O Miguel Vale de Almeida chama a atenção para uma notícia publicada no DN, acerca de um estudo recentemente levado a cabo por Vanessa Ramalho. Da notícia, o Miguel destaca: «Os homossexuais, em geral, não são “neuróticos e ansiosos”. Pelo contrário, são “afectuosos, tranquilos, confiantes e firmes nas decisões”, características que fazem deles melhores pais do que muitos heterossexuais, mais “neuróticos, ansiosos e inseguros”. Conclusões surpreendentes de uma tese em psicologia sobre homoparentalidade, que desfaz estereótipos como o de que uma criança criada por homossexuais tem maiores probabilidades de ser gay ou lésbica. (…)» A mim, no entanto, a notícia deixa-me de pé atrás. Explico-me, esmiuçando o pedaço de texto acima linkado. A seu respeito, começo por dizer que estou de acordo – como não?!? - com a negativa inicial: os homossexuais em geral não são neuróticos nem ansiosos. Mas estou de acordo, antes de mais, por causa do “em geral”. Por norma – em geral, se preferirem… - deveríamos ter todo o cuidado em começar uma frase acerca de questões de discriminação por um ”em geral”, a menos que seja, como é o caso, para se negar a própria generalidade. “Em geral” é uma fórmula que opera uma redução da multiplicidade a uma identidade e que nos deixa a combater a discriminação em nome da nossa alegada diferença e não do nosso direito à igualdade. Explico-me melhor: em geral, nem homossexuais, nem heterossexuais, nem homens, nem mulheres, nem portugueses, nem chineses são neuróticos ou ansiosos.
Agora, a consequência da negação da generalização não poderá ser a afirmação de uma generalidade de sentido contrário - e é esta afirmação que a notícia nos traz. Com efeito, os meus problemas com a notícia do DN (e, se calhar, com a investigação de Vanessa Ramalho) surgem na frase seguinte à negação inicial. Aparentando-se necessariamente complementar da antecedente, a frase é… pobrezinha: dizer que, em geral, os homossexuais são mais afectuosos e tranquilos e confiantes é tão absurdo como dizer que são mais neuróticos, ansiosos e o que seja.
Finalmente, também desconfio da última afirmação citada pelo MVA: o estudo contrariará estereótipos segundo os quais um filho de homossexuais tornar-se-á homossexual. É que se, por um lado, é importante desfazer o estereótipo, na medida em que é importante desfazer todos os estereótipos, para mais garantindo-se, neste caso, a imprevisibilidade das nossas orientações sexuais (independentemente da orientação predominante no meio envolvente e também – embora aqui a discussão seja mais complicada - independentemente da nossa orientação sexual num dado momento ou circunstância); por outro lado, temo que este tipo de estudos, pelo menos tal como divulgado na notícia do DN, não passe de um tranquilizante, que contribui para reduzir o neurotismo homofóbico, mas que se limita a normalizá-lo - é que o argumento, a mim, soa-me assim (admito que seja o meu mau humor a falar mais alto): deixem que os homossexuais adoptem à vontade porque está cientificamente provado que isso não vai levar à proliferação da “espécie”.




Muito bom post, parabéns.
Há dias, alguém me falava da necessidade, não importa agora a que pretexto, de haver mais homens nas faculdades de medicina e eu quase que comecei a hiperventilar a ver o argumento das quotas (invertidas) desfilar-se perante os meus olhos; agora leio o texto que linkou e vejo o princípio de uma nova era, em que se mantém a dicotomia hetero-homo e o preconceito de que é mau que alguém possa crescer para ser homossexual, mas em que os homo até já ganham pontos aos hetero porque são tendencialmente mais afectuosos e tal. Ou seja, mantêm-se os preconceitos antigos e ainda se acrecentam mais uns tantos.
Ainda bem que a humanidade não tende para a ignorância. Ha!, este é o meu preconceito favorito.
Zé,
Eu julgo ter lido a peça de que tu falas, mas o nome da psicóloga que encontrei foi Vanessa Ramalho, e não Margarida Moz. Aquilo que eu li pareceu-me a caricatura de um estudo científico: conclusões gerais sobre a parentalidade heterossexual e homssexual baseadas em 25 casos de cada espécie, seleccionados não se sabe como. Lembrou-me aquela velha piada, segundo a qual os brancos são bons e os pretos são maus, a chatice é que também há brancos maus e pretos bons. Eu acho excelente que as organizações gays e lésbicas combatam o preconceito, na adopção incluído, e dou o meu de apoio de cidadão a essa causa, mas pf não façam de mim parvo e não tentem substituir um preconceito imbecil por um outro de sinal contrário, mesmo que embrulhado em papel científico.
Abr., AF
Em geral, generalizações são más (para não dizer que são uma merda).
antónio, corrigido. confundi com a autora de um outro estudo publicado na mesma edição do jornal.
abç
O Zé Neves expõe no parágrafo final uma fragilidade retórica do tipo “tiro no pé” que até aqui ninguém, que eu tenha reparado, tinha ousado apontar. A mim é-me indiferente que alguém seja homossexual ou hetero, sou a favor da adopção por homossexuais e chateia-me a neurose homofóbica, mas é preciso ter cuidado com os efeitos secundários desses tranquilizantes que a combatem.
No mais, o post desmonta sem apelo as falácias desse estudo.
Concordo, também me surpreendi ao ver o MVA a aceitar este “estudo”: os preconceitos persistem. Essa de dizer que os casais homossexuais são mais tranquilos, afectuosos e tal…não me venham com tretas, os casais são casais, as pessoas são pessoas e comportam-se como tal, independentemente da sua orientação sexual. Afinal qual é a diferença entre um humano homo e um humano hetereo? trata-se sempre de seres humanos, ou não?
Puxei pela memória e recordei os casais homosexuais e heterosexuais que conheci “por dentro”, digamos. Pus-me a tentar compará-los (nunca me tinha lembrado disso antes) e, sinceramente, não encontro predominância deste ou daquele comportamento numa ou noutra das “espécies”.
Palpita-me que a autora do tal estudo “científico” será capaz de dizer: …”eu não sou homofóbica! Deixem os homosexuais em paz! Não lhes façam mal, já basta serem o que são, coitados! (isto foi dito, há uns anos, em relação aos pretos, lembram-se?).
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o que eu não percebo na notícia é a articulação entre neuroses e etc e a probabilidade de ser homossexual ou lésbica.
ou seja, porque raio é que o estudo “desfaz esteriótipos” do estilo filho de gay/lésbica há-de ser gay ou lésbica. Apenas estabelece uma relação entre neuróticos e não neuróticos e opção sexual.
wierd shit, man…
de resto totalmente de acordo
O António disse tudo no seu comentário.
Estes estudos são umas grandes farsas.
parabéns pela lucidez analítica.