
Nestor Makhno
Caro Miguel Serras Pereira
Uma obrigação escolar a ser cumprida até sexta-feira, atrasou a minha modesta participação neste diálogo que eu próprio suscitei (com o Zé Neves e o Ricardo Noronha), onde se confrontam perspectivas de matriz predominantemente libertária (onde as referências de Bakounine, Kropotkine, Makhno ou Castoriadis são fulcrais para vários grupos de militantes) tendentes à autogovernação, cooperativização integral e ao autonomismo e, de um outro lado, simplificando, as perspectivas políticas baptizadas como “centralistas” e de matriz partidária m-l (nas quais tendo a situar-me, embora pretenda, como tentarei explicar, desvalorizar o termo e a realidade «partido/partidário»).
Uma vez mais, parece estar aqui a prolongar-se um facto amplamente conhecido e quase historicamente natural. Digamo-lo deste modo: quem se quer encontrar à esquerda (persistamos nesta esvaziada palavra à falta de melhor termo, prestando-lhe homenagem histórica devida), à esquerda da “esquerda possível”, à esquerda da “esquerda responsável” ou “esquerda democrática” (este, o conceito “político” mais nulo e mesmo estúpido dos últimos, como dizer?, cinquenta anos, ou de todo o século; nulo, estúpido e perigoso, aliás), quem se encontra por aqui, neste lugar que suponho ser o nosso (e eis um primeiro ponto comum que podemos desde já sublinhar), quem por aqui anda encontra sempre, com vista a um entendimento mítico (?), obstáculos aparentemente intransponíveis ou dificuldades insuperáveis. Aparentemente? Espero que sim.
Estas dificuldades são tanto mais visíveis, e mesmo espectacularizadas, creio eu por uma de entre várias razões: há dos dois lados um projecto comum de crítica e de superação da economia dominante e uma nítida oposição de meios, desde os de análise aos da concretização, de que os casos do esmagamento da revolta de Cronstadt ou a revolta do exército ucraniano de Makhno (aliado intermitente dos bolcheviques, note-se sempre) são exemplos esclarecedores. As razões de Lenine, sobre Cronstadt, também são conhecidas: dizia o líder bolchevique que entre os “brancos” e os bolcheviques não poderia existir uma terceira via.
Já antes de tudo isto, Lenine se envolvera numa polémica com Kautsky, como se sabe em torno da democracia e da privação dos chamados “direitos eleitorais” burgueses, privação que Lenine, com toda a razoabilidade (na minha opinião), não atribui a um plano partidário, mas à necessidade intrínseca de um momento de luta e consolidação revolucionária. Ou seja, há um tempo em que essa reivindicação dos “direitos eleitorais” é um expediente absurdo (típica do “renegado”). No “Que Fazer?”, Lenine atribui o papel de vanguarda ao partido, ele mesmo necessariamente possuidor de uma ideologia de vanguarda; o partido emerge aqui, e não o soviete, como a entidade que lidera o processo de transformação radical social. Se pensarmos em Stirner (o teórico da “causa de nada”, e que eu acho muito mais importante para a arte do que para a política, pois foi seguramente a matriz do dadaísmo de Tzara e Balla, e sobretudo do dadaísmo americano, EUA para onde emigrou Duchamp), se pensarmos nos revoltosos de Cronstadt (para quem a liderança do partido correspondia a um “capitalismo de estado”, para já não falarmos do próprio Castoriadis que considerava Lenine como o “começo do totalitarismo”), se pensarmos nesta sequência (deixando Makhno numa zona de ambiguidade, pois foi aliado e inimigo dos bolcheviques), a organização política-vanguardista-partidária-colectiva não faz sentido e deve ser combatida, para se valorizar o que chamas a cidadania governante, conceito inspirado em Castoriadis, e o indivíduo. Passemos ao Castoriadis dos “Carrefours du Labyrinthe”, onde lemos uma defesa de uma “autonomia autolimitada por cidadãos livres”: “defino como objecto da política a criação de instituições as quais, interiorizadas pelos indivíduos, facilitam o mais possível o seu acesso a uma autonomização individual e a uma sua participação ampla alargada a todos os poderes envolvidos na sociedade”. O teu conceito de “cidadania governante” partilha, creio, a definição de Castoriadis.
Mas, o problema divisa-se logo de seguida. Esta dinâmica e esta visão carece do que Alain Badiou chama de “acontecimento”, ou seja, a irrupção efémera, indecidível e imprevisível (sublinhe-se imprevisível, o que quer dizer “coisa desprogramada”) de algo inédito e inacessível ao conhecimento. Este movimento irreprimível institui uma “verdade” que expõe a injustiça da situação “estável” anterior. Por exemplo, na irreprimível e imparável tomada da Bastilha, dir-se-á que a revolução revelou a “verdade” do Antigo Regime, exposto então na sua crueza aberrante. Parece-me nestes termos que a sequência que defendes (ou o teu ponto de vista) pode conduzir programaticamente a política (que é sempre invenção do INÉDITO) a uma certa paralisia; nestes termos é correcta e única a perspectiva de Lenine que entende a política como acção, acontecimento, fazer, errar (para depois “errar melhor”, como Zizek gosta de citar de Beckett), inversão de uma situação, eventualmente violência (era Robespierre que dizia, julgo, “quereis uma revolução sem revolução?”).
Esta inacção expectante não é leninista e não a partilho para ser sucinto, é algo messiânica e tem, julgo, um ponto alto de argumentação nos Spectres de Marx de Derrida. O erro é aqui o de valorizar demasiadamente o começo do Manifesto de Marx e Engels (a referência ao “espectro”), levá-lo para um terreno shakespeariano (uma das paixões de Marx) e suspender o processo revolucionário numa expectativa messiânica que me faz recordar a última tese da Filosofia da História de Walter Benjamim, que assim nos define o messianismo: “o futuro não é um tempo homogéneo e vazio para os judeus. É um tempo em que cada segundo é uma porta estreita onde em cada segundo pode passar o Messias”. Digamos, continuando a especular, que a justiça derridiana “mais além do que o presente” não interessaria Lenine, que actuou NO MOMENTO DECISIVO (como Cartier-Bresson definia a fotografia).
Apaesar de tudo isto que certamente nos separa, caro Miguel, creio poder encontrar pelo menos três tópicos que nos aproximam de todo: 1. A emancipação corresponde a uma necessidade de superação do capitalismo; 2. É necessário perceber o que levou Makhno a ser primeiro aliado, depois inimigo dos bolcheviques; 3. Creio (e tu me dirás da tua parte) que não é no quadro parlamentar que nenhuma destas conquistas inéditas (Badiou) pode ser alcançada. E a pergunta agora pode ser esta: que faremos com estes três pontos, caro Miguel, eu que defendo Lenine (e também Mao) e tu que não esqueces Cronstadt??
Voltaria a um diagnóstico de Alain Badiou: o século XX não é o do colapso da “hipótese comunista” (e Makhno era um “comunista libertário”, não?), o século XX é o século do colapso do partido. Mas a ideia ou necessidade de emancipação comunista está intacta, completamente!
Escrevi no meu livro sobre Alain Badiou:
“Se a emancipação já não se consubstancia ao modo das lutas operárias do século XIX, nem no partido centralizado do século XX, como será essa ‘nova’ emancipação cada vez mais espelhada numa política sem partidos ? Ao se falar em organização sem partidos outra pergunta se desprende: o que é uma organização política, uma vez que ela é necessária? Seja qual for a resposta, ela passará pela presença de uma força subjectiva afastada do Estado. Logo, a política pode refundar-se por meio de movimentos que se articulam e existem duplamente distantes: distantes de qualquer poder e do Estado, propondo uma espacialidade e temporalidade descondicionada. Enfim, persiga-se a substituição da política impaciente dos partidos pela política paciente dos movimentos“.
O movimento seria este novo espaço descondicionado de produção de acontecimentos, partindo e colocando-se no início longe do Estado. Ora, não foi isso que aconteceu com a Longa Marcha de Mao e, hoje, com o zapatismo? Com uma grande diferença: Mao partiu do exterior do Estado para o conquistar, os zapatistas vivem no exterior do Estado porque lhe são indiferentes. Caro Miguel, algum destes exemplos te poderá servir de ponto de reflexão ou partida para qualquer processo de emancipação?
Um abraço amigo, CV.




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Mas, caso não saibam, o “camarada” Lenine foi enviado para a Rússia (donde tinha sido expulso, como se sabe, pelo Czar por razões políticas), em plena I guerra mundial – Rússia que então era inimiga da Alemanha – num comboio especial montado para o efeito pelo próprio Estado Maior alemão. Ora nessa altura eram dois países que estavam em guerra com conquistas de território em jogo, não eram dois regimes, para a Alemanha não interessava se Rússia era czarista ou comunista (interessava era que obviamente fosse o mais frágil possível), ou se tinha o regime A ou B.
Portanto, lamento muito, mas eu, que não sou de esquerda ou direita ( mas abomino e enoja-me particularmente os traidores e ladrões, de partidos de “direita” ou “esquerda”) faço aqui a pergunta para pró-leninistas como CVidal e MSPereira e é terrivelmente simples e directa: Lenine, camarada, ou, traidor?
“a política impaciente dos partidos”?
chamar impaciente ao reformismo institucionalizado dos partidos que conhecemos inquina a discussão desde o inicio. Estamos portanto no reino do imaginário.
Obviamente é preciso colaborar activamente numa solução radical de destruição do modelo capitalista (quais são os actuais partidos parlamentares que o propôem?), ao mesmo tempo que os produtores se organizam numa outra forma de auto-produção e controlo. Não se inventa nada, são as Comissões de Fábrica – só que, no caso português estamos numa sociedade maioritariamente de serviços, não de produção. Como o Kilas o Mau da Fita, qualquer um sonha com uma empresa de import-export (e dá cá o royaltie)
A táctica pós moderna de “todos ao molho e fé…” numa espécie de jazz libertino não nos aparece como obra capaz de destruir as estruturas do poder. E voltar para trás é impossível.
Lenine advogou que seria preferivel trabalhar em prol da derrota da Rússia na guerra imperialista e isso parece-me perfeitamente actual numa perspectiva de análise dentro do materialismo histórico.
Assim sendo, regressemos pelo menos a Marx, façamos uma análise das classes sociais em presença – para se concluir, agora globalmente, que a maior parte do proletariado está… na China. Se bem aprendemos as lições antigas o actual paradigma de produção acabará quando as classes dominantes passarem à História por constituírem um estorvo para o desenvolvimento da maioria dos trabalhadores. Será a época para sermos de novo envolvidos na propaganda nacionalista de defesa do Ocidente. E ainda há por aí quem queira mudar o nosso hino!
caro Carlos Fernandes,
Permita-me um reparo rápido:
uma verdade súbita quando irrompe, tomada da Bastilha, revolução em Outubro, não é susceptível de discussão, porque é/foi assazmente irreprimível e inevitável: uma verdade é o que acontece deste modo. Logo, neste contexto, Lenine é, considerando a sua questão, um “camarada”, claro.
Quanto ao Miguel Serras Pereira, leia o que ele escreveu – repare que estamos em planos diferentas na abordagem deste assunto ou tema.
Como é que o acontecimento se reconcilia com o partido ou ‘movimento’? Não é o acontecimento, ontológica e epistemologicamente, estranho a qualquer movimento social ou político que o preceda?
Pingback: Porque defendo Lenine e porque defendo Mao: uma resposta a Miguel Serras Pereira :: w a z z u p
Somos todos opositores do Capitalismo, nisso acho que estamos de acordo. Por isso talvez ajudasse à discussão tentar perceber qual é a essência do sistema Capitalista, de modo a construir um caminho em oposição. Na minha opinião o sistema Capitalista, tal como muitos outros, tem como objectivo concentrar Poder. Se analisarem em paralelo as diferentes ideologias habitualmente classificadas de Direita, do neo-liberalismo ao fascismo, encontram um claro (talvez até único) elemento comum: a noção de que o Poder deve estar distribuído de modo desigual, consoante o “mérito” – resulte ele da destreza no mercado, da quantidade de Capital acumulado, da ascendência, da raça, da côr da pele, da religião, ou da capacidade de tricotar
A Direita abomina a igualdade (de acesso ao Poder). A Esquerda, nós, em oposição, somos (acho) da opinião que todo o ser humano é igualmente “válido”, e portanto igualmente “merecedor” (de Poder, mais prosaicamente, de poder pensar, dizer, fazer). Temos assim um objectivo comum: uma sociedade igualitária, o socialismo, o comunismo. No que diferimos é no modo de o atingir. Em particular, o que me parece que divide o Carlos Vidal do Miguel Serras Pereira é a “velha” questão: é preciso tomar o Poder para o então redistribuir, ou podemos antes obter essa redistribuição pela subversão do Poder, minando os seus fundamentos? A experiência do séc. XX parece-me que nos ensina que uma vez o Poder tomado, ele nunca é redistribuído. O facto de assim ter acontecido, em situações por vezes muito distintas, de modo sistemático, sugere que tal processo de redistribuição do Poder não é viável. Portanto, para mim a questão a responder é: como subverter o Poder de modo eficiente? Acho que tal não se consegue pela recusa do exercício do Poder, apesar de ser um modo de resistência legítimo. Mas o impacto que tem nos detentores do Poder é limitado, pois podem recorrer a modos de coerção de brutalidade crescente para obrigar a ceder aqueles que resistem desse modo. Mas, se não devemos procurar exercer o Poder, nem recusá-lo, o que fazer? Eu diria que a via estreita à nossa frente é exigir, utilizando para tal todos os meios à nossa disposição (incluindo a via “parlamentar”), a mudança dos mecanismos de exercício do Poder, em particular, do Poder de decisão política, ou de Estado. O controlo do Estado é a chave, o princípio desbloquador, para a redistribuição do Poder económico-social, e nisso estou de acordo com o Carlos Vidal (se bem o interpretei), mas esse controlo tem desde o início de ser exercido pela via Democrática, de acordo com a vontade da maioria dos cidadãos, expressa em liberdade, e não por uma auto-intitulada vanguarda (por definição minoritária no conjunto dos cidadãos), e nisto estou de acordo com o Miguel Serras Pereira.
Oh, Prof. Carlos Vidal, para quê tanto protagonismo maoista da Terceira Vaga, estilo Zizèck e Badiou, com a reverência hegeliana a Derrida e contornando W. Benjamin…Afinal, o alfobre teórico do ” Cinco Dias ” não é uma miragem nem apêndice para tentativas de conquistar o poder mediático inter-bloguítico…Estou radiante, pois. Só que Castoriadis cedo e sempre se demarcou dos émulos de Marx-Engels-Lénine-Trotski e Mao: a partir da cisão de Maio de 1958, pois, portanto, dez anos antes da Revolta Estudantil, obrigando Lefort, Lyotard e Cia a fundarem outros agrupamentos e paróquias. No entanto, a reconversão filosófica e política de Alain Badiou- com a falhada aproximação a Deleuze…-abona a tese : o M-Leninismo-Maoismo é um cádaver-adiado-que-procria e desencanta(ou encanta…)os ” filósofos assalariados” (J.Ferrari), que nos aconselhava lesto e profundo:” Para fundar um governo que possa regular todos os movimentos do coração e do pensamento, é preciso um poder enorme “.Uma pequena nota ainda sobre a Revolução Rusa, periodo 1917/23. Castoriadis repetidamente assinala que se trata de um periodo muito denso,irregular e obscuro, onde toda a gente tem perdido o pé. Niet/Durruti
Há muita gente que afirma que as “análises” quando apresentadas em linguagem altamente rebuscada escondem apenas a falta de criatividade de seus autores. Não quero ser indelicado mas lembrei-me disto ao ler, com alguma paciência, este post de CV.
“…a criação de instituições as quais, interiorizadas pelos indivíduos…”
Será que já passou pela cabeça do sr professor que eu e muitos outros e outras muito giras não queremos interiorizar instituições. o homem sofre de anacronismo agudo. eu gostaria de pedir aos senhores que olhassem à Vossa volta. Não é preciso ler o chato do Cornelius. LOL
Caro nf,
se me permite a intromissão: a questão que menciona é infinitamente mais interessante do as diatribes destes senhores e senhoras. o que se invoca aqui não é o princípio, o argumento, mas o “evento.” como se a interpretação do evento fosse coisa fácil. como se um evento, qualquer evento, fosse apenas e somente a materialização de uma ideologia. como se um evento pudesse ser monopolizado por uma interpretação e falar em nome de uma causa. como se um evento pudesse ser apenas 1 UMA causa. ou, pior, como se o evento pudesse ser matematicamente representado!! (os comunas não abandonaram a pretensão cognitiva do cientismo religioso. procuraram novas certezas na matemática, transpondo e projectando, sub-repticiamente, o valor de uma coisa noutra…transposição metafórica, é o que é. do piorio.) o simplismo destas elaborações parece-me preocupante, além de desonesto. revela uma certa miopia.
além disso, aplicar o conceito de “acontecimento” desta forma, como se as fronteiras do vivido fossem claramente delineáveis, parece-me coisa de malta desesperada. alías, um dos maiores problemas de “inscrição de sentido” é precisamente determinar o começo do acontecimento…e se o acontecimento não tem um começo, um principiozinho que lhe proporcione conforto??? e se o acontecimento for um gigantesco infinito de interrogações e contra-interrogações, de perguntas mal feitas, respostas idiotas…e tudo o resto?? repare: o conceito de “acontecimento” estabelece Fronteiras. Divide. Um absurdo, não acha? O 11 de Setembro, por exemplo? Onde começa o acontecimento?? Onde é que está a fronteira do acontecimento? (tem que ter fronteira, sem ela, o acontecimento deixa de ser acontecimento…e passa a ser história!! num outro sentido, claro)
mas, caro nf, é muito melhor falar do acontecimento que supostamente já materializou, deu forma, (???) a doutrina do que de algo que nunca aconteceu. há que vitalizar a coisa, mesmo com a mais vil das mentiras. a utopia é possível. acredite que sim. Deus é grande e o Benfica ainda vai ser campeão. assim. coisas desse tipo. é assim que se mantêm as ilusões perigosas.
boas tardes a todos-as
Embora, ache bastante pertinentes estas discussões idiológicas na blogosfera, ou noutro lugar qualquer. Acho chegado o tempo de ouvir, intervir,discutir tudo isto, de uma forma mais simples,com as Massas e que faça renascer a vontade de Aprender aprender sempre… mas sempre dialéticamente lutando por uma sociedade sem Oprimidos e sem Opressores
Gostaria também,de deixara ideia de uma leitura que me parece intrssante. Um texto de Lénine, que vem hoje postado no blog “AI PORTUGAL” com o título (O que fazer para aprender o comunismo(4) )
“Alain Badiou chama de “acontecimento”, ou seja, a irrupção efémera, indecidível e imprevisível (sublinhe-se imprevisível, o que quer dizer “coisa desprogramada”) de algo inédito e inacessível ao conhecimento. Este movimento irreprimível institui uma “verdade” que expõe a injustiça da situação “estável” anterior.”
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algo inacessível ao conhecimento, uma tabula rasa este acontecimento …mas…depois..surge a verdade libertadora que é instituída pelo tal movimento irreprimível. a síntese perfeita do momento de clarividência com o momento de revolução. um choque. um trauma. uma ruptura completamente fictícia. o movimento irreprimível não se forma num contexto a-histórico. além disso, as revoluções ou os acontecimentos revolucionários nunca são interpretados por aqueles e aquelas que nelas participam como momentos destituídos inteligibilidade. logo, não são assim tão indecifráveis ou inacessíveis ao conhecimento. existem muitas formas de imprevisibilidade que ocorrem no domínio do conhecimento. existe imprevisibilidade no conhecimento. Badiou não convence, meu caro.
Por agora, apenas um pequeno comentário à oposição ou aparente estranheza entre movimento e acontecimento, respondendo a nf (18:07).
Não é forçoso que assim suceda, apesar de teoricamente fazer sentido (porque o acontecimento é indiscernível, incontrolável, indecidível, não-localizável ou incognoscível e, acima de tudo, de desfecho imprevisível).
Alain Badiou, de quem vem esta tese da relação possível movimento-acontecimento, costuma admitir que o movimento pode gerar acontecimentos (o que não dirá do partido): costuma ainda apontar como exemplo de um movimento-acontecimento o MST do Brasil, os Sem Terra.
Contudo, não sei como lidar com as hipóteses, ou como Badiou o faria, com as hipóteses partidárias do momento em Portugal, onde há cerca de 19% de eleitores que se interessam por estas questões (BE+PCP/PEV). Interessante número. Terá consequências??
Meu caro Carlos Vidal, como sabes o debate que desencadeaste em boa hora vai muito longo e tem muitos interlocutores. Assim, lamentando não poder responder a todas as questões uma por uma, acabo de enviar um comentário para o 5dias, no qual demasiado resumida e parcialmente, mas sei que compreenderás, tenho em conta as tuas objecções fundamentais. Teremos decerto mais ocasiões de conversar, e só espero que não tardem. Abraço cordial e atento
msp
Post-scriptum: a questão do NF parece-me muito útil, não achas? Eu responderia que um movimento visando a (auto-) instituição da cidadania governante deverá justamente não ter um organigrama da sociedade autónoma, lembrar que as formas novas terão de ser criadas na luta, que as leis e instituições que actualizarão o exercício, conquistado ruptura após ruptura, do poder político (económico incluído, já se sabe) pelos cidadãos terão de ser obra destes últimos. A organização da autonomia é o oposto da organização científica e tendencialmente exaustiva da vida social por especialistas da política e da administração…
( mas há um evento…a constatação pelo mundo fora que democracia representativa também não presta por aí além . lembrei-me até do “Estado Predador” a propósito do divino estado social , divinal para quem toma posse dele . se calhar , se calhando , convinha pensar em formas viáveis de dispensar intermediários comprovadamente abusadores e corruptos e acima da lei – pelo menos por cá e tenho ideia que é geral , exceptuando algum ou outro país nórdico -, digo eu )
Santo Deus, glória ao Pai, Nosso Senhor… de que buraco saiu o Sr, presumo que Doutor devidamente doutorado, Carlos Vidal?
Mas tem razão numa coisa, a única, alias onde faz ciência, porque o resto é história anotada, a designação “esquerda democrática” é mesmo uma solução muito estúpida encontrada pelos de má consciência que popolulam pelo PS.
Faz-me lembrar a “asfixia democrática” do PSD. Se é democrática tem de ser outra coisa que não asfixia, e se é asfixia não pode, obviamente, ser democrática, porque, como é evidente e, poupando explicações menos chãs, se se quiser aceitar esta solução como boa, então, o que Manuela Ferreira Leita andou a dizer ao país é que Sócrates transformou Portugal num verdadeiro paraíso. Alimentou tanto, mas tanto, a democracia que o povo anda asfixiado de tanta liberdade, solidariedade, verdade etc. etc.
Mas a “esquerda democrática” é ainda pior E nem é preciso explicar, basta seguir a mesma lógica da asfixia democrática, mas tendo em conta que em causa está muito mais que um certo incómodo intestinal.
Rita
Frase generalista 1: filósofos franceses da geração, em sentido alargado, de Badiou que desenvolveram uma teoria do acontecimento são mais que muitos.
Frase generalista 2: todos eles pensam o conceito do acontecimento como uma figura de certa forma paradoxa, que está ao mesmo tempo ‘dentro’ e ‘fora’ do tempo que passa. Aí, de forma diferente, o conceito de evento aparece como algo de absolutamente novo e contingente, inédito e não antecipável.
Ora de acordo com esta descrição, que é, admito, genérica e superficial, o acontecimento opõe-se de forma inequívoca a processos programáticos. Por outro lado, definem-se modos de ser do acontecimento, por exemplo a arte ou a política, sendo estas formas (ontológicas e/ou epistemológicas) de instanciação do evento. Isto só para dizer: percebo que a política seja uma forma de actualização do acontecimento (por exemplo, política como revolução), mas sinceramente não percebo como o partido ou o movimento, como formas organizacionais e programáticas, o possam ser. Em Badiou, que infelizmente não li a fundo, é o movimento que despoleta o acontecimento? O que garante esse quase acesso a algo de que é absolutamente inédito?
Na vossa cx de comentários devem dizer : Escreva um comentário, se for tão bom/boa, inteligente, e culto/ culta como nós.
Eu entrava no site e com semelhante aviso, não tugia nem mugia.
Isto porque ontem enviei um comentário, que não apareceu, em que eu dizia que deviam usar a experiência portuguesa do que se passou em 1974/75 como elemento de estudo. É verdade que durou pouco, mas então porquê? porque é que fracassou tão rapidamente?
Já agora, porque é que ainda usam a expressão “massas” ? Não somos todos feitos da mesma “massa” ? É para criar um efeito de distanciamento entre as elites e as tais massas que as elites vão finalmente conduzir à verdade ? Que medo !
AS massas já não são o que eram. AS pessoas têm muito mais instrução e tentam ( é verdade, conheço alguns casos) pensar pela sua cabeça.
só uma questão ao interessantíssimo texto do Carlos.
o Badiou quando apresenta as suas teses sobre a hipótese comunista precisa, a meu ver, de responder a duas coisas que se prendem com a natureza da sociedade capitalista.
diz ele: We need to re-install the communist hypothesis—the proposition that the subordination of labour to the dominant class is not inevitable—within the ideological sphere. (cit da NLR…
precisa de clarificar o que é a classe dominante e o que é o trabalho, sob pena de o seu gigante não ser mais do que um moinho de vento.
por exemplo, grande parte da proposta de Negri é uma nova definição de trabalho e a da teoria do valor que possa justamente substituir o arcano marxista. mas em Badiou ela não existe, e visto que este rejeita a lógica da multidão (Negri e Hardt) ficamos um bocado pernetas nesta questão de saber o que é a que a hipótese comunista nos termos em que deve ser colocada hoje em dia – parafraseando Badiou, uma hipótese comunista para o século XXI – visa exactamente superar, visto que os termos desta superação não são, pela sua própria condição histórica, os mesmos que os postulados pelo marxismo tradicional.
mais do que política – que tem a rodos – Badiou precisa é de ser complementado com uma economia política (um Das Kapital para os tempos dos Gatos Fedorentos – verdadeiro paradoxo da revolução)
Arqueologia politica. Teses de mestrado? Boa sorte.
Já agora, aproveito para responder a Miguel Serras Pereira. Cingindo-me à palavra ‘autonomia’ e à distinção, proposta por Carlos Vidal, entre uma matriz libertária e uma partidária, eu diria que a minha reserva, manifestada em comentários anteriores, se concentra no ‘nomos’ e não no ‘auto’. Acho que o pensamento autonomista, entendido em sentido lato, resolve de forma hábil e consistente a questão da produção e construção de um sujeito político em termos da auto-produção ou auto-construção desse mesmo sujeito (não a sua instituição). Não estou tão certo relativamente à formação de um nomos que implica «um movimento visando a (auto-) instituição da cidadania governante deverá justamente não ter um organigrama da sociedade autónoma, lembrar que as formas novas terão de ser criadas na luta, que as leis e instituições que actualizarão o exercício, conquistado ruptura após ruptura, do poder político (económico incluído, já se sabe) pelos cidadãos terão de ser obra destes últimos. A organização da autonomia é o oposto da organização científica e tendencialmente exaustiva da vida social por especialistas da política e da administração…» Esta parece-me ser a apresentação de um nomos completamente anómico. A construção, produção ou criação faz-se construindo, produzindo ou criando. É um processo imanente. Quanto à instituição de normas, leis, convenções, não estou tão certo.
Cara Natália Santos,
Um comentário que corresponde à sua descrição foi visto e publicado ontem às 23h47 no post “Cidadania Governante” (um post abaixo deste, sempre a descer, a seguir à fotografia de Jerusalém, não tem nada que enganar). Nós somos bons, inteligentes e cultos, mas não adivinhamos onde quer comentar!
Caro Paulo Quintela,
Nem arqueologia política, nem tese de mestrado.
Apenas um breve improviso, esta carta a um amigo político.
Morgada :
Pois foi.Perdi-me. Sorry
Cara Natália Santos. Nenhum problema com o seu lapso, até porque rapidamente posso esclarecê-la (é o meu ponto de partida, atente):
- não foi o PREC que deu ou iria dar cabo de Portugal,
foi antes Portugal (ou melhor, Soares e CIA) quem deu cabo do PREC.
E fico-me por aqui.
não percebo como é que “o acontecimento, ontológica e epistemologicamente,( é ) estranho a qualquer movimento social ou político que o preceda( ?); isto no meu parco entender, aponta para algo que não tem qualquer relação com o mundo; o acontecimento surge-me assim como uma espécie de “não mundo” sendo o mundo tudo o que antes se viveu e o que se está vivendo.
Segundo percebo o comentário do Miguel Serras Pereira ele terá enviado ao 5 dias um texto autorizando a usa publicação.
Se assim foi, só posso dizer que agradeço a sua publicitação … (para além de parabenizar o Carlos Vidal pela probovocação do debate).
Caríssimo Vidal!
Uma vez mais, apenas me cabe dizer, correctíssimo. E assim, torna-se difícil, quase impossível, discordar de si, gostaria mas, como é o caso, não consigo (não posso).
Sem dúvida que foi Portugal quem deu cabo do PREC, aquele PREC não estava desenhado para tais andanças e foi suficiente um pequeno risco, a carvão, para fazer ruir a ideia.
Quanto ao debate em si, (interessante e enriquecido por muitos comentários) o antagonismo é tão profundo, tão denso, sendo os espaços comuns tão meramente aparentes que não compreendo a insistência dos “campos comuns de acção” ou dos 19%…
Os repetidos enunciados acerca do “capitalismo” são ininteligíveis, um arremesso contra uma não ideia e este não pode, nunca, ser terreno comum. Se há Povo, pelo que se lê, só lhe falta o território (tragédia e sangue – sacrifício e martírio).
não sei ao certo, mas acho que o ezequiel, com o seu comentário acima, acabou de inscrever o seu nome no grande panteão da filosofia.