Democracia e Livre Iniciativa?? (Conversando com Miguel Serras Pereira)
27 de Setembro de 2009 por Carlos Vidal
Bom, em 1996 – que ainda parece há pouco tempo caramba – era eu mais novo, imaturo e ignorante (oh, como agora provavelmente, um pouco tosco quero dizer). No entanto, por essa altura, publiquei o meu primeiro livro (Democracia e Livre Iniciativa: Política, Arte e Estética, na Fenda do nosso amigo Vasco Santos), de que reproduzo orgulhosamente a capa (que pretendi então um “manifesto”). O livro foi apresentado no Solar do Vinho do Porto, por cá, pelo meu amigo António Cerveira Pinto e pelo Miguel Serras Pereira. Claro que me lembrei disto, pelo post em baixo (excepcional e a reler) do Zé Neves, que trancreve uma mensagem do mesmo Serras Pereira, intelectual por quem sempre tive enorme consideração. No texto do Miguel Serras Pereira sobre o meu livro, a dado momento, surgia uma série de perguntas interessantíssimas sobre a capa:
A inspirada capa do livro de Carlos Vidal, concebida por João Bicker a partir do título do autor e de uma fotografia de Acácia Maria Thiele, documenta bem o corpo-a-corpo do sentido que a luta democrática não pode deixar de ser em carne viva. Lemos “democracia e livre iniciativa” e vemos uma mulher jovem com o cano de uma pistola prestes a disparar metido na boca. O que quer isto dizer? Que a democracia e livre iniciativa tendem a não poder ser outra coisa que não o suicídio, enquanto última recusa ou única afirmação vital? Que a democracia e livre iniciativa, na sua versão oficial, matam quem as tome à letra, através de uma espécie de duplo vínculo inescapável? Que a mesma significação imaginária dos dois termos não só não tem alternativa como assassina o sentido que livre iniciativa e democracia nos prometem se ousarmos ler essas palavras um pouco menos tempestivamente? Que seria melhor apontar a pistola para outro lado ou dizer as coisas de outra maneira para não errarmos o tiro? Que mais ainda? [Sublinhado meu]
Depois, o Miguel reproduziu o texto no seu livro Poema em Branco (Fim de Século, 1999). E agora que recordei a prosa do Miguel Serras Pereira e felicito o Zé Neves por tê-lo trazido ao nosso convívio, acrescento que gostei bastante de ler aqui o texto de MSP sobre o seu voto no BE; mas uma coisa me intrigou, digamos, e essa mesma coisa ou questão gostaria eu, se possível, caro Miguel, de ver desenvolvida e detalhada. Algures, dizes que o PCP é irrecuperável e que qualquer projecto de vida autónoma tem de o remover do seu caminho, embora antes chames às gentes do PCP “companheiros de jornada”. Caríssimo, podes detalhar melhor um comentário em torno destes pontos (aqui ou noutro lugar)? Atento e agradecido desde já (como sempre).

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