Depois do u de Sumatra, o n de fina

Enormes problemas ocupam o meu espírito, ao lado dos quais a formação do próximo Governo é de uma risível pequenez. Reposta a ordem ortográfica nas Índias Orientais, é tempo de atacar outra magna questão: a da grafia das águas na hodierna sociedade portuguesa. Esclarecimento prévio: eu sou um furioso consumidor de águas de picos (a ponto de acreditar que serão elas, e não o w. que lá vai dentro, que hão-de levar-me à perdição, car le pire ennemi du marin, ce n’est pas l’alcool, mais la vague écumante qui emporte tout sur son passage); excessivo, como em tantas outras coisas, hélas!, consumo-as nas variantes da bolha grossa e da bolha fina (perlée, em francês piroso), a primeira para fazer xarope de w., a segunda, no day after, para tratar dos malefícios que aquele possa ter causado. Ora sucede que, entre as águas portuguesas, existe uma das melhores bolhas grossas do mundo, a nossa Castello, que é tão boa ou melhor do que a tão cantada Perrier, mas nenhuma bolha fina de jeito, capaz de ombrear com a clássica Vichy, a grande Badoit ou mesmo a mezzo-gorda San Pellegrino (a Água das Pedras, magnífica, pertence a outro campeonato, que é o das águas enxofradas). Assim sendo, recebi com júbilo a notícia de que a Água do Castello, ao lado da garrafa vermelha, de bolha grossa, tinha criado uma nova versão, de rótulo azul e bolha fina. Fui experimentá-la: era porreira – mas, oh, horror, no rótulo a dita água surge designada como “finna”, assim mesmo, com dois énes! O amigo do povo que há em mim, que é inimigo por inerência de todas as consoantes dobradas, revoltou-se logo – mas como a água é porreirinha, eis-me perante um cruel dilema: cedo nos princípios e emborco a água, ou recuso a traição de classe e apanho uma seca? As águas têm tanto que se lhes diga!

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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15 respostas a Depois do u de Sumatra, o n de fina

  1. ezequiel diz:

    Caro António

    isto até vai parecer mal. são elogios a mais. mas tou-me a cagar.

    chorei de rir com isto. os brits nunca detiveram o monopólio da ironia. e esta é do melhor que há!! Very Eça-like.

    “Enormes problemas ocupam o meu espírito, ao lado dos quais a formação do próximo Governo é de uma risível pequenez. Reposta a ordem ortográfica nas Índias Orientais, é tempo de atacar outra magna questão: a da grafia das águas na hodierna sociedade portuguesa.”

    🙂 🙂 congrats.

  2. ezequiel diz:

    António,

    eu sei que n é mt o teu género mas Timo is Timo.

    Check this out. nesta página 2/3 near the bottom.

    Clika no Timo Maas Live @ Dissonanze 2009.

    it seems cheesy. but it is not. its quite good, really.

    good music for the masses!

    LOL
    http://samurai.fm/dissonanze2009/

    have a nice wk-end

  3. Manuel Resende diz:

    Entre os europeus, o topônimo foi primeiramente registrado no século XIII pelo explorador veneziano Marco_Polo no seu livro Il Milione.[4] Teria sua origem na palavra árabe samatrâ[2]. Documentos do período de expansão portuguesa na Ásia atestam as formas “Camatarra”,[5] “Samotra”[6] e “Çamatra”[7][8] (corrente no século XVI), até fixar-se na grafia atual “Samatra”. Os ingleses receberam o topônimo dos portugueses[2][9] e passaram a grafá-lo como Sumatra, tentando reproduzir a pronúncia portuguesa de “Samatra”.

    Atualmente a forma Samatra é mais usada em Portugal, enquanto que no Brasil é mais comum a grafia Sumatra.[10] O uso da forma “Sumatra” em português é controverso[9], considerado equivocado por alguns, que preferem a grafia tradicional “Samatra”.

    ou então:

    http://www.ciberduvidas.com/pelourinho.php?rid=264

  4. Dilema ético tramado, esse. Decida em consciência, mas nunca diga “dessa água não beberei”.

  5. fernando antolin diz:

    E água de Melgaço, já experimentou ?? Bolha fina e bicarbonatada cálcica.

  6. xatoo diz:

    conversa da treta a precisar de um bom arroto e de um espanador de elitismos

  7. António Figueira diz:

    xô, melga

  8. António Luis diz:

    Meu caro António,
    Eu só espero que a água das pedras te ajude a digerir os pastéis de Belém

  9. António Figueira diz:

    Pastéis de Belém, moussaka de Atenas… ele é só indigestões!

  10. JMG diz:

    Gostei muito do post mas, por razões puramente interesseiras, declaro alguma insatisfação por a água sem gás, “lisa”, “still”, “plate”, ter sido ignorada: o meu clube é sempre objecto de descaso. E todavia há uns quantos milhares de Portugueses como eu que não vêm equivalente à Fastio, à Água da Penha, à Caramulo; e que sofrem horrores no estrangeiro por a Evian saber a esgoto e se verem reduzidos à água da torneira. E sobre a insatisfação temos ainda a dúvida, Amigo Figueira: seremos patrioteiros? Dê aqui uma ajuda.

  11. António Figueira diz:

    Amigo JMG,
    Patrioteiros nada: a Luso e a Fastio são grandes águas de mesa, em qualquer parte do mundo. Fora do rectângulo, prefiro, entre as lisas, a Vittel e a Spa (a Spa Reine); mas eu sou suspeito, porque vivi uns anos para esses lados, acredito que haja melhor.
    Cumps, AF

  12. Eu dou-me bem com a Volvic.

  13. SM diz:

    e uma letra… tanto que se lhe escreva!…

  14. Anophelix diz:

    E a água de Monchique, bebida ali mesmo, na fonte? É água lisa, fresca, boa, mata qualquer sede.

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