Apelos ao voto lgbt

Em mais um apelo ao voto em Sócrates, o Miguel Vale de Almeida apresenta, como principal razão, a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não será novidade que o faça, mas vale a pena sublinhar que, até hoje, o MVA não havia afirmado com tanta clareza ser este o principal motivo para o vermos a apelar ao voto no PS. E a clarificação é importante porque o MVA volta a não esconder as suas críticas à governação do PS em outras questões, que, aliás, não considera serem menos relevantes, como a questão laboral ou a questão do ensino. Mas, aceitemos debater o apelo do MVA no terreno que ele coloca. Aceito-o, e digo-o desde já, porque não considero a questão laboral mais ou menos importante do que as questões sexuais, ao contrário do que o MVA acaba agora por fazer e ao contrário do que fazem alguns dos críticos do MVA. Ora, o meu ponto é este: cingindo-me à agenda do movimento lgbt,  o apelo do MVA continua a não fazer sentido e parece-me destituído de bom-senso. É que se há coisa que não serve para diferenciar o PS dos partidos à sua esquerda, é justamente esta. Historicamente (isto é, há uns meses) foi o PS que votou contra o casamento homossexual, mas amanhã, se PS, PCP e BE tiverem a maioria de votos no parlamento, o casamento homossexual será aprovado. A menos, claro está, que o PS recue, o que não seria inédito em questões como estas. A mim, parece-me claro que  todos os deputados do PCP e do BE votarão a favor do casamento homossexual, até porque já o fizeram num passado recente. Pode o MVA garantir o mesmo em relação ao PS? Não haverá liberdade de voto na bancada do PS? E, havendo, será que todos os deputados do PS votarão a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo? Mais ainda: quantos votos do PS, além do seu, é que o MVApode garantir para a aprovação da possibilidade de adopção? Ou isto fica para a próxima década, porque há que estabelecer prioridades? É que esta lógica das prioridades é a mesma que levou a que, durante anos e anos, se disesse que a questão do casamento homossexual não era assim tão premente.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 respostas a Apelos ao voto lgbt

  1. asinus diz:

    O apoio de MVA ao PS(ócrates) pouco tem a ver com as suas posições de esquerda. Não é por acaso que o neoliberalismo convive bem (penso mesmo com Haug que é um dos seus traços distintivos) com os direitos lgbt. Num modo de produção capitalista altamente tecnológico o disciplinar da força de trabalho é menos importante do que no capitalismo fordista. “Dimensões da vida humana” antes normalizadas e “no colectivo asseguradas (Trabalho, Consumo, Reprodução) são transferidas para a responsabilidade de cada um. A “libertação e desregulação neoliberal dos mercados”, apoiada pelo Estado, podem apostar na liberdade sexual, no consumo e na forma de vida” (HAUG 1998, 87, 89).

  2. renegade diz:

    a parentalidade não consta do programa do PS. o papel do MVA aí será provavelmente de pedagogia, como ele diz.

    para lá da questão da igualdade, para mim, o mais interessante será ver como vai ele articular a sua “social-democracia radical” com as políticas de direita do PS, evidentemente anti-social-democratas. Ganhámos um novo Alegre? Ou vai fazer de conta que não é nada com ele e aceitar a disciplina de voto? Por mim arriscava dizer que há ali potencial de criação de fricções/rupturas, tanto nas questões LGBT como nas outras.
    Dito isto, e porque o casamento está ganho, há que votar à esquerda do PS, como é óbvio.

  3. viana diz:

    “Mais ainda: quantos votos do PS, além do seu, é que o MVA pode garantir para a aprovação da possibilidade de adopção?”

    Mais. Na próxima legislatura é provável que apareçam pelo menos 2 projectos de lei com o objectivo de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, um do BE e outro do PS. Se assim se passar, tenho a certeza que enquanto o projecto do BE irá contemplar a possibilidade de adopção por tais casais, o mesmo não irá acontecer com o projecto do PS. Para não correr o risco do projecto do BE ter mais votos que o seu, é muito provável que o PS imponha disciplina de voto aos seus deputados, exigindo que pelo menos se abstenham quando o projecto do BE fôr a votação. Suponho que é assim que Miguel Vale de Almeida acha que efectivamente se defendem os direitos dos casais LGBT….

  4. Carmo diz:

    A liberdade de voto, bem como o “voto secreto”, é uma metáfora que alimenta a demagogia democrática e os “indecisos”, também aqui, podem ter uma palavra a dizer. Todos sabemos que a troca de influências, de favores (ou o que lhes quisermos chamar) são o prato quente das negociações parlamentares. E normalmente a sobremesa é servida com uma cereja cristalizada…

  5. Zé Neves diz:

    viana, em relação à parentalidade, convém não esquecer que o programa do PCP também é (creio, não estou seguro) omisso.

    renegade, eu também acho que existe potencial de ruptura. e, já o escrevi, acho que o mva se arrependerá desta sua opção. mas, olha, no meio de tudo isto, não perdi um pingo de respeito por ele. e quando ouço malta a defender que o que interessa são os trabalhadores, quase que compreendo a decisão que ele tomou. quase, é claro.

  6. «Será que todos os deputados do PS votarão a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo?»

    Duvido que a Rosário Carneiro e a Teresa Venda o façam. Basta olhar para o historial dessas deputadas «socialistas»…

  7. ezequiel diz:

    muito perspicaz, Zé. muito mt perspicaz, este post.

    abraço,
    z

Os comentários estão fechados.