O verbo está na música

A simplificação do pensamento dos autonomistas, de que se queixa o Zé Neves, é igual à simplificação de autores como Badiou e Zizek, de que se queixa o Carlos Vidal. Cá para mim, acredito no gesto, no desejo de acção, na urgência do fazer, mas não no carácter totalizante dos textos. Agrada-me a prosa encantatória do “Império” de Negri. Defendo a violência sagrada que escorre nas páginas de “O Século” de Badiou. Admiro a melancolia revolucionária de Benjamin. Estou convencido, como Zizek, que a agitação não quer dizer, forçosamente, movimento. Gosto quando os “sem parte” tomam a palavra, em Rancière. Sei que as palavras mudam as coisas, tenho fé nos verbos, mas não sou capaz de me ficar por um livro. Penso que só a revolução das coisas, essa espécie de interrupção da história, permite fugir à catástrofe do capitalismo, mas não acredito que a salvação esteja inscrita na história. A economia não dá sentido às coisas. A história não faz nada, são os homens e mulheres que a vão fazendo a prestações. Sinceramente, continuo a acreditar que tudo é mais cristalino nas canções, mesmo quando o cantor está a ficar parecido com o Paco Bandeira.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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8 respostas a O verbo está na música

  1. joao diz:

    Helena Neves, candidata da CDU à Câmara de Viseu é cantora lírica de profissão (e professora nos Conservatórios de Viseu e Guarda), e nesta reportagem da LUSA apresenta-se cantanto a Jornada de Lopes-Graça, acompanhada ao piano por Domenico Ricci. Segue o link:
    http://videos.sapo.pt/yTNhhWS5ToeB5er0JsBA

  2. xatoo diz:

    ou uma coisa ou outra; quem estoira a voz na estridência da guerrilha politica, não pode de imediato reavê-la quando se trata de canto; e quanto mais lírica fôr a peça, pior.
    Por exemplo, o que pode mudar Cuba ao admitir-se recentemente em palco, (servido como refeição modernaça às massas) o “fadista” latino-americano Juanes a entoar o reggae neo-fascista “Tengo una Camisa Negra”?
    De facto a coisa só pode espevitar a pseudo discussão reaccionária comunismo vs fascismo

  3. Carlos Vidal diz:

    Caro Nuno,
    Como sabes, não há “carácter totalizante dos textos” em Badiou (por acaso, no Zizek, pelo ritmo de produção, é que me parece que o texto tende a ser tudo – ele é um clown, apesar de ser o clown mais inteligente do planeta, mas é um clown).

    E porque é que não há nem pode haver, em Badiou, esse carácter dos textos?
    Porque o seu conceito central – o acontecimento/verdade – é alheio e contrário e inacessível ao conhecimento. Como o acontecimento não pode ser explicado pelo conhecimento, o texto é quase nada.

    Por isso um “livro” de Badiou nada é perante um “acontecimento”.

  4. Carlos Vidal,
    Esse resumo do acontecimento/verdade é um bocadinho simplificado, não achas? Não havia Praxis política que resistisse a isso. Como não era explicado, não podia ser preparado, como não podia ser produzido, não valia a pena fazer nada. Toda a prática política se reduzia a estar sentado no sofá à espera do acontecimento/verdade redentor.
    Isso dos Clowns é muito subjectivo, na melhor das hipóteses tu e eu somos dois palhaços pobres, mas não conseguimos escrever livros como: Defense of Lost Causes, The Parallax View e The Ticklish Subject, entre outros.

  5. Carlos Vidal diz:

    O resumo é, como e porque resumo, o possível. É simplificado porque lhe faltam componentes. Repara, e centrando-me em Badiou: o conhecimento está excluído do acontecimento, porque ele de início é indiscernível – ou aderes ou não lhe aderes (mas não há justificação racional nem para uma coisa nem para outra); e excluído do conhecimento não significa excluído da organização política (que, actualmente, não passaria pelo “partido”, mas tb não seria anárquica). O acontecimento escapa ao conhecimento por 2 razões: 1. Inicia-se, irrompe, como coisa indiscernível à situação que vigora; 2. O seu desfecho é imprevisível. O sujeito do acontecimento adere ao indiscernível na base da nada e adere á imprevisibilidade sem medo.
    Vá lá, sem isso nada feito. Um exemplo que costumo dar:
    O PREC português, e não o 25 de Abril, é que foi o acontecimento (a interpretação é minha, repito). Começa de forma indiscernível (quando e onde começou??) e torna-se imprevisível. O PREC é praxis política por natureza (PREC = Política). O termidoriamo que vem e simplifica um “fim” travando o acontecimeto (Mário Soares e os amigos americanos, Carlucci, o comíco da Alamedda) são antipolíticos e ainda hoje vivemos as consequências desse “comício” da Alameda.

    Ora, não escrevemos agora livros desses!…
    Como sabes?
    Acabei agora uma coisa de 900 pp chamada “Invisualidade da Pintura” e não sei nada sobre as suas consequências…
    (E quando chamei clown ao Zizek, fi-lo porque as suas teses, no que têm de mais interessante e provocador, seguem demasiadamente perto as do “mestre”.)

  6. antónio diz:

    Hey , Nuno, o Negri é o Toni Negri ? O de Firenze ?? (Autonomia Operaia, Indiani Metropolitani e todas essas coisas ???)

    O Jacques Rancière sei quem é , foi meu professor…

    “Todos os mistérios que conduzem da teoria ao misticismo encontram a asua nexplicação racional nna ‘praxis’ humana, e na compreensão dessa praxis”

    (cito de cor e traduzo livremente…)

    A “agitação” pode ser alguma coisa, ou pode também ser ar quente.
    E de todo, “os homens e mulheres” vão fazendo o que podem fazer, e “interromper a história” é uma ideia interessante, estou nessa.

    Cheers, Nuno.

    António

  7. antónio diz:

    Carlos Vidal, desculpa lá, caganda trêta…
    O conhecimento é o acontecimento, o que resta é fé… isso é que não é discutível.
    O “acontecimento” não escapa coisíssima nenhuma ao “conhecimento”, e também nao “irrompe, indiscernível”, os acontecimentos são feitos pelas pessoas, quer elas estejam ou não ‘iluminadas’ pelo tal de conhecimento.
    Onde pôssa que merdoso livro de filosofia fôste buscar essa conversa ??

    Vivemos ainda hoje as consequências de um comício na Alameda ? Por amor de deus, de que planeta é que tu vieste agorinha mesmo ?
    E já agora, sabes onde é a “Mexicana” ?? Excelentes folhados, vai lá provar.

    A “Invisualidade da Pintura” fica-te mais bem que o luto a Electra. Boas cêguetices.

    António Sobral Cid.

  8. antónio diz:

    Nuno, esqueci-me de dizer… quando estive em San Sebastian (Donostia) apresentaram-me um grupinho de bascos com um vocalista cubano, ganda misturada….
    Mas o ídolo deles era o Miguel Mata-Moros (outro cubano, com um nome políticamente incorrecto, e um talento acima do normal)

    ” Mama yo quiero saber de donde son los cantantes…
    Qué los encuentro muy galantes y los quiero conocer
    Con sus trovas fascinantes
    que me las quiero aprender (…)”

    (isto é um “son”, ritmo cubano por excelência.)

    Parabéns, Nuno.

    🙂

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