Gestão e Economia de Silêncios (Honoris Causa)

cavaco

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2 respostas a Gestão e Economia de Silêncios (Honoris Causa)

  1. antónio diz:

    9:00

    (Comunicação entre o gabinete do Presidente e a sua secretária)

    Cavaco Silva: – Mande trazer-me o pequeno-almoço, por favor.

    Secretária: – Com certeza, senhor Presidente. O costume?

    Cavaco Silva: – Hmm… As duas torradas frias e sem manteiga e o copo de Água das Pedras com uma casca de limão, mas não a malga de Corn Flakes sem leite. A minha mulher convenceu-me a começar uma dieta. Parece que os cereais têm muita gordura.

    S: – Como entender, senhor Presidente. Deseja que traga também os jornais do dia?

    CS: – Deixe estar. Ponha-os de parte juntamente com os outros. Leio-os no Natal.

    S: – Muito bem, senhor Presidente. É tudo?

    CS: – Por agora, sim. Obrigado, Marques Mendes.

    S: – Como disse?

    CS: – Disse que era tudo. Obrigado.

    11:27

    (Chamada de Cavaco Silva para Fernando Lima, responsável pela assessoria para a comunicação social)

    Cavaco Silva: – Está? Fernando?

    Fernando Lima: – Senhor Presidente? Em que posso ser-lhe útil?

    CS: – Estou a ligar para falarmos daquele assunto.

    FL: – (…) Senhor Presidente, é melhor não o fazermos por telefone. É pouco seguro. Tínhamos combinado manter o contacto por email. O email é muito mais seguro. Ninguém consegue violar a segurança blindada de uma rede informática.

    CS: – Pois sim. Mas sabe que não me sinto muito à vontade com estas tecnologias modernas. Até as calculadoras me deixam apreensivo.

    FL: – Peço-lhe que faça um esforço, senhor Presidente. Se isto se soubesse, seria complicado. Ainda por cima, com as eleições tão próximas. Escreva-me para a minha morada de correio electrónico.

    CS: – Se tiver mesmo de ser. Muito bem. Até já.

    FL: – Fico a aguardar, senhor Presidente.

    11:29

    (idem)

    Cavaco Silva: – Fernando? Sou eu outra vez.

    Fernando Lima: – Há algum problema, senhor Presidente?

    CS: – Tenho uma dúvida a respeito da sua morada de correio electrónico.

    FL: – Queira dizer, senhor Presidente.

    CS: – Ainda mora em Campo de Ourique, não é?

    FL: – Senhor Presidente, a morada de correio electrónico é aquela que tem a arroba.

    CS: – (…)

    FL: – O A com rabinho.

    CS: – Ah, claro. Vou então enviar o email. Obrigado.

    FL: – Disponha sempre.

    11:35

    (Comunicação entre o gabinete do Presidente e a sua secretária)

    Secretária: – Sim, senhor Presidente?

    Cavaco Silva: – Ó Dias Loureiro, chame alguém da informática porque o meu computador está outra vez com problemas.

    S: – Que tipo de problemas?

    CS: – Estava a preparar-me para escrever um email e, de repente, o ecrã ficou cheio de peixes. Não sei de onde vieram.

    S: – Peixes?

    CS: – Sim. Peixes tropicais. Será grave?

    S: – Já tentou mover o rato?

    CS: – Também há um rato? O palácio está a precisar de uma desinfestação. Edifícios com uma certa idade, sabe?

    S: – Aquele pedaço de plástico ligado ao computador por cima do tapete de borracha com a cara do Mário Soares.

    CS: – Desapareceram. Cancele a chamada do técnico, mas aproveite para marcar a tal desinfestação, Durão Barroso. E diga ao Fernando Lima para passar por cá mais tarde.

    S: – Com certeza, senhor Presidente.

    14:21

    (Chamada de Maria Cavaco Silva)

    Cavaco Silva: – Está?

    Maria Cavaco Silva: – Aníbal?

    CS: – Ah. És tu.

    MCS: – Estou a pensar alcatifar a casa de banho. A decoradora diz-me que é má ideia porque a alcatifa não se dá bem com a água, mas eu pu-la na ordem. Achas que fica melhor alcatifa azul ou salmão? E quanto ao piaçaba? Não há maneira de contornar a proibição de importar marfim? O catálogo também traz uns de platina com rubis muito engraçados. Com cerdas de porco selvagem guatemalteco. Muito raro. E outra coisa…

    CS: – Está? Maria?… Não te ouço bem. Acho que estou a ficar sem rede.

    MCS: – Sem rede? Mas eu estou a ligar-te para o fixo. Ó Aníbal, que conversa é ess…

    16:42

    (Chamada do gabinete presidencial para Paulo Portas, com a ocultação de número activada)

    Paulo Portas: – Sim?

    Cavaco Silva: (com voz nasal) – Paulinho?

    PP: – Quem fala?

    CS: – Paulinhoooooooooooooooo?

    PP: – Está a falar com Paulo Portas, sim. O que deseja?

    CS: – Paulinhoooooooooooooooooooooooooo? Cu-cu.

    PP: – Não tenho tempo nem paciência para brincadeiras de mau gosto.

    CS: – Ai não? Cu-cu. Bilu bilu. O Paulinho não quer brincar? (risos)

    PP: – Ouça, eu sei muito bem quem fala. Se continuar com esta infantilidade, juro que mando apagá-lo de vez dos registos do partido. Espero que leve a ameaça a sério, Freitas!

    (fim abrupto da chamada)

    17:08

    (Telefonema do gabinete do primeiro-ministro para o gabinete presidencial)

    Cavaco Silva: – Está?

    José Sócrates: – Senhor Presidente, como tem passado?

    CS: – Quem fala?

    JS: – O primeiro-ministro.

    CS: – Que disparate. O primeiro-ministro sou eu.

    JS: – Não, senhor Presidente. O senhor Presidente é o Presidente da República.

    CS: – (…) Tem razão. Que posso fazer por si?

    JS: – Nada de mais. Estava só a ligar para saber se estava tudo bem.

    CS: – Há algum motivo para não estar?

    JS: – Claro que não. Um dois… experiência. Um dois… Sssom… Sssom…

    CS: – Como?

    JS: – Não é nada. Estava a pensar alto. Sendo assim, não lhe tomo mais tempo. Ah. Já agora. Vou jantar com a Fernanda amanhã e não me posso esquecer de lhe levar um ramo de flores.

    CS: – Porque me está a dizer isso a mim?

    JS: – É para me lembrar quando ler a transcrição. Boa tarde, senhor Presidente.

    CS: – Boa tarde.

    17:21

    (Chamada de Cavaco Silva para o atendedor automático de Fernando Lima)

    CS: – Olá, Fernando. Sou eu outra vez. Temos de falar com urgência acerca daquele assunto que referi. Ando com um pressentimento de que me andam a espiar. Pode não ter fundamento, mas acho que devíamos debater a possibilidade. Ligue-me logo que possa.

    (Última gravação do dia)

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