Entre o Nobel e o abismo

Fica bem ser cínico em relação à emergência de Obama na cena política mundial: “na Europa sequer seria considerado de esquerda” (dizem os da esquerda purista), “a diplomacia é uma forma de defender a hegemonia americana por outros meios” (dizem os saudosos de procedimentos menos ambíguos como as guerras preventivas)”, “a qualquer momento vai-vos desiludir” (diz muita direita ainda a digerir a derrota de McCain).

Concedo que olhando para o historial possa ser inteligente guardar uma reserva em relação ao Nobel da Paz. Os norueguesses já meteram uns quantos pregos e Obama, vale a verdade, é um um neófito nas lides pela pacificação dos povos. Mas nem assim consigo partilhar do cinismo que por aí perpassa. Ao abjurar tão largamente o infame legado de Bush, Obama já fez mais pelo diálogo cultural e pela defesa dos mais elementares direitos civis do que muitos idealistas românticos no espaço de uma vida (ainda que terminada em martírio). O Nobel da Paz será talvez a primeira expressão substantiva de que Obama não foi eleito só pelos americanos e desengane-se quem pensa que um  prémio atribuído nestas condições, tão in medias res, lhe acrescenta sobretudo fama e glória. O mínimo que espero é que a esta honra o persiga como um pesadelo, como o espectro de um abismo. Uma suave descida realismo patriótico, à revelia de como foi celebrado pelo mundo, está cada vez mais fora de hipótese. As estátuas em vida podem ser apenas ridículas ou podem funcionar como um duplo atroz que magnifica os fracassos do vivo. Obama foi muito bem entalado. Andaram bem os noruegueses.

Genet dizia que não queria que o mundo mudasse para poder estar sempre contra ele. Eu gosto muito do Obama e… Vocês perceberam.

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19 respostas a Entre o Nobel e o abismo

  1. pedro bala diz:

    Sim, percebemos todos. E o Bruno Sena Martins, se vivesse no Afeganistão, Iraque, Cuba, Colômbia ou Palestina, perceberia ainda melhor. Às vezes, uma certa dose de destruição ou de privação à nossa volta fazem cair estúpidos argumentos em favor de coisas que não são factos mas desejos. E todos desejaríamos que Obama fosse tudo o que realmente não é. Mas é.

  2. Aires da Costa diz:

    Se eu fosse americano… Mas não sou.

    Os Noruegueses andaram bem. Talvez. Um atestado de homem bom ao Comandante em Chefe do Império terá de certeza os seus efeitos. Quais? os tempos mais próximos o dirão, tenho esperança que não se limitem a uma ligitimação acrescida da actividade de policiamento dos EUA e a um contributo para uma maior aceitação na opinião pública nos países europeus do envio de tropas para as fronteiras do império. Se um Nobel da paz americano pensa que é necessário enviar mais tropas portuguesas, alemãs, norueguesas, etc. para manter a paz por esse mundo fora…

    Para terminar e não pretendendo ser tão sarcástico como a questão pode sugerir, não resisto a perguntar: Quais os principais efeitos do discurso sobre o fim das armas nucleares?

  3. Bernardo Sardinha diz:

    Ao conseguir ser eleito Presidente dos EUA, Obama prestou logo um extraordinário serviço ao Mundo, especialmente aos povos que foram colonizados, às minorias étnicas, à dignidade dos oprimidos.
    Se falhar agora nos seus propósitos, se for perdendo a auréula duma maneira lenta até ao esquecimento final, prestará um dos mais terríveis serviços a todos nós, Terceiro Mundo.
    Foi pena que a Klu Klux Klan o não tenha conseguido matar nos primeiros três meses de governação.

  4. Patricia diz:

    Meu caro Pedro Bala não devemos falar sobre os outros sem primeiro os ouvir.Pelo menos em relação a Cuba,não ouvi ainda a reacção dos outros países que menciona,será melhor que leia o que Fidel de Castro diz sobre a atribuição deste prémio

  5. Aires da Costa diz:

    “Se falhar agora nos seus propósitos”

    Um dos seus propósitos mais reafirmados é “restabelecer a liderança americano no mundo”. Não sei em que é que o reforço da liderança americana no mundo constituirá um extraordinário serviço ao mundo em especial ao dito terceiro mundo, mas o Bernardo Sardinha lá saberá

  6. jesus diz:

    Se o Obama foi eleito com os dinheiros dos financeiros da Wall Street e militaristas do complexo,do que é estao à espera?O homem é um palhaço bem pago ao serviço dos bandidos do Capital.E a Palestina o que é que ele fez por ela?Esquecer e pôr a cor da sua pele a render…Pf,poupem-me!E,a cereja no cimo do bolo, vai ser o aumento de 40 000 soldados/mercenários para o Afeganistao/Paquistao na guerra Imperalista e,não falta pouco vão ver como é…A Puta que o Pariu,é o meu prémio para ele e,p+ara os otários úteis que se veem qdo falam de obama,pq é PC abraçar pretos/brancos reaccionários!

  7. jesus diz:

    Hora do Onanismo para o articulista.Otário!!!!!!E,vai à merda pq daqui a uns dias falaremos acerca da politica deste gajo,tonto!

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  9. Bernardo Sardinha diz:

    Aires da Costa
    A liderança é uma inevitabilidade nas sociedades humanas. Ela ocorre espontaneamente e é reconhecida aos mais fortes. Mais fortes porque mais inteligentes, mais ágeis, melhores caçadores, mais sensatos, mais ricos, mais bem armados. Em qualquer das situações, a liderança pode trazer o bom ou o mau para os mais frageis. A América é, pelo seu potencial económico e bélico, o lider incontestável no planeta. Se o seu presidente for um Bush, a sua liderança é má para os frágeis (como nós); se for um Obama… é possível que seja boa.

  10. João Pimenta diz:

    Só fico admirado por ser agora, Obama pouco fez pela paz, será que ganhou o prémio que deveria ser atribuido daqui a 2, 3 anos?
    Espero bem que sim, que daqui a 2, 3 anos estejamos a festejar um mundo melhor.

  11. xatoo diz:

    a direita a digerir o McCain e a esquerda a engolir o Obama…
    Que prosa mais sonsinha!
    Ainda não perceberam que existem forças superiores que controlam ambos os lados?
    De facto os verdadeiros decisores estão ocultos na sombra. Por exemplo, de onde é que apareceu o Joe Biden, o nº 2 do show obamania? foi “eleito” por quem? (de facto o fulano já era nomeado pelo pai Bush no tempo da guerra do Vietname para limpar as investigações às actividades ilegais da CIA)
    mas enfim, há quem ganhe a vidinha com essa coisa da esquerda e direita

  12. “Eu gosto muito do Obama “.
    Como costuma dizer o sr. Manuel lá da venda, que, por acaso, casou com a mulher mais feia da aldeia (o pai dela era o dono da venda): gostos não se discutem!

  13. os “puristas” discutem o problema do Nobel como qualquer pacóvio se entusiasma com o festival da canção. “Não merece”! É “lacaio do capital”! …
    mãezinha, mas então a academia de oslo é, ou alguma vez foi, um referencial absoluto, ou a atribuição dos nóbeis uma tarefa “revolucionária”? de “esquerda”? desde quando é que a “esquerda radical” “vibra” com estas matérias? Ridículo.
    Quanto a mim, que sou mais modesto e pragmático nas minhas reinvindicações, concordo com o post. Sabemos quem é o Obama e das suas limitações, mas simplesmente por representar a derrota da busharia infame, já merce uma data de coisas. Sem esquecer aquelas que ainda serão de lhe exigir.

  14. xatoo diz:

    eheheheh …”a derrota da busharia infame”
    já foram julgados? quantos foram condenados?

  15. Aires da Costa diz:

    Bernardo Sardinha

    Alguns esclarecimentos:
    O mundo não é uma sociedade.
    O que é bom para os EUA não é necessariamente bom para Portugal
    “A américa…lider incontestável no planeta”: Em que planeta é que vive?
    Uma pequena pergunta: Sabe o que é que quer dizer liderar?

  16. rui david diz:

    uma coisa é serem derrotados.
    outra é serem julgados. Não está excluida a hipótese, embora seja pedir muito. No entanto, se forem julgados, sê-lo-ão com as garantias que lhes dá o sistema judicial americano. não sei se isto satisfaria todos os requisitos de um bom julgamento popular.

  17. diz:

    Rui David,

    Nunca ouvi tal coisa pelos lados dos EUA, julgar o Bush &Cia. Pelo menos com propósitos sérios. Infelizmente isso não vai acontecer.

    As ordens cotinuam a vir do mesmo lado: os actores podem ser diferentes, mas os guionistas não mudaram.

    Dentro de uns meses estamos a saltar para uma guerra no Irão, que vai encaixar tão bem no contexto Nobel da Paz e desarmamento nuclear, como a invasão do Afganistão esteve para a luta anti-terrorista.

    Espero estar enganado.

  18. Bernardo Sardinha diz:

    Boa tarde, sr. Aires da Costa. Obrigado pela atenção que me dispensou. Cumprimentos, Bernardo.

  19. carlos graça diz:

    O homem foi, de facto bem entalado… 🙂

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