Democracia e Livre Iniciativa?? (Conversando com Miguel Serras Pereira)

Demo

Bom, em 1996 — que ainda parece há pouco tempo caramba — era eu mais novo, imaturo e ignorante (oh, como agora provavelmente, um pouco tosco quero dizer). No entanto, por essa altura, publiquei o meu primeiro livro (Democracia e Livre Iniciativa: Política, Arte e Estética, na Fenda do nosso amigo Vasco Santos), de que reproduzo orgulhosamente a capa (que pretendi então um “manifesto”). O livro foi apresentado no Solar do Vinho do Porto, por cá, pelo meu amigo António Cerveira Pinto e pelo Miguel Serras Pereira. Claro que me lembrei disto, pelo post em baixo (excepcional e a reler) do Zé Neves, que trancreve uma mensagem do mesmo Serras Pereira, intelectual por quem sempre tive enorme consideração. No texto do Miguel Serras Pereira sobre o meu livro, a dado momento, surgia uma série de perguntas interessantíssimas sobre a capa:

A inspirada capa do livro de Carlos Vidal, concebida por João Bicker a partir do título do autor e de uma fotografia de Acácia Maria Thiele, documenta bem o corpo-a-corpo do sentido que a luta democrática não pode deixar de ser em carne viva. Lemos “democracia e livre iniciativa” e vemos uma mulher jovem com o cano de uma pistola prestes a disparar metido na boca. O que quer isto dizer? Que a democracia e livre iniciativa tendem a não poder ser outra coisa que não o suicídio, enquanto última recusa ou única afirmação vital? Que a democracia e livre iniciativa, na sua versão oficial, matam quem as tome à letra, através de uma espécie de duplo vínculo inescapável? Que a mesma significação imaginária dos dois termos não só não tem alternativa como assassina o sentido que livre iniciativa e democracia nos prometem se ousarmos ler essas palavras um pouco menos tempestivamente? Que seria melhor apontar a pistola para outro lado ou dizer as coisas de outra maneira para não errarmos o tiro? Que mais ainda? [Sublinhado meu]

Depois, o Miguel reproduziu o texto no seu livro Poema em Branco (Fim de Século, 1999). E agora que recordei a prosa do Miguel Serras Pereira e felicito o Zé Neves por tê-lo trazido ao nosso convívio, acrescento que gostei bastante de ler aqui o texto de MSP sobre o seu voto no BE; mas uma coisa me intrigou, digamos, e essa mesma coisa ou questão gostaria eu, se possível, caro Miguel, de ver desenvolvida e detalhada. Algures, dizes que o PCP é irrecuperável e que qualquer projecto de vida autónoma tem de o remover do seu caminho, embora antes chames às gentes do PCP “companheiros de jornada”. Caríssimo, podes detalhar melhor um comentário em torno destes pontos (aqui ou noutro lugar)? Atento e agradecido desde já (como sempre).

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12 respostas a Democracia e Livre Iniciativa?? (Conversando com Miguel Serras Pereira)

  1. Pisca diz:

    Carlos
    Essa coisa do “irrecuperável/moribundo/conservador/fim adiado” é um peditório mais que gasto, mas mesmo assim sucessivamente repetido.

    Só me espanta, se é que alguma coisa ainda me consegue espantar, como é possível algumas mentes intelectualmente interessantes, acabar por escorregar para a chinela, será cansaço, busca da forma mais fácil de agradar, ou o quê ?

    Enfim andam entretidos nos seus castelos de ideias

  2. Ironia diz:

    Bom livro, este.
    Gostei e recomendo a leitura (desta vez não estou a ser irónica).
    Há alguns pontos de vista que diferem dos meus. Mas gostei.
    Alguém ainda acreditará em mim?

  3. Carlos Fernandes diz:

    Caro Carlos Vidal, muita sugestiva a capa ( o conteúdo não conheço, embora o tema me interesse, e muito), donde só pela capa me parece valer a pena comprá-lo, nem que seja para oferecer a um inimigo, LOL. Mas à hora a que estou a escrever isto parece-me que a mulher da capa do seu livro simboliza um pouco o povo português (uma zé povinha ?)e o seu masoquismo… Sendo certo que o MAIOR partido é o da ABSTENÇÂO!

  4. grande amor hein ! É obra, sim senhor e quanto aos bonecos, melhor o da página 15.

  5. Ironia diz:

    Alminha ‘mori,

    Te quiero muchissímo.
    Eu gosto muito é de Grandes Almas, venero Quadrilheiras, Alcoviteiras, Lavadeiras da “Lama fria da Ribeira que o Sol aqueceu, lá,lá,lá,lá….” (daquelas que sabem mais da minha vida do que eu própria…).
    Daquelas que investem o tempo a cheirar traseiros, a ver qual cheira pior (mas o olfacto… ai, o olfacto… tem muito que se lhe diga de tanto cheirar…)
    Quando penso em si, lembro-me sempre da sua horta e de Paul MacCarthy.
    Não se esqueça de estrumar a horta para ingerir vitaminas (enquanto do lado de cá eu lhe dou uma forcinha, cantando com voz doce, mas entusiasta): “Contra o escorbuto, Marchar, Marchar”
    Ah, e o Grande Jecta também me faz lembrar aquelas trevas incessantemente a puxar o pessoal para baixo, vá de retro, O Santo Anger que o ature!:
    “Amazing Chain Reaction – The Way Things Go” no you tube

    Desejo-lhe rápidas melhoras olfactivas ” ‘morzinho da minha ialma”

  6. isto do método socrático do Aristóteles por vias do despeito da glosa, cheira-me a castelo do queijo e ou muralha Fernandina, Oié…

  7. Ironia diz:

    Ó ‘morzinho, Ó venerada Alminha,

    Tanto que fareja e não acerta “duas para a caixa”. Ou é como os provadores de vinho que em vez de se limitarem a cheirar o vinho, bebem também, perdendo os empregos enquanto enólogos.
    A Alminha, deslumbrante, deve andar a fazer o mesmo… cheira traseiros e não resiste a provar o conteúdo…
    Não admira que não consiga “olfactar”.
    Consulte um otorrinolaringologista com urgência (duvido que resulte, mas a esperança é sempre a última a morrer…)
    Cara ialma, chega a fazer Dó, Muito Dó!!!
    Não há uma que acerte!

    Então os seus pides, (agora é SIS, não é?), não lhe estão a dar informações correctas.
    Frequentei o Castelo do Queijo até aos seis sete anos de idade, depois tive um ano no Cais do Sodré, de seguida andei por várias cidades e localidades.
    Agora frequento mais Monsanto (Aliás, a estas horas já lá devia estar…).

    Aprenda : A, E, I, O, U. (Ó ‘mori cresça, veja se consegue ser um homenzinho… Estrume, estrume a Horta… tome complexos vitamínicos, não desista de ser gente…)

    Alminha (Oh,Oh)

    Com os melhores cumprimentos, à distância.

  8. novas e excitantes vibrações na democracia parlamentar, muito bem, já não era sem tempo.

  9. Ah! quase esquecia.

    Acabaram-se os bolicaos !

    Não há condições…

    A resistência armada fica suspensa até que seja possível ‘recuperar’ uma loja da telepizza com os respectivos stocks e pessoal especializado na iarte.

  10. Niet diz:

    Dezenas horas apòs a reeleição de José Sócrates, mais um lanço no patamar de escravo do Capital e da Sociedade do Espectáculo índigenas… , o repto lançado por Carlos Vidal- será o mesmo das Edições Vendaval de Sintra?-a José Neves agudiza a oportunidade crucial de fazer avançar o Desejo e a Revolução Infinitesimal em Portugal. Se como dizia Blanqui- ” não há piores carcereiros como os ideólogos “-urge retomar a irrefragável teoria sobre os Conselhos Operários, anti-burocrática e anti-leninista, preconizada por Cornelius Castoriadis ao longo dos seus escritos. Miguel Serras Pereira- com quem polemizei no dealbar dos anos 80 sobre a importância capital da sua teoria: C. Castoriadis -tem sido, contra ventos e marés, o porta-voz desse ” magma” excepcional de teoria/prática revolucionária em Portugal. Da sua lavra de tradutor de alta qualidade sairam já em edição, salvo erro, três volumes dos vinte e tais do fundador de ” Socialisme ou Barbarie “. Posto isto, convém sublinhar que Castoriadis assaca ao Comunismo o label de doutrina racionalista e idealista sem retorno, que Karl Marx não foi capaz de subtrair na apologética infinita e maravilhosa de Auguste Blanqui, inserta na ” Luta de Classes em França “. Niet

  11. miguel serras pereira diz:

    Caro Carlos Vidal, desculpa o atraso na resposta e ver-me obrigado a responder-te à pressa (sinto-me também, não obrigado, mas livremente agradecido pelas palavras que me dedicas no teu post, ainda por cima sob o signo dessa nossa encruzilhada comum – na Fenda e com o Vasco Santos). O meu ponto é mais ou menos o seguinte: o projecto de autonomia passa politicamente pelo que chamo a cidadania governante – a abertura à participação igualitária de todos na definição das decisões pelas quais se governem. Um partido de vanguarda tipo m-l, pelo seu lado, dá-se como consciência histórica superior dos interesses dos trabalhadores, detentor da sua (deles) verdade histórica, organizador científico da sociedade, e é gerido por funcionários da revolução ou políticos profissionais, etc., o que reproduz a divisão do trabalho político característica do aparelho de Estado. Acresce que as experiências (ditas por antífrase) do “socialismo real” despojaram os trabalhadores dos direitos políticos mais elementares, e oscilaram conforme as ocasiões entre o arregimentamento forçado e a privatização/despolitização da existência do conjunto da população, ao mesmo tempo que mantinham e reforçavam a seu modo a separação entre os produtores e os meios de produção e exorcizavam a democracia no trabalho e na gestão da economia tão radicalmente como o Partido e o Estado no que se refere às restantes esferas da vida social. Este processo conheceu o seu auge na época de Estaline (e de Mao, na China), mas começou antes – a insurreição de Cronstadt e o combate de Makhno, a polémica de Rosa Luxemburgo com os bolcheviques, a denúncia precoce da degenerescência da Revolução Russa que encontramos em numerosos membros de delegações operárias que a visitaram, e os etcs. que seria fácil acrescentar provam-no à saciedade. Assim, sendo que as organizações que lutam contra a economia política dominante e a divisão hierárquica do trabalho político, tendo em vista a cidadania governante (que implica a superação da dicotomia entre governantes e governados e o contrário da política como função profissional ou prerrogativa burocrática), só podem fazê-lo convincente e eficazmente prefigurando no seu interior, desde o primeiro momento, os princípios da autonomia, é para mim evidente que, como organização partidária que actualiza uma forma de organização da sociedade nos antípodas da igualdade e da liberdade que a cidadania governante pressupõe, o PCP e a sua lógica se situam nos antípodas do que entendo pelo projecto de autonomia. Esperando que este esboço de resposta possa ser ensejo para que o debate avance – pois só com cidadãos que ousem pensar por conta e risco próprios a liberdade colectiva é possível -, daqui te envio as minhas saudações cordiais e sempre atentas
    msp

  12. Uma combinação da Escola social
    E Judia produz este gálico raro
    Que se arranja no Pindo e que se cura em Faro.
    nova remessa de bolicaos.

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