A selva

A destruição de um acampamento situado em Calais, onde se refugiavam imigrantes do Médio-Oriente e da Àsia Central em trânsito para a Grã-Bretanha, é mais um triste episódio que vem revelar o cinismo dos discursos piedosos acerca da exportação da democracia e da legitimidade da presença militar da NATO no Afeganistão.

O campo, apelidado de «Selva»,  foi erguido na sequência do encerramento de um centro de acolhimento gerido pela Cruz Vermelha. Tendo ordenado esse encerramento em 2002,  por servir de «chamariz» a imigrantes ilegais, o governo francês, através do seu ministro do Interior, veio agora justificar-se com o argumento de que não se trata de um campo humanitário, mas de um feudo de traficantes.  A lógica é cristalina – trata-se de dizer a pessoas que não têm para onde ir que não podem ficar onde estão, criminalizando na prática a sua existência.

A «selva» era aquilo a que se pode chamar um «não-lugar», igual a outros tantos acampamentos provisórios, erguidos clandestinamente por imigrantes clandestinos ao longo dos seus percursos  de êxodo, como podemos ver, por exemplo, no documentário «Bab Septa», de Pedro Pinho e Frederico Lobo, realizado em Marrocos e na Mauritânia.

Ao destrui-la, o governo francês (a pedido do governo britânico) procura fazer dos seus residentes não-pessoas, indesejáveis que se faz transitar de um lado para o outro sem que lhes seja reconhecido o direito a fixarem-se, mesmo que  momentaneamente e apenas para pensar qual será o seu próximo passo. Persegue-os como faria a animais selvagens, consciente de que a concentração traz consigo a comunicação e a cooperação, o que forçosamente produz uma comunidade e transporta consigo o risco de uma resistência.  Revela, por outro lado, a plasticidade do que se convencionou denominar «fronteiras» e que, mais do que uma linha divisória entre países, assume abertamente o carácter de um dispositivo repressivo que opera a toda a largura do território.

Quem tomou semelhante decisão não pretende, ao contrário do que afirma, estancar os movimentos migratórios e muito menos combater os intermediários que lucram com a sua proibição.

Não existe uma porta a fechar, de maneira a deixar de fora uma multidão de estangeiros amontoados às muralhas da cidade. Essa imagem, que estrutura a agenda conservadora e xenófoba das forças que governam a Europa, é tão falsa como os argumentos de que se serve o governo francês. A pretensão de transformar um continente numa fortaleza – ficção distópica que anima o debate político sobre a imigração – limitar-se-á a acumular cadáveres e tragédias, numa  guerra cujo fim ninguém descortina.

Como nos dizem Pinho e Lobo, não são os viajantes que atravessam as fronteiras, mas antes elas que se atravessam no seu caminho. «Outras selvas irão emergir», disse aos jornalistas do Times um jovem afegão de 16 anos.  Arrisca-se a ter razão durante tanto tempo quanto durar este cruel estado de coisas.  Não será seguramente a democracia de Karzai que o fará desistir.

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4 respostas a A selva

  1. Carlos Vidal diz:

    Vidas-nuas puras. A ideia de que o “campo” é o nosso espaço vai fazendo o seu caminho. O estado de excepção. Os nossos “líderes” encarregam-se de mostrar aquilo que são e onde estamos imersos, e que, ao votarmos neles, também é aquilo que nós somos: servos.

  2. Justiniano diz:

    Caro Ricardo!
    Um bom texto. Comiserioso, de certo modo.
    Eu entendo que a questão é mais complexa que a cidade e as suas muralhas. O peso da história é tremendo e, por vezes, insuportável, mesmo que 2000(9) anos depois. Tensão entre prudencia e justiça.
    Ao saber da imponderabilidade da vida humana e a infinita dignidade da pessoa levar-nos-ia a ver no outro um irmão, certamente que sim e assim é e assim será, mesmo que não pareça, (De outro modo não há esperança apenas barbárie) mas um irmão desafortunado e desventurado que assim se encontra condenado – (Um Pai envia um filho para a guerra…).
    A complacencia nem sempre é inocente.

    Caríssimo Vidal! Uma vez mais discordo…será mesmo o inverso, nós somos os senhores e os nossos líderes são os servos, por mais que lhe custe ou que não goste é mesmo assim a verdade.

  3. Carlos Vidal diz:

    caro Justiniano, nem pense nisso nem um pouco.
    E, apesar do meu sentido de voto, digo-lhe mesmo: nós não somos senhores de nada se tivermos de votar, ou quando temos de votar para redesenhar um pouco a sociedade. A experiência do “senhorio” à la Hegel verifica-se, efectiva-se, quando nos libertamos dessa obrigação – porque aí a liberdade e, porque não?, justiça de que desfrutamos fomos nós que a conquistámos sem o voto. Só a isso se chama justiça. A justiça eleitoral não é justiça. É a expressão de uma opinião (eventualmente maioritária).

  4. Justiniano diz:

    Caríssimo Vidal!
    O que é que o voto tem a ver com o que lhe disse!!?? A que propósito a justiça eleitoral!?
    Tem tudo a ver com a selva, com o lugar e com as suas gentes.
    Os líderes, ainda que usurpadores, espelham o Povo que lideram, sempre. Como espelho ou elemento de identidade (Por acção, omissão, complacência, temor…porque os povos têm estranhas formas de agir como demonstra a história) (Isto abstraindo dos determinismos hegelianos – detestável e assustador!!!)
    Vidal, ceio eu, que a ideia de liberdade, que referiu (hegeliana), transporta em si os limites imanentes à liberdade, sendo essa liberdade, como valor, um conceito valorado, instrumental, abominável e insuportável (a liberdade (absoluta) serve o bem e o mal e quando servir o mal, corrige-se com a penitencia e expiação da culpa).
    Isto, para dizer que o post do Ricardo se dirige ao Povo Francês, no caso, dono e Senhor da Selva e mandante do capataz!

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