Ciência Política

Reparem bem nos artigos escritos por Marina Costa Lobo. As categorias que utiliza foram construídas ao longo do seu percurso científico mas também do seu caminho político. Nada a fazer, acontece a todos. E, no entanto, Marina Costa Lobo e a maior parte dos cientistas políticos que dominam o espaço mediático em Portugal [corrigido após comentário ezequielano] julgam-se uma espécie à parte. Sempre que falam de política, acreditam (?) fazê-lo independentemente da sua politicidade e apenas a partir da sua cientificidade. Quando Marina Costa Lobo conclui que o BE é anti-europeísta porque votou contra os principais tratados da União Europeia, não vê o erro que comete: confina a ideia de União Europeia às políticas hoje vigentes na União Europeia. O mesmo é válido em relação à sua apreciação do PCP. Marina Costa Lobo diz igualmente que o partido é anti-europeísta. A classificação, neste caso, parece mais razoável, mesmo que seja discutível. Mas a conclusão que Marina Costa Lobo retira da classificação a que procede é seguramente tão equívoca como a análise a que submete o BE. À Marina Costa Lobo não passará pela cabeça que o antieuropeismo do PCP, reflectindo porventura uma dimensão nacionalista que tende a reduzir o mundo ao tamanho do país, reflecte igualmente uma dimensão internacionalista segundo a qual a Europa é uma unidade demasiado pequena. E isto, podendo ser contraditório, não é uma contradição que caiba ao cientista político resolver cientificamente. Não me surpreende, por isso, que o barómetro partidário que Costa Lobo recentemente construiu, em conjunto com outros colegas, dê no que dê. Aí é presumido que os partidos à esquerda do PS são menos cosmopolitas do que o PS porque serão partidos anti-europeístas (veja-se mais aqui). Ignora-se aqui, desde logo, que uma das críticas de PCP e BE à União Europeia tem que ver com a recusa de uma Europa-Fortaleza, fechada à imigração.

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24 respostas a Ciência Política

  1. Miguel diz:

    Será, então, legitimo concluir que BE e PCP são europeistas de uma Europa que não existe?

    miguel

  2. ezequiel diz:

    Miguel,

    Há apenas uma forma de Europeismo? E qual é a Europa que existe de facto, na tua modesta opinião?

  3. ezequiel diz:

    Zé,

    a Marina assume que a Europa é x e apenas x

    e tu assumes que a Ciência Política é uma entidade pensante e que, surpresa das surpresas, é x e apenas x.

    cometes o mesmo erro do que a Marina, portanto.

  4. ezequiel diz:

    Zé,

    a Marina assume que a Europa é x e apenas x..se não se acreditar no x monocromático..então um gajo é anti-x

    e tu assumes que a Ciência Política é uma entidade pensante e que, surpresa das surpresas, é x e apenas x.

    cometes o mesmo erro do que a Marina, portanto.

    se fosse a ti, ficava calado.:)

  5. nunocastro diz:

    o problema Zé, se me permites, é que o cosmopilitismo da Marina Costa Lobo e doutros como ela justapõe-se à europa económica. Por isso quando o BE rejeita coisas como as pilhagens do Banco Central Europeu e outras manigâncias da europa das elites económicas, a bússulo da Marina dá-lhe um menos no cosmopolitismo.

    ora bem, a confusão começa logo quando a definição de cosmopolita é tão discutível e aquilo que ela encerra é perfeitamente dicotómico.

    dizes tu bem que se entrassemos em linha de conta com a recusa da Europa fortaleza, por exemplo, ou, acrescento eu, por hipótese o nosso cosmopolitismo significasse um serviço de saúde universal europeu, então os resultados seriam diversos, penso eu de que.

    donde, já dizia o velho, velhissimo Weber, muito cuidado com a Wertrationalitat e a sua interferência nas categorias analíticas (com umlautung…

    no mundo das surveys prova-se tudo e o seu contrário.

  6. ordinário diz:

    É só cagança.quando um dos magnates lhe acenar com um monte de notas ela até diz q o Hitler era um granda democrata.Aliás,ainda ontem vi um ‘documentário’ sobre a conquista de Berlim pelos soviéticos e a quantidade de adjectivos dados a estes-sanguinários,violadores,matavam tudo e o horror dos apoiantes do Hitler que agora levavam com os familiares dos 26-27 milhões de mortos pelo Capital a qual o este estava ao serviço.Também eu sou anti europeu da politica Capitalista.Engraçado, a URSS era má pq congregava vários países,agora a CEE é boa pq ao serviço dos parasitas,etc…enfim,por mais que diga vêem logo os ‘cientistas’ de serviço com os seus 2 pesos,2 medidas.

  7. Zé Neves diz:

    ezequiel, como é que eu considero a ciência política como x e apenas x? Escrevi Marina Costa Lobo e a maioria dos cientistas políticos. Não a totalidade. Mas essa seria uma conversa mais demorada, tendes razão.

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    Zé, esta frase parece-me mais correcta:
    … não vê o erro que comete: confina a ideia de Europa às políticas hoje vigentes na União Europeia e não:

    “não vê o erro que comete: confina a ideia de União Europeia às políticas hoje vigentes na União Europeia”

  9. zé neves diz:

    tiago, não aceito a tua sugestão. só por isto: a posição do Be em relação à UE é diferente da posição do PCP. O BE tem uma propensão federalista que o PCP não tem. Historicamente, além do mais, o BE tem no seu seio – acho eu, mas posso estar enganado – quem tenha advogado a adesão à CEE. Julgo – mas repito, posso estar enganado – ter sido esse o caso do PSR em meados dos anos 80.

  10. Tiago Mota Saraiva diz:

    “propensão federalista” é uma boa expressão recorda-me “acordo coligatório”.

  11. Tiago Mota Saraiva diz:

    Reconheço que existe uma “propensão federalista”, da parte do BE que trata das questões europeias, embora com poucos reflexos nas políticas efectivas que o partido propõe para Portugal.
    De qualquer forma, parece-me injusto dizer que o BE defende uma União Europeia nos termos e moldes com que foi criada, por isso pretendia adoçar a expressão a uma ideia um pouco mais lata de escala continental.
    Mas tu é que sabes.

  12. ezequiel diz:

    beware of generalisations, Zé.

    they often are platitudes disguised as insight.
    ————-

    n me chateiem com o uso do Inglês, s.f.f.

    cumps,
    z

  13. ezequiel diz:

    maioria, Zé??

    já os contaste??

    fica bem

    cumprimentos,

    z

  14. ezequiel diz:

    A Marina deveria ter dito que a Europa é um conjunto de possibilidades imanentes! LOL 🙂

  15. Zé Neves diz:

    ezequiel, não contei. e deveria ter sido mais específico. quando digo que muitos cientistas políticos tendem a colocar-se numa posição de cientificidade e de apoliticidade, referia-me aos cientistas políticos em Portugal que marcam maior presença no espaço mediático. já corrigi no post. grato, por isso.
    fui
    * e o que é uma possibilidade não imanente?

  16. ezequiel diz:

    uma possibilidade não imanente: uma utopia.

    repara:

    utopia
    nome feminino1.

    1. projecto de governo que, a ser exequível, asseguraria a felicidade geral

    2. projecto imaginário, irreal

    (Do gr. oü, «não» +tópos, «lugar», pelo lat. Utopìa-, «utopia, lugar que não existe»)

    Dicionário Editora da Língua Portuguesa 2010 –

    repara no seguinte:

    na utopia a noção de possibilidade persiste APESAR de não ser imanente.

    mas, fair point, todas as possibilidades são imanentes. bem visto.
    obrigado,
    ezequiel

  17. ezequiel diz:

    uma possibilidade não imanente: uma utopia.

    repara:

    utopia
    nome feminino1.

    1. projecto de governo que, a ser exequível, asseguraria a felicidade geral

    2. projecto imaginário, irreal

    (Do gr. oü, «não» +tópos, «lugar», pelo lat. Utopìa-, «utopia, lugar que não existe»)

    Dicionário Editora da Língua Portuguesa 2010 –

    repara no seguinte:

    na utopia a noção de possibilidade persiste APESAR de não ser imanente.

    mas, fair point, todas as possibilidades são imanentes. bem visto.
    obrigado,
    ezequiel

    PS: no que diz respeirto à pretensa cientificidade e apoliticidade (palavra feia como o diabo) concordo inteiramente contigo. prefiro os termos “estudos políticos” ou filosofia política (por ex.), simplesmente.

  18. ezequiel diz:

    ah. pensa na globalização. a possibilidade pode n ser imanente no sentido estrito. pode não emanar do contexto que afecta. que tal? 😉

  19. Zé Neves diz:

    então estamos de acordo em relação a isto também?: uma utopia não é contraditória com a imanência na medida em que as ideias não são menos “reais” (materiais) do que a matéria?

  20. Zé Neves diz:

    sobre a globalização: mas ser imanente não significa que não se produzam – como dizia o outro – linhas de fuga.

  21. ezequiel diz:

    discussão infindável, caro Zé. as fronteiras do que é entendido como “imanente.”

    as ideias são menos reais, zé.

    as consequências ou efeitos das ideias é que são igualmente reais (vis a vis matéria) os efeitos das ideias não são as ideias, caro zé. picky picky…

    mas, confesso, estou a brincar aos filosofos.

    assunto interessante, o das fronteiras do x imanente.

    sobre a globalização: mas ser imanente não significa que não se produzam – como dizia o outro – linhas de fuga.

    sim, concordo, em parte. quando afirmas que x e y são possibilidades imanentes tens que discernir um CONTEXTO…a possibilidade que provém de um outro contexto, ainda não explicitado, não é, não pode ser, imanente. talvez esteja a confundir as coisas, meu caro.

  22. zé neves diz:

    olha, um dia próximo tento tornar tudo isto ainda mais complicado, metendo ao barulho valor de troca, subsunção e merdas dessas. até breve.

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  24. NUMO diz:

    O pensamento,a atitude e as convicções da DEMOCRACIA, em Portugal , não passam de um desejo de o “ser” , mas….. até a consciência da DEMOCRACIA vai ainda muito distante, porque a democracia é :
    – Responsabilidade literal por aquilo que se diz e se faz;
    – Saber ouvir e deixar falar:
    -Respeitar os outros;
    – Não fazer afirmações sem poder provar;
    -Não gritar quando se está a falar e não interromper a intervenção do nosso interlocutor;
    No caso do BE ,só se pode compreender que o pensador do bloco de esquerda defensor de princípios julga, quí ça, da moral política,a favor para os desfavorecidos não compreendeu ,que o Mundo em que vive – para defendermos os desprotegidos temos que analisar todos os parâmetros de ordem económica-financeira de onde nos encontramos inseridos ajustada aos orçamentos do Estado conjugada com a riqueza desse mesmo Estado conjugando-o com a realidade Mundial. ?????……….!!!!!!

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