universidade do Porto promove o Encontro “À conversa sobre O Capital de Karl Marx”, a propósito da publicação inédita do II Livro em Portugal.

    O evento decorrerá no dia 15 de Outubro, na Sala de Reuniões da Faculdade de Letras da Fundação Universidade do Porto, pelas 17h30.

    Nesta iniciativa procurar-se-á discutir interdisciplinarmente tópicos da obra mencionada que revistam actualidade e pertinência analítica para a compreensão de actuais dinâmicas sociais, económicas, entre outras.

    Oradores convidados:

    Manuel Loff (FLUP)

    Nuno Nunes (ISCTE-CIES)

    Carlos Pimenta (FEP)

    Francisco Melo (editor e filósofo)

    Organização: João Valente Aguiar (ISFLUP)

    ENTRADA LIVRE.

  3. ezequiel diz:

    O populismo institui a noção de que há um todo ideologicamente homogéneo. Historicamente esta ilusão tem justificado os mais variados totalitarismos e autoritarismos. Nada menos do que o “todo” é invocado. Este “todo” justifica tudo. Da direita à esquerda, de Chavez a Pinochet.

  4. Carlos Vidal diz:

    Completamente errado ezequiel, como é hábito nestas questões relativas a dinâmicas transformadoras ou emancipadoras das situações actuais.
    Ou não leste Laclau, que creio mesmo não te interessar por aí além, ou tudo o que te parece radical – de Laclau a Badiou – é pasto para críticas superficiais.
    O populismo, que me interessa e muito, é uma das poucas formas de democracia existentes. Supera o colete de forças que é o voto: o voto não pertence às pessoas, é um mero instrumento do Estado e do excesso do Estado. O voto nada tem a ver com a política.
    Laclau, inteligentemente percebeu que essa formação aparentemente homogénea dos colectivos (como tu dizes) é algo que parte da vontade desses mesmos colectivos.
    É o povo (para ti, palavra “horrorosa”) que se une em torno daquilo que considera serem as suas identidades e projectos: e essa reunião/mobilização, para Laclau, é livre, parte de uma livre vontade, ao contrário do voto, ao qual não se pode escapar – de 4 em 4 anos.

    Caríssimo, lê melhor, pensa melhor, falha melhor.

  5. ezequiel diz:

    Eu não escrevi que o populismo não emana da vontade do povo. O que eu escrevi e reitero é que o populismo historicamente degenera em algo que nada tem que ver com a vontade do povo: autoritarismo e totalitarismo. E expliquei porquê: porque induz uma visão absolutista das coisas, muito similar à sua. A minha crítica tem que ver com as consequências do populismo na formação das percepções políticas. Nunca disse que o populismo é a-político bla bla-

    Quanto ao resto, meu caro, apresentei esta critica ao próprio (laclau) num dos seus seminários na Universidade de Essex. Visitava essex com frequência para ir ouvir o sr Laclau e, mais tarde, a sra Prof Beatrice Han-Pile. Ele achou-a pertinente. O Sr. não. A minha.

    Ou seja, a sua crítica ao meu argumento completely misses the point. O sr está a argumentar contra um persona imaginário. Nada do que o que o sr escreveu tem que ver com aquilo que eu escrevi, que foi muito modesto, especifico e sucinto.

    Deveria praticar o que prega, sr professor. Leia melhor o que eu escrevi e perceberá facilmente, espero eu, que não tem NADA que ver com a sua suposta crítica.

    Já li Laclau. Ele é leitura obrigatória na GB.

    A “minha critica” a Badiou assenta é muito simples: a ontologia não pode ser matematizada. O Ser não é um algoritmo ou um sequência de sets. Quer que eu continue…?

  6. ezequiel diz:

    Caro Vidal,

    espero que publique este comentário e o anterior.

    Prefiro esta pupila de Laclau ao próprio.

    http://www.essex.ac.uk/government/staff/academic/norvala.shtm

    recomendo-lhe este paper, escrito por um dos alunos de Laclau:

    Oscar Reyes
    Skinhead Conservatism: The Failure of Contemporary British POPULISM.

  7. ezequiel diz:

    digo-lhe mais:

    a ilusão de um todo homogéneo geralmente dissolve-se quando os lideres populistas ascendem ao poder. foi assim até com o movimento Solidariedade, Polónia.

    quando são confrontados com o pluralismo que foi camuflado pela noção do todo imaginário, recorrem à repressão…

    quer que eu cite casos???

    além disso, caro vidal, o populismo n se refere apenas às demandas de um povo injustiçado…refere-se também a uma estratégia política que transforma o complexo em simples, o ambíguo em certeza e a liberdade em subjugação…

    n tenho qualquer problema com o conceito de “povo.” apenas creio que o conceito de povo já encerra uma mistificação (homogeneidade) que nada honra a riqueza e criatividade cultural dos povos que conheço. a sua concepção é assumidamente estalinista, ou seja, é uma concepção brutalmente simplista. mui ruralesca e Georgiana, LOL

    deixe-se de delírios, sr prof. leia o que eu escrevo com atenção. eu leio o que o sr escreve com atenção. e, por favor, não atribua à minha pessoa pensamentos e sentimentos absurdos.

  8. ezequiel diz:

    <ah, perdoem-me a insistência. isto sai em forma de espasmos:

    Sr Prof Vidal, acho que o sr deveria ler com muito cuidado um excelente livro, escrito pelo grande Adorno: The Authoritarian Personality. Acho que seria um excelente antídoto para estes ataques despropositados e que, ainda por cima, falham o alvo por completo.

    se desejar continuar a conversa, ao seu dispor…

  9. Carlos Vidal diz:

    caro ezequiel,
    para já duas notas muito rápidas. Para já é só isto.

    Depois, talvez continue – também tenho direito aos meus espasmos e a responder em quatro ou cinco partes-comentários.

    O Solidariedade é, de novo, um mau exemplo.
    Porque cumpriu o seu propósito na totalidade: é um exemplo de populismo emancipatório, ou exemplo dos efeitos do populismo que não “degenera” (palavra ou ideia de ezequiel!).

    Quanto à equivalência ontologia-matemática.
    Podemos dizer tudo, contradizer tudo de qualquer maneira?
    Não, basta ler o Teeteto para perceber que nem tudo se pode dizer.
    Por isso é correcta a leitura dessa tese de Badiou, tal como fundada em Parménides (sobretudo) e em Platão.
    Para Paménides o “ser é” o não ser “não é”. Por ser, entre “seres” só pode existir igualdade.
    Cumps.

  10. ezequiel diz:

    Não é um mau exemplo, Sr Professor.

    Quando mencionei o exemplo do Solidariedade referia-me ao processo de dissolução do todo. Não me referia à viragem para o autoritarismo. A viragem para o autoritarismo não aconteceu porque a contra-imagem que inspirava os lideres do movimento era a de uma sociedade livre e plural. É um facto sobejamente conhecido. Pouco tempo depois dos lideres do Solid. chegarem ao poder, o movimento fragmentou-se. A coerência interna do movimento foi mantida pelo propósito COMUM de derrubar o regime vigente. Quando o objectivo foi cumprido, a movimento revelou as suas muitas cores. Todavia, parece-me precipitado considerar o Solid. um movimento populista. Daí a minha qualificação: “ATÉ com o solidariedade…” Estava a ilustrar o processo do ressurgimento explícito do pluralismo.

    Quanto a Badiou, a sua explicação parece-me algo cheeky.
    Parmenides acreditava, como diz e muito bem, que aquilo que “é” não pode deixar de ser. O grande problema desta interpretação é o da mortalidade:o que é deixa de ser.

    “Por ser, entre “seres” só pode existir igualdade.”

    Derivar o imperativo político da igualdade de uma concepção metafísica ou ontológica parece-me também uma manobra intelectual pouco honesta, à la Badiou. esta estratégia de procurar uma verdade ética numa metafísica é prática comum, infelizmente. O ser, por ser, não implica qualquer igualdade. Igualdade no sentido em que ambos são. Mas a história não acaba aqui. O Ser também se diferencia.(não age sobre si próprio, mas não encontro palavras mais adequadas) Se não se diferenciasse não poderia ser seja o que for: não existiram os contrastes da percepção, as formas da percepção etc.

    Sim, tudo é. Neste particular, podemos falar de “igualdade.”
    Mas a igualdade do existir (neste sentido apenas) nunca ofusca o ser da diferença.
    O sr não conhece uma coisa que é simplesmente. O sr conhece uma pessoa, uma montanha, um rio…conhece coisas que são (neste sentido iguais, mas só neste sentido) iguais no sentido existencial mas elas configuram-se na percepção como distintas. Porque será? Será que me faço compreender? Hoje o meu Português está bt mau. Desculpas.

    Ouça, caro Professor: Eu considero o Badiou um charlatão. Deleuze era brilhante. Foucault também. Sarah Kofman foi a mais brilhante, a meu ver. Derrida. um génio incompreendido (incluo-me aqui) Ranciére é muito interessante. Mas Badiou não me convence. Falta-lhe profundidade. Ele é um teórico político. Está demasiadamente obcecado com imperativos políticos para se deixar envolver na loucura filosófica. Não é um filosofo, na minha modesta opinião. É apenas um militante inteligente. Na minha opinião, os militantes fervorosos raramente são excelentes filósofos. Foucault foi um militante de pequenas causas. Mas a sua obra está repleta de incertezas. Como a de Deleuze. Percebe? As certezas nunca foram grandes amigas do saber filosófico. O grande exemplo a seguir é o de Wittgenstein: escreveu uma obra revolucionária e depois demoliu-a. Percebe?? Assim é que tem piada. Elaborações de padrecos fervorosos não chegam a parte alguma. LOL

    cumps
    ezequiel

    cumps,

  11. ezequiel diz:

    mas responda, Sr Prof.
    é sempre um prazer conversar consigo
    mesmo com insultos pelo meio

  12. ezequiel diz:

    Bem, isto saiu mesmo mal.

    escrevi mt depressa.

    incluo-me no grupo daqueles que não compreendem bem Derrida.

    as minhas desculpas.

  13. ezequiel diz:

    eu n gostaria que esta malta do 5 pensasse q eu sou arrogante. porra! eu queria escrever incompreendido por muitos (incluo-me aqui). sou um gajo que gosta de ler filosofia. nada mais.

    as minhas desculpas. 🙁

  14. Carlos Vidal diz:

    1. Já vai tarde (pelo menos hoje já vai tarde, amanhã há particularidades e obrigações pouco comuns a cumprir), já vai tarde, mas o que eu disse é comprovado pelo próprio ezequiel, e muito do que este nosso amigo acrescentou tem pouco interesse. Eu explico:

    2. Ficou provado pelo Solidariedade que o populismo tem facetas evenementais (e aqui o conceito convocado é o de “acontecimento”: indiscernível, indecidível, imprevisível); facetas essas que podem ser, na livre escolha dos seus “associados”, emancipadoras, num sentido muito global (do Solidariedade ao zapatismo).

    3. O ser “é” e essa é a essência do ser, não é, REPITO, não é a “mortalidade”. Como saberá, o problema da crítica da metafísica e a elevação do ser à finitude é um tema heideggeriano, mas, posteriormente ao Sein und Zeit, Heidegger cai no misticismo do Deus que é a única coisa que nos pode salvar, sendo esse Deus não Cristo mas, saberá o meu amigo, Holderlin. Este tema e esta leitura não tem discussão: é assim e é assim mesmo.
    Depois, vem uma estranha contradição: a da finitude e do cuidado (Sorge) de Sein und Zeit e a da imortalidade da verdade do poeta. Lindo, mas em que ficamos?
    Por mim, ficamos em Parménides claro, pois a essência do ser não é a morte nem a passagem do “ser” ser, do “é”, para o fim-morte. A essência do ser prende-se com a infinitude e a permanência (e a imutabilidade parmenidiana). Caro ezequiel – escolha então entre Heraclito e Parménides. Quem pensa na morte e na mutação fluxista-sensista, escolhe Heraclito, quem escolhe o contrário escolhe Parménides, e daqui eu não saio nem abdico. Como reparou, sou dogmático até ao tutano.
    E, quanto a este tema, volte a pensar, sff.

    4. O que é que o meu amigo disse que julgo não ter interesse?? o ter abandonado Platão, evidentemente, e ter entrado na esfera da opinião e do gosto, gostinho pessoal. Sem interesse, problema seu: prefere Foucault, problema seu. Levou as coisas não para a filosofia mas para os termos da preferência e do gosto. Problema de superfície e não filosófico.

    5. Wittgenstein, autodestrutivo? Certo. Talvez. Mas olhe que tem similitudes com Russell – fala da proposição, depois diz que não acredita nessa coisa estranha que é a proposição, fala do “facto” e depois diz-nos que a verdade se liga ao “modo de dizer” (ou dizê-la).
    Não será um novo sofista?
    Um novo Protágoras?
    Já leu o que Diógenes escreveu sobre Protágoras e o que Platão dele, Protágoras, destruiu no sempre referido Teeteto??

    5. Para Protágoras o homem é a medida de todas as coisas das que são para as que são, das que não são para as que não são; para ele era sempre possível afirmar uma coisa e o seu contrário.
    Para Platão isso deveria dar direito a enforcamento (o autor da República nunca empregou estes termos, mas abominava Protágoras).
    Não será Wittgenstein o novo Protágoras?

    É isso, para si, a filosofia?
    Para mim, não.

    De resto, esqueça Badiou – não sou advogado de defesa do senhor e estou aqui a falar de outras coisas.
    Abraço.
    CV

  15. ezequiel diz:

    Respondo-lhe quando acordar, Sr Professor.

    Boa noite,
    ezequiel

  16. ezequiel diz:

    Bom dia Sr. Professor.

    2- Badiou, tanto quanto sei, nunca falou de facetas. Para ele o evento (emancipação) é indecidível tout court. Resta saber como é que se pode ser fiel a um evento indecidível ou imprevisível. O populismo é um processo e não apenas um evento ou acontecimento. Tem uma história, uma narrativa e uma temporalidade que não pode ser reduzida ao conceito de acontecimento. As interpretações acerca dos eventos não são contidas num vácuo a-histórico (ou seja, as próprias rupturas pertencem a um continuum histórico). Aliás, para podermos considerar um evento emancipador temos que invocar uma situação anterior ao indecidível (a situação ou condição de injustiça). Assim, como pode ver, o evento transcende a sua própria temporalidade.

    3- Heidegger não eleva o ser à finitude nem o reduz à finitude. A apreensão da finitude induz a apreensão do ser na sua plenitude (autenticidade). Este tema e esta discussão não é “assim e assim mesmo.” Para si talvez. O sr diz que o Ser é isto e aquilo, cita Parmenides, mas não explica coisa alguma. Curioso: quando defende Badiou, celebra a noção do imprevisível mas quando fala de Parmenides parece-me um feroz conservador: a imutabilidade e a permanência. O que é que aconteceu às rupturas imprevisíveis, caro Prof.? Heidegger nunca afirmou, em parte alguma, que a essência do Ser é a morte. Por favor ilustre este seu argumento com uma qualquer citação. Tenho toda a obra deste nefasto nazi que plagiou muitos dos argumentos de Husserl. Cite as passagens relevantes de Heidegger, s.f.f. Foi o sr que propôs este argumento. Ilustre-o, por favor.

    4- Quanto ao meu gosto pessoal, ok. Fair point. Deveria ter explicado as minhas preferências. Todavia, a sua crítica só teria sentido se eu tivesse reduzido as teses dos filósofos que mencionei ao meu gosto, às minhas preferências, pervertendo-as, distorcendo-as. Isto seria desonesto. Pior, seria completamente descabido. lol O que eu disse e repito é o seguinte: Sim, prefiro Protagoras a Platão porque Protágoras reconhece a variabilidade histórica dos conceitos de verdade, das vivências. Não procura refúgio no essencialismo ou purismo de Platão. Os dogmáticos sempre preferiram Platão.

    Eu não sou um defensor de Heidegger. Considero a sua filosofia mórbida, por razões muito diferentes das suas: Ele transforma a prise de conscience da morte e da finitude na condição da possibilidade do ser autêntico. Mas esta é outra história.

    Pois, tem toda a razão: a filosofia de Platão pode justificar o enforcamento de alguém. A de Wittgenstein não. Nem a de Protágoras. É o problema das verdades absolutas. É possível afirmar uma coisa e o seu contrário. Aliás, é fácil demonstrar a veracidade desta tese (foucault). Basta olharmos para os mais variados revisionismos históricos (AJP Taylor, por exemplo). O Sr ignora este facto elementar e parece não perceber que esta mutabilidade da verdade não nos conduz ao mais nefasto niilismo. Muito pelo contrário. Mas esta é outra discussão, mais próxima de Hans Jonas. Espero que não me peça para explicar este meu gostinho pessoal.

    um bom dia para si, sr Prof.

    cumps,
    ezequiel

  17. Carlos Vidal diz:

    Caríssimo ezequiel,
    Uma pequena resposta de fugida:
    – É incompreensível que valorize Protágoras como fundação do que quer que seja: mas pode ser, sim, de tudo menos de ou da filosofia.
    – Quando ataca Platão, o ezequiel não está a fzer nada de novo: está a regressar a “nova filosofia” de Bernard Henry Levy que na sua cruzada pela “democracia” elevaram (ou baixaram) PLatão a fundador do fascismo e/ou totalitarismo. Argumento velho, mundano, superficial – e espero que vocês esteja longe dessa gente, desses Levys ou Glucksmanns, senão não nos entendemos: tontinhos como esses não são discitíveis, e você não faz parte dessa família.
    – Os distúrbios sofísticos de Wittgenstein, em si mesmos, não são analisáveis como pensamento.
    – Quando me defini como dogmático tipo “é assim e assim mesmo” não me estava a referir a Heidegger, estava a procurar definir uma possibilidade de resposta a Heidegger.
    – Deixe-me guardar para depois a relação entre Parmenides e Badiou. Mas o mote andará por aqui: Parménides defende uma imutabilidade do ser (“o ser é” ou “o ser não é”, e quando “é”, ezequiel, obviamente não é coisa “evolutiva”, se “é”, não “vai sendo”).
    A imutabilidade em Badiou tem dois nomes, pelo menos: infinito e acontecimento. Somos imutáveis na produção infinita de acontecimentos.
    Há aqui contradições? (Não creio)
    Se calhar, mas vamos conversando.
    Abraços.
    CV

    – 2 post-scriptuns: não insista tanto, sff, em Badiou.
    – Decepciona-me que diga “prefiro Protágoras a Platão”.
    Onde quer chegar?
    Provavelmente a qualquer coisa que nunca pode ser chamada como filosofia.

    Será, ezequiel?

  18. ezequiel diz:

    Sr Prof. nós nunca nos entenderemos.

    Felizmente.

    abraço
    z

  19. ezequiel diz:

    Caro Sr. Prof

    Nunca li Levy ou Glucksman. A teoria das formas ou ideias de Platão foi considerada problemática muito antes destes dois filósofos Franceses. Não foram eles que o consideraram, talvez erradamente, como o precursor do totalitarismo.

    Recomendo-lhe, se me permite, um pequeno livrinho de Gadamer, sobre a concepção do bem-bom (lol) em Platão e Aristoteles. Chama-se, apropriadamente, The conception fo the good in Plato and Aristotle, da Yale Univ Press.

    Sr Prof, infelizmente não tenho tempo para estar aqui a divagar sobre filosofia. O que posso concluir desta interessante conversa é que o sr, como bom Marxista que é, considera a sistematicidade um requisito filosófico. Até certo ponto, concordo consigo. Mas não totalmente.

    Aonde quer chegar, interroga o senhor? A parte alguma. Hegel, no seu célebre prefácio da Phenomenologie, escreveu que, na exploração filosófica, é impossível antever o porto de chegada (referia-se, se bem me lembro, às contradições de um prefácio, como anunciar um destino ainda não atingido, dado que estamos a começar a exploração filosófica. Como anunciar uma conclusão à priori??? Não faz sentido)

    Esta será a nossa grande diferença. O sr quer chegar a parte alguma. Já conhece o seu destino e a sua conclusão. Daí o seu dogmatismo. O Sr, ao contrário de Hegel, escreveu o prefácio quando começou a escrever o livro.

    Boa tarde.
    cumps
    ezequiel

  20. Carlos Vidal diz:

    caríssimo
    Está a escapar-lhe uma coisa, uma só coisa que é tudo:

    – o ponto em que Hegel se encontra com Badiou.
    Cumps.
    CV

  21. Pingback: Select high-performance V? Lilevy

Os comentários estão fechados.