Dos dezanove por cento de votos na esquerda radical ou uma belíssima fissura no sagrado princípio da propriedade privada
28 de Setembro de 2009 por Zé NevesA esquerda radical – é tempo de aceitarmos o epíteto sem prurido? – alcançou um resultado muito interessante, confirmando a possibilidade de interrompermos os mecanismos do inevitável, que reduzem a política a um simples acto de gestão do que já existe. Trata-se de uma lição. Há dez anos atrás, ninguém acharia este resultado possível, mas foi. E foi porque existiram homens e mulheres que lutaram por um conjunto de princípios por eles tidos como elementares – princípios afirmados independentemente de supostas impossibilidades derivadas de condições ditas objectivas e dependentemente de possibilidades resultantes das suas vontades subjectivas - que acabámos por chegar a este ponto de situação. Em proporção muito diferente, é certo, BE e PCP cresceram. Há uns anos atrás, cinco, dez, quinze anos, alguém aqui arriscaria, porventura, que uma força à esquerda do PS, e dissociada do PCP, pudesse chegar aos 10% de votos? E alguém igualmente arriscaria que o PCP manteria e até subiria a sua votação? Talvez. Mas nunca ninguém pensaria que acontecessem ambas as coisas, todos achávamos que uma coisa seria feita à custa da outra. O facto de não ter sido assim é o elemento mais enigmático que o presente cenário político-eleitoral oferece a todos os militantes, activistas e eleitores que votaram à esquerda do PS, ou, até, a muitos dos que votaram no próprio PS. Cabe-nos não desaproveitar este “sinal dos deuses”, o que nos deverá levar muito além do próprio âmbito partidário e institucional. É claro que os 19% da esquerda radical não retiram efeito mediático ao resultado do CDS. E os significados da subida do partido de Paulo Portas não devem ser minimamente menosprezados - aliás, é pena que houvesse gente que se lembrasse do fantasma salazarista a propósito de um tgv e não a respeito do culto do trabalho e da ordem feito por Portas. Mas, notem bem, qualquer anticomunista que se preze, a si, aos seus e aos seus bens, estará seguramente mais preocupado com os nossos 19% da esquerda radical do que estará aliviado com os 10,5% do CDS de Paulo Portas. A votação de BE e PCP vem alargar os campos do possível de modo inusitado; deverá, por isso mesmo, colocar de sobreaviso todos os que classificaram as propostas da esquerda radical como sintoma de loucura, irracionalidade, extremismo. Há 19% de pessoas que votaram em partidos que, de acordo com a maioria dos comentadores e especialistas, querem desprivatizar tudo e mais alguma coisa. E mesmo que não seja verdade que esses partidos tenham planos de tal ordem, o facto de se neles se ter votado diz-nos muito acerca dos limites desse respeito supostamente natural que a espécie humana nutriria pelo princípio sagrado da propriedade privada. Enfim, o anticomunismo primário de tantos e tantas comentadores conseguiu criar este monstro que é a esquerda radical. O monstro seguramente agradece e, nos próximos anos, tudo faremos para ajudá-lo a engrandecer-se na sua disformidade. O velho comunismo, o novo esquerdismo, a democracia económica, se não os encontramos matematicamente programados nas verdades proclamadas pelos partidos que a eles são associados, seguramente se reanimam com as mentiras com que os seus adversários pretenderam caluniar tais partidos. Destruidores de pátrias, ateístas empedernidos, adeptos da preguiça, redistribuidores obsessivos, inimigos da concertação, peões da luta de classes – saibamos estar à altura destas calúnias, aceitando-as se não com orgulho, palavra de que não gostamos, pelo menos com um sorriso nos lábios.

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