Do Miguel Serras Pereira e acerca das próximas eleições

Em resposta à minha declaração de voto, feita ali atrás, o Miguel Serras Pereira deu-se ao trabalho de escrever este pequeno texto-comentário. Ao contrário do meu apelo ao voto, o texto do MSP tem muita coisa para debatermos. Depois das eleições, voltarei aqui. “Caro Zé Neves, tenho lido com todo o interesse as tuas reflexões pré-eleitorais, que têm, entre outros, o mérito de relativizar o alcance da intervenção no correspondente jogo (intervenção recomendável, todavia, pois quem quer o mais, quer o menos, e dizer que votar – em branco, se se quiser – nas eleições não vale a pena deixa-nos numa posição desconfortável para pedir mais ocasiões de deliberação e decisão política à margem dos aparelhos e contra a actual divisão do trabalho político). Mas para não me alargar demasiado direi aqui que te acompanharei votando no BE, por razões que ora são solidárias das tuas, ora nem tanto, deixando-te e aos outros a tarefa de julgar onde nos aproximamos e onde nos afastamos. Votarei no BE porque este é o partido que, apesar de tudo, [é] mais aberto a perspectivas de alargamento da cidadania activa, e o horizonte da minha perspectiva política é o governo igualitário e regular dos cidadãos pelos cidadãos – ou, se quiseres, a cidadania governante contra o poder de Estado e o poder político por ele enquadrado que se exerce através e a coberto da esfera económica “despolitizada”. Votaria no BE com mais convicção se este em vez de insistir tanto na conquista por dirigentes de lugares dirigentes na cena política estabelecida, insistisse na transformação dos modos e lugares de exercício do poder, apresentando a possibilidade de ter deputados na Assembleia da República como um passo não para virmos a ter Francisco Louçã (ou qualquer outro militante do BE) no lugar de primeiro-ministro, mas para avançarmos na construção de uma democracia que dispensasse esse cargo; não para virmos a ter o BE no governo, mas para transformarmos o modo de ser e a lógica hierárquica do governo; não para termos outras medidas políticas, mas outra maneira de fazer política. É, de resto, por isso que, admitindo embora a possibilidade e a necessidade de o grosso dos militantes e companheiros de jornada do PCP virem a integrar as fileiras do combate pela cidadania governante, penso que o PCP enquanto tal é, não só irrecuperável, como continua portador de um projecto de sociedade e tipo de regime que qualquer projecto de autonomia terá de remover do seu caminho. Do mesmo modo, é porque no BE – e apesar dos lugares mais ou menos cimeiros que possam ocupar – o contingente de “revolucionários profissionais”, que pretendem deter a consciência, a verdade histórica e o direito à direcção dos trabalhadores (disciplinando por via policial e militar em sendo caso disso as “ilusões” e “erros” da sua mão-de-obra), me parece, ao contrário do que pensa o Miguel Vale de Almeida, tender a esbater-se, que – tendo também em vista tornar mais instável a hegemonia da cena política e o próprio regime, pondo a democratização das instituições na ordem do dia – darei ao Bloco o meu voto, estando disposto a apoiar muitas das lutas que trava. Haveria por certo muito mais reservas a pôr ao programa do BE, não só no plano das cedências práticas que tem feito à política profissional (a democracia e a classe política, bem como a distinção permanente e estrutural entre governantes e governados, são incompatíveis), mas também no das medidas concretas propostas (e, entre outras coisas, no que se refere à política internacional). Só que, para comentário, este já vai longe. Aceita pois editar este meu apelo ao voto no BE, baseado embora em considerandos que por vezes divergem dos teus, mas que remetem para o que penso serem aspectos nucleares à conquista dessa condição necessária da autonomia a que chamo a cidadania governante. Um abraço, miguel serras pereira”

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 respostas a Do Miguel Serras Pereira e acerca das próximas eleições

  1. tenório diz:

    E deve acreditar no Rato Mickey,apesar do embrulho filosófico de trazer nos pés.Fico a saber que ando a alucinar quando vejo policia nas greves dos trabalhadores e qdo não os vejo a foder os jardins gonçalves e restantes muchachos amigos do presidente da chiquita banana…|!Arre!

  2. m diz:

    nem sei como comentar. dava tudo para viver na sociedade que o Miguel sonha. mas o be não é nada disso , é o partido da academia , dos académicos que querem mandar e experimentar e por à prova as suas teorias. no fundo , a sociedade , não passa , para eles , de um imenso laboratório e nós de umas variáveis a manipular. passo . não é com o be que se chega ao que o Miguel quer.

  3. Duarte diz:

    É confortante ler uma opinião como a do Miguel pela sobriedade com que expõe ideias tão espezinhadas e marginalizadas pelos preconceitos oficiais, sem que nunca sejam sequer objecto de discussão ou ponderação de forma digna – ideias que não fazem parte das “bússolas eleitorais”, nem podem entrar em discussões sobre se é melhor haver mais Estado ou menos Estado aqui ou ali sem que sejam ridicularizadas e absolutamente desconsideradas. Não se trata, por isso, de chegar “ao que o Miguel quer” através do BE, trata-se de assumir que poder chegar a esse “lugar”, que me parece uma ambição que tenho em comum com o Miguel, pelo que ele expõe, não implica estar parado e deixar de poder utilizar “estrategicamente” as parcas possibilidades que vão surgindo, sejam elas institucionais – mantendo destas sempre uma distância saudável, mas não uma incomunicabilidade total – ou aquelas à margem do Estado e das vias “oficiais” de acção política. Votar não implica um compromisso, um pacto, nem é uma promessa que nos prende, mas pode muito bem, em casos pontuais, ter um impacto que longe de ter que ser vinculativo pode ser minimamente significativo. Também defendi sempre que o BE devia ser um partido suicida, isto é, um partido que luta contra aquilo que vai justificando a sua existência e as suas lutas, um partido a caminhar na direcção da sua gradual dissolução na sociedade e a associar-se cada vez mais a novas formas de intervenção política que vão surgindo e ganhando relevância. Parece-me que as cedências que vai fazendo são sinal de uma derrota do seu potencial inicial, criativo, aberto e, por isso, subversivo, tornando-se esta forma de intervir cada vez mais incongruente com a postura que assume, para não dizer lesiva e por isso cada vez mais condenada à dissociação do partido. Seja como for, subscrevo o que o Miguel aponta como razões para nestas eleições votar BE e espero que nele saibam reconhecer que nem todos os votos que recebem significam a mesma coisa.

  4. Pingback: cinco dias » Democracia e Livre Iniciativa?? (Conversando com Miguel Serras Pereira)

  5. m diz:

    o comentário do Duarte é bom e podia fazer mossa em quem não soubesse que anarquistas foram dizimados por comunistas e franquistas. mas eu sei. eu sei que deram cabo , esquerda e direita estatistas , de experiências e vivências mesmo bem sucedidas. e não perdoo. partidos? governos? só tótós alucinados que não percebem que deveres estão primeiro e que toda a gente tem um dom.

  6. Pingback: cinco dias » Que Fazer?

  7. Pingback: cinco dias » Cidadania governante

Os comentários estão fechados.