autonomia, autonomias, autonomia italiana

Esta entrada da wikipedia para autonomismo é bastante razoável. Permito-me trazê-la até aqui, de modo a chamar a atenção dos mais desatentos para o debate que prossegue ali em baixo. Trata-se, no caso do que podemos agrupar sob o epíteto autonomista, de uma tradição muito diversa, que vai da autonomia de Castoriadis ao autonomismo de Negri, do trotsquismo pós-colonial (?) de C.L.R. James ao operaismo italiano de Tronti, do neo-zapatismo de John Holloway  a algumas obras historiográficas de Manuel Villaverde Cabral. Trata-se, politicamente, de um leque diverso de experiências, das lutas operárias, do “outro movimento operário”, travadas nos EUA ou na Europa, com destaque para Itália e França, à emergência de um feminismo autonomista, entre outras coisas crítico da ideia de emancipação da mulher pelo trabalho, passando ainda por várias lutas em torno de centros sociais, rádios alternativas, etc.. Teoricamente, hoje, sobretudo a partir das correntes italianas, em grande medida exiladas em Paris e noutros locais, merece destaque um conjunto importante de obras e autores que, em Portugal, arrisco-me a dizer, é praticamente desconhecido a nível da militância e da investigação. Vejam os trabalhos de Sandro Mezzadra em torno da imigração, de Maurizio Lazzarato contra a economia política, de Paolo Virno sobre linguagem,  de Carlo Vercellone acerca do rendimento garantido e do capitalismo cognitivo, de Nick Dyer-Witheford em torno do que chamou cyber-marx. E uns outros tantos. Voltaremos a isto, mas, por ora, é só name dropping. Quem não quiser esperar, siga os links subsumidos pelos nomes dos cromos. Vão dar a textos e livros de acesso gratuito.

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10 respostas a autonomia, autonomias, autonomia italiana

  1. Puro name-dropping também, dentro da esfera italiana, recomendo estes textos elaborados para o seminário «30 años no son nada. El movimiento del ‘77» organizado pela editora traficantes de sueños:

    http://www.traficantes.net/index.php/trafis/content/download/17556/183210/file/el%20movimiento%20del%2077.pdf

  2. Obrigado pela excelente selecção e respectivos links.

    só fica uma interrogação: porque razão aqui tenho acesso a livros e artigos assinados por canetas tão grandes quanto Judith Butler, Virno, Lazzarato e tantos outros e completamente gratuito, e nos cursos de pensamento contemporâneo organizados pela Unipop tem que se pagar para, por vezes (a par de outros grandes, diga-se a abono da verdade), ver um pessoal a ler os papers dos mestrados?

    ele há autonomias e autonomias

  3. Pingback: autonomia, autonomias, autonomia italiana :: w a z z u p

  4. viana diz:

    Lido o resumo do movimento autonomista o que se conclui é que redundou num fracasso, incapaz de alterar de modo perceptível as relações de Poder na sociedade. Mesmo quando conseguiu alguma visibilidade social, como após o derrube do “regime dos Coronéis” na Grécia em 1974, no qual teve um papel importante, não soube o que fazer com a sua influência, e rapidamente caiu no esquecimento. Mas pelo menos, ao contrário do marxismo-leninismo, teve a virtude de não estar na origem de milhões de mortos.

    Temos assim uma ideologia ou movimento, o autonomismo/anarquismo, preocupado antes de mais com a subversão do Poder, mas que acaba por ser inconsequente por não saber o que fazer uma vez que o Poder se desmonore (o que na prática nunca aconteceu, pois o Poder apenas se transfere, a não ser em caso de catástrofe natural). E uma outra ideologia ou movimento, o marxismo-leninismo, obcecado com e eficiente na tomada do Poder, cego aos meios para atingir tal fim, que sistematicamente se revelou incapaz de evitar que esse Poder depois de adquirido continue concentrado nas mãos de poucos, e usado na opressão de muitos. Lamento, mas a história do séc. XX é inequívoca: quer o marxismo-leninismo quer o autonomismo/anarquismo foram incapazes de originar uma sociedade mais igualitária.

    Existirá outro modo? Como antes afirmei, acho que sim. Através da institucionalização da subversão, ou seja introduzindo elementos de subversão nos processos de decisão do Estado. O exemplo desta subversão rapidamente contaminaria todas as relações de Poder no seio da sociedade. Olhem para o que se está a passar na Bolívia, talvez o mais claro exemplo do que um movimento subversivo, de características autonomistas, pode conseguir se não temer utilizar o Poder do Estado para subverter as relações de Poder na sociedade. Podem ler talvez a mais igualitária Constituição hoje existente aqui:

    http://www.tinku.org/content/view/3372/4/

    E apesar duma Constituição constituir antes de mais uma aspiração, bem distinta da realidade das relações efectivas de Poder, hoje na Bolívia, com essa aspiração como guia, constrói-se hoje uma sociedade mais justa e igualitária.

    Aproveito também para chamar a atenção para este clarividente texto

    http://www.democracynature.org/dn/vol7/takis_movements.htm

    de Takis Fotopoulos, fundador do movimento por uma Democracia Inclusiva, e cuja leitura recomendo a todos os envolvidos nesta discussão, e de que deixo a sua conclusão

    “The fight to build a new antisystemic movement inspired by the paradigm for a true (inclusive) democracy, which to be successful has to become an international movement, is urgent as well as imperative. The antiglobalisation movement has the potential to develop into such a movement, if it starts building bases at the local level with the aim to create a new democratic globalisation based on local inclusive democracies that would reintegrate society with the economy, polity and Nature in an institutional framework of equal distribution of power in all its forms. If it does not catch the chance, it will eventually wither away or, worse, be integrated. In the latter case, the transnational elite will proceed with its management of the neoliberal globalisation that will marginalize the majority of the world population and worsen the ecological situation, whereas the anti-globalisation ‘movement’ will play the role of the ‘loyal’ opposition fighting for a slightly lower degree of concentration (through the Tobin tax, the easing of South’s debt etc) and a slightly smaller ecological crisis (through the Kyoto treaty and its subsequent amendments)!”

  5. zé neves diz:

    caro viana,

    é um facto que ninguém ainda teve sucesso na tarefa de derrubar o capitalismo, de modo que o falhanço imputado a autonomistas é válido para todos os demais. de qualquer das formas, creio que o problema está na forma de medir sucesso e insucesso. há, na tradição autonomista italiana, uma tendência para considerar todas as derrotas como vitórias, numa concepção relacional da luta de classes, que, por exemplo, leva a ver na organização pós-fordista- eu sei que estou a abreviar muito – uma vertente de intensificação da exploração mas também o eco de uma recusa do trabalho fordista. quanto à bolívia, interessar-lhe-ia, seguramente, o que Garcia Linera tem escrito, em diálogo, mais ou menos harmonioso, com Negri e Hardt.
    abç

  6. zé neves diz:

    nuno castro, o dinheiro que se cobra em algumas iniciativas da tal unipop visa cobrir despesas relativas a essas iniciativas, angariar dinheiro para outras iniciativas de índole gratuita, custear despesas de edição relativas às próprias iniciativas. e é isto. cumps

  7. viana diz:

    Por vezes parece-me que há pessoas à Esquerda que ficam satisfeitas apenas com a possibilidade de colapso (ie, num curto intervalo de tempo) do Capitalismo. Que é até bem possível que aconteça, infelizmente muito mais provavelmente devido à sua instabilidade (cada vez mais frequentes crises de sobreprodução, com o consequente crescimento da especulação financeira) e limites (na exploração dos recursos naturais, que conduzem ao colapso ecológico) sistémicos do que à subversão do sistema. Mas esquecem-se que o Capitalismo é apenas um de entre vários sistemas de opressão, e que caso o Capitalismo falhe, as elites opressoras não hesitarão em mudar a sua preferência “ideológica” para um sistema que assegure a manutenção do seu Poder (vide anos 30, onde o colapso do Capitalismo levou vários países ao Fascismo). Portanto, não basta derrubar o Capitalismo para ficarmos, por defeito, com uma sociedade mais igualitária, o que me parece ser esse o nosso objectivo. É preciso, desde já, criar as condições políticas e sócio-económicas que não só incitem ao desaparecimento do Capitalismo, subvertendo as relações de Poder que o sustentam, mas também assegurem que o que o substitui não é um outro sistema opressivo. Aliás, a História sugere que o colapso repentino do Capitalismo (genericamente, de qualquer sistema de organização social) torna mais provável a transição para um novo sistema de opressão. Esta é uma das principais razões porque defendo uma subversão organizada e controlada do Capitalismo, com a ajuda das estruturas de Poder associadas ao Estado: uma “reforma-revolucionária”.

    Já agora, o que aconteceu à prometida resenha pelo vosso blogguer Bruno Peixe do simpósio “On the idea of communism”, que teve lugar no Birkbeck College em Março deste ano? Talvez ajudasse a perceber melhor onde alguns dos mais destacados pensadores da ideia de comunismo se situam hoje. Encontrei um pequeno resumo aqui

    http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2009/mar/16/communism-philosophy-communist-party

    e outros mais longos, e interessantes, aqui

    http://www.shaviro.com/Blog/?p=732
    http://www.metamute.org/en/content/what_s_the_big_idea

    Voltando à Bolívia, aqui está um excelente discurso de Garcia Linera onde ele expõe o processo de redistribuição de Poder em curso na Bolívia, e a simbiose, tensa mas consequente, entre os movimentos de base na origem da “reforma-revolucionária” da Bolívia e os instrumentos de Poder à disposição do Estado da Bolívia:

    http://politicalaffairs.net/article/articleview/4683/1/234/

    Nenhuma discussão sobre o presente e o futuro da Esquerda pode resumir-se a uma reflexão filosófica, ignorando o que se passa hoje, e os passos concretos que estão a ser dados porque quem pretende construir hoje e amanhã uma sociedade mais igualitária.

  8. mas José Neves, o que descreve poderia aplicar-se ao mercado, a qualquer mercado.

    dinheiro cobrado para sustentar novas iniciativas (produção) que por sua vez suporta outros mercados (através de impostos) como por exemplo a saúde.

    afinal qual é a diferença?

  9. zé neves diz:

    nuno castro, a diferença está em que, numa empresa, em regra, manda o princípio do lucro. a unipop é uma associação sem fins lucrativos. no fim do ano, não há distribuição dos lucros pelos accionistas. aliás, se quer saber, a tendência é para os membros perderem dinheiro.

  10. Ricardo Noronha diz:

    Para além disso carece de demonstração que o que ali se diz corresponda a papers de mestrado. Uma boa parte dos oradores completaram os respectivos mestrados há muito tempo e a maioria dos outros também se vêm debruçando sobre temas diferentes.
    O preço de inscrição é de 25€ para o público comum e 15€ para estudantes. Os desempregados não pagam. Há mercados e mercados. Neste, como é bom de ver, os preços não fazem recair sobre os consumidores os custos reais que tudo isto implica. Desde logo, os livros que se compram para preparar as intervenções, o tempo que se rouba a trabalhos remunerados ou simplesmente às obrigações profissionais.
    De qualquer das formas há aqui um xico-espertismo que importa desmontar. A Unipop não é «autonomista» (o que quer que isso queira dizer), é uma associação sem fins lucrativos, com estatutos legais e uma direcção. Não é nem pretende ser uma prefiguração da sociedade em que os seus membros gostariam de viver, mas um espaço para debater, estudar e conceber hipóteses para outro tipo de vida. Não superámos o Estado e o capitalismo ao constituir-nos em associação e organizar cursos de pensamento crítico contemporâneo ou outra coisa qualquer. Nem tivemos essa pretensão. O nosso reino é deste mundo.

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