Vae Victis

A imagem dos vencidos transporta em si uma espécie de secreta ameaça à ordem das coisas. Eles estão lá para sinalizar o que podia ter sido, as encruzilhadas em que a história é fértil ou uma redenção possível mas não concretizada. São, como o célebre quadro de Klee sobre o qual escreveu Walter Benjamin, como que um Angelus Novus que continuamente se move em direcção ao futuro enquanto contempla um passado assolado por catástrofes e do qual restam apenas ruínas. Fazer falar essas vozes silenciadas, revelar as fotografias de rostos esquecidos ou relembrar simplesmente as existências que a Grande História não consagrou, é uma tarefa árdua e arriscada. Num conjunto de quatro ensaios publicados no site Passa Palavra, o historiador João Bernardo recuperou a memória dos revolucionários sacrificados no xadrez da ordem mundial. Mulheres e homens que viveram tempos sombrios e lutaram para esconjurar a catástrofe que adivinhavam eminente. Não sabemos, nunca saberemos, a dimensão do seu contributo para a derrota do nazismo. Enredados num labirinto do qual parecia não haver saída e porque se recusaram simplesmente a adaptar-se aos imperativos categóricos da real politik, os seus destinos confundiram-se com os da revolução pela qual se bateram e que em todo o lado foi derrotada. Deles resta, pois, a memória de uma revolta que se relembra com melancolia.

“Fora assim que o governo francês tratara os que haviam lutado de armas na mão em defesa da república espanhola e que, perante o avanço final das tropas de Franco, procuraram refúgio do outro lado dos Pirenéus. Arthur Koestler encontrou-os alguns meses depois, no campo de concentração de Le Vernet, no sul da França, onde estavam confinados, e narrou o seu destino numa obra ímpar. «[…] o Pavilhão 32 era o verdadeiro inferno. A escuridão era completa e o cheiro nauseabundo. Nenhum dos que lá vivia tinha uma muda de roupa ou meias suplementares, e muitos haviam literalmente vendido a última camisa em troca de um maço de cigarros, e andavam nus sob um casaco fino e esfarrapado. O pavilhão estava infestado de parasitas e de doenças. Fora das horas de trabalho, os seus reclusos prestavam pequenos serviços aos demais prisioneiros, lavando-lhes a roupa a troco de algumas fatias de pão, remendando sapatos, limpando botas. Não recebiam cartas, nem as escreviam. Vagueavam pelo campo de concentração, procurando pontas de cigarro na lama e no chão de cimento das latrinas, onde era mais fácil encontrá-las. Mesmo os mais miseráveis dos outros pavilhões os olhavam com um misto de horror e de desalento. Estes cento e cinquenta homens que povoavam a chamada Caserna dos Leprosos eram o que restava das Brigadas Internacionais − que constituíram outrora o orgulho do movimento revolucionário europeu, a vanguarda da esquerda. […]

Por detrás da apreciação fria dos dados e dos documentos havia imagens bem mais poderosas, e mesmo que as não evocassem gritavam-lhes dentro da cabeça, Max Ernst a cobrir uma parede com desenhos no campo de concentração de Le Vernet, os antifascistas polacos e lituanos a ser enviados para os campos de trabalho soviéticos, Walter Benjamin a morder a cápsula de cianeto que Koestler lhe dera, August Creutzburg a ser entregue pelos soviéticos aos nazis, as vidas de dezenas de milhares de judeus que alguns chefes de Estado fascistas e o próprio chefe dos SS estavam dispostos a vender aos Aliados e que estes não se interessaram em comprar. Deste tecido eram feitas as memórias profundas, tanto mais profundas quanto as pretendessem esquecer. As utopias não morreram no pós-guerra, foram deliberada e sabiamente assassinadas. O esgotamento ideológico da esquerda e da extrema-esquerda naquela época não se pode explicar se esquecermos o destino dessas centenas de milhares de náufragos. Depois, foi necessário reconstruir tudo de novo. Conta-se que em 1947 Victor Serge, quando se encontrou na Cidade do México com Natalia Sedova, a viúva de Trotsky, lhe disse: «Nós dois somos os últimos sobreviventes». E eram.”

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