Comentaristas sobre a crimideia*

Ontem mais umas quantas delícias dos comentaristas políticos da SICN. Clara Ferreira Alves, imbuída do seu mais elevado espírito socrático, atacava PCP/BE dizendo que já ninguém acreditava que voltássemos ao PREC e à nacionalização da banca. Nuno Rogeiro circunscrevia, dizendo que o BE já não defendia a nacionalização de “toda a banca” mas da “banca comercial” o que representava, em sua opinião, um avanço e uma aproximação ao establishment.
Sem tempo para mirar algo mais que os seus umbigos, ninguém se recordou que os prejuízos do BPN foram, há bem pouco, nacionalizados e que o BE não defende a nacionalização da banca comercial. Esta medida é defendida pelo PCP.

* Orwell, claro.

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5 respostas a Comentaristas sobre a crimideia*

  1. Nuno Rogeiro diz:

    A Base 7 do Programa Eleitoral do Bloco de Esquerda diz o seguinte:

    “A banca, os seguros e todo o sector financeiro são decisivos para a actividade económica, para o crédito e para a vida das pessoas, e por isso devem ser públicos, ou estar sob o controlo de políticas públicas”.

    Daí à minha afirmação, sustentada, de que o BE defende a nacionalização de parte da banca comercial (discordando, por exemplo, do processo seguido no BPN, o que também consta do programa)

    I rest my case

    NR

  2. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caro NR seja no debate com Jerónimo seja com Sócrates, Louçã afirmou claramente que o BE não defendia a nacionalização da banca comercial (ao contrário do que propõe o PCP), princípio que em nada invalida o excerto do programa que cita.
    Propor a nacionalização da banca ou de outros sectores fundamentais da economia, é uma opção política que deve ser publicamente discutida numa altura de eleições e não envolta na novilíngua como uma crimidea, como ontem se fez na SICN.

  3. Nuno Rogeiro diz:

    Está no programa, que devia ser lido, dado que é, presumivelmente, vinculativo. E o PCP não propõe apenas a nacionalização da banca comercial, mas de todas as instituições de crédito (Base 3 do programa).
    De qualquer forma, a linguagem do programa do BE é suficientemente ambígua, dado que se fala de “sector público” (nacionalização) e “políticas públicas” (que pode indiciar mera conformação de práticas privadas por estratégias regulamentares, etc).
    Conclusão: um partido “trotsquista” – e era essa a minha objecção – que sai claramente da nacionalização integral, que abandona o discurso da sociedade sem classes em nome das novas elites, que aceita as instituições de defesa, segurança e inbformações do “estado burguês”, é, como critica o PCP, essencialmente um “partido social democrata”…Que predará o PS, como veremos, muito provávelmente.
    Não vejo, sinceramente, o que é que o bom do George Orwell tem a ver com o assunto. Reservemo-lo para os sítios certos.
    A não ser, claro, que sim seja não, e vice-versa.

  4. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caro Nuno Rogeiro, vamos por partes:

    – Concordo quando refere que os programas dos partidos devem ser vinculativos, embora se os partidos que constituírem o próximo governo os chegarem a cumprir seria uma novidade.

    – Concordo quando refere que a linguagem do programa do BE é nalguns casos ambígua, designadamente na questão das nacionalizações. E por isso mesmo é que considero válido o posterior esclarecimento de Louçã, dizendo que o BE não é a favor da nacionalização da banca. Tomo-o como a posição política do BE sobre a matéria.

    – Discordo da caracterização do BE como um partido trotskista (e, confesso, com alguma pena), em primeiro lugar, porque sempre tive dúvidas em encontrar uma unidade na acção entre partidos ditos trotskistas e em segundo lugar porque penso que a prática, metodologia, implantação, consciência de classe e propostas políticas do BE pouco ou nada têm a ver com a doutrina política produzida por Trotsky.

    – Sobre o PCP e a defesa da nacionalização da banca comercial pode ver este artigo na página do PCP (o que me parece uma fonte segura sobre o que o partido defende): http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=33527&Itemid=195

    – A referência ao Orwell é de extrema importância. Repare que cada vez mais a comunicação social tem vindo a produzir um comentário político comprometido. Não digo que todos os que opinam tenham militância activa, mas escrevo que todos os que opinam circulam pelas águas políticas do chamado “eixo da governabilidade” – até porque curiosamente (ou não) numa altura em que o Bloco ganha influência eleitoral, perde em representação nos media de grande difusão.
    A desvalorização das propostas do PCP sempre foram feitas, sem direito a contraditório ou, até, a análise. Veja os termos e modos como Clara Ferreira Alves se refere à questão das nacionalizações. E isso é crimideia, ou seja, não discutir em planos iguais todas as propostas políticas que estão em cima da mesa.

  5. NR diz:

    Peço desculpa, mas não tenho tempo para esmiúçar o Orwell: nem o do Animal Farm, nem o do Last man on Earth, aka 1984, nem nos mais importantes – para mim – Politics and English Language, Second Thoughts on James Burnham,Notes on Nationalism, Why I write e The Prevention of Litterature.
    Voltando à vaca fria, que se resolve mais depressa:
    O BE, como referi, defende hoje a nacionalização parcial da banca comercial, enquanto que o PCP defende a nacionalização total do crédito: banca comercial e de investimentos, instituições de aforro, seguradoras e sociedades de gestão de fundos de aplicação de capital, etc.
    O mesmo resulta dos programas dos dois partidos, e de todas as declarações públicas dos líderes.
    O BE é formado, na sua grande maioria, por militantes da Quarta Internacional, nas suas vertentes Trostsquista clássica, Lambertista, Pablista, Trotsquista-Gramsciana, Hoxista, etc.
    Que ainda o sejam , hoje, é outra questão. That is the question.
    NR

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