A Crise do Voto Útil

O “voto útil” apela à transformação da política num simples procedimento eleitoral de apuramento de uma elite governativa, à qual caberá gerir convenientemente a população, menorizando o parlamento enquanto lugar de um conflito de ideias e propostas, que supostamente espelhará a diversidade de opiniões nessa mesma população. O eleitor idealizado pelo apelo ao “voto útil” é o eleitor hiper-racional, que escolhe o voto obedecendo a uma lógica contabilística, afim à que seguem boa parte das teses económicas dominantes, que idealizam o consumidor como um sujeito cuja racionalidade opera matematicamente. O problema desta lógica, note-se, não reside apenas no facto das teses que nela se apoiam se pretenderem verdadeiras, quando, pelo contrário, as subjectividades são bastante mais imprevisíveis do que aquelas teses podem julgar, imprevisibilidade a que os mais sensatos de nós simplesmente chamariam de humanidade. O problema do neoliberalismo não é tanto a sua invalidade científica, sempre discutível, mas o da efectividade da utopia hiper-racionalista a que aspira. E que inspira os apelos de Sócrates ao “voto útil”, pedindo aos eleitores que votem contra a sua própria cultura política. No próximo domingo, votarei no Bloco de Esquerda e, tivesse eu um segundo voto, entregá-lo-ia ao PCP. Mais não fosse, os votos à esquerda do PS têm ainda maior importância no actual contexto de crise mundial. Porque é importante dar força a quem sempre criticou as políticas neoliberais, mas, sobretudo, porque é importante dar força a quem excede a lógica hiper-racionalista que foi, ela mesma, abalada pela crise. Caminhemos alegremente para a tripolarização da vida partidária. Por um lado a direita, por outro lado o PS – e, por outro lado ainda, a esquerda.

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