A vacuidade

Confesso-me maravilhado com os termos em que Vasco Graça Moura se refere a José Sócrates e à sua entrevista ao Diário de Notícias. Bem sei que o nosso medieval literato não é conhecido pela sua candura, mas tamanha adjectivação é um pouco inusitada e sem paralelo, por exemplo, com o que aqui se tem escrito (rói-te de inveja Carlos Vidal).

Segundo Vasco, Sócrates debita tristemente vacuidades, papagueia, diz coisas tão grotescas quanto estúpidas, falsifica a realidade, demonstra a mais supina ignorância, manipula até que a alma lhe doa e exprime-se  com fórmulas tão sibilinas quanto evasivamente perversas. Penso que é tudo (ufa!).  Por muito menos já o líder do PS levou jornalistas a tribunal – João Miguel Tavares, por exemplo,  limitou-se a classificar de «manhosa» a sua licenciatura e a duvidar do seu apreço pela democracia – mas esse parece ser chão que já deu uvas (sem graínhas).

A falta de imaginação de Graça Moura não é uma novidade nem aquilo de que me quero ocupar. Não é segredo que aqui no 5 Dias se tem optado por desmontar a argumentação dos apoiantes de José Sócrates e o culto da personalidade que o PS vem desenvolvendo em seu torno.  Nada que me desagrade, evidentemente.

Mas há qualquer coisa nas hostes do PSD que me  desconcerta e que passa por este discurso que gira em torno da «vacuidade» de Sócrates. Da vacuidade, notem bem. Mas o que tem o PSD para a troca? O cemitério das suas lideranças está repleto de cadáveres a quem a custo se reconhece qualquer qualidade intelectual digna de destaque. Os seus porta-vozes não são propriamente conhecidos pela substância das suas reflexões ou pela densidade da sua argumentação. Finalmente, e num registo mais desempoeiradamente sectário, quando abrimos as páginas da «Sábado» ou do «Sol» procuramos a custo, em todas aquelas «opiniões», algo que se assemelhe a uma ideia. Poucas coisas são tão reveladoras do estado a que isto chegou quanto a coluna semanal de Henrique Raposo no «Expresso». Dele se pode afirmar, com propriedade, que escreve algumas coisas com interesse e outras tantas originais, sem que se corra o risco de as duas coincidirem.

A argumentação da generalidade da  direita contra Sócrates é um mistério embrulhado num enigma. Ninguém percebe muito bem o que têm contra o senhor, excepção feita ao facto evidente dele ocupar um lugar que lhes pareceria seu por direito natural.  A genealogia do homem providencial ao leme da nação, competente  e que governa acima das facções e corporações, exclusivamente movido pelo interesse geral e determinado a vencer todas as resistências – eis uma personagem que consideravam  propriedade sua e vêm diariamente encarnar do outro lado da barricada. A vacuidade, que glorificaram em Cavaco, parece-lhes agora uma arma de arremesso tacticamente apropriada contra Sócrates.  Onde um afirmava que «Portugal não pode parar» o outro garante que quer fazer «Avançar Portugal».

Simultaneamente, acreditam que o silêncio de Manuela passa por introspecção e a sua embaraçosa dificuldade de expressão por autenticidade.  Compreende-se que seja o melhor que conseguem arranjar, mas não deixa de parecer gritantemente pouco. À autenticidade, havemos de voltar.

Entretanto, e ao denunciarem a espectacularização da política e o domínio da imagem sobre o real, deixam-nos confusos. Serão genuinamente ingénuos ou irremediavelmente cínicos? Não é preciso a memória de um elefante para lembrar que foi precisamente ali, nas campanhas eleitorais de Freitas do Amaral e da maioria absoluta do PSD, que o ruído se começou a tornar ensurdecedor e que a imagem se sobrepôs a tudo o resto.  O preenchimento do vazio com mensagens enfáticas, frases assassinas e tiradas demagógicas não é um resultado do Plano Tecnológico nem uma invenção recente de uma  qualquer Agência de imagem. É o ritmo a que a política tem dançado e a matéria de que se foi compondo o espaço público. Que esse vazio permaneça depois de tudo isso ter entrado e saído de cena, apenas surpreenderá os menos prevenidos.

Gostaria de pensar que, nas apaixonadas diatribes de Graça Moura, Pacheco Pereira et alli contra Sócrates, há uma lição aprendida e um arrependimento genuíno pelo seu contributo para este estado de coisas. Mas não me arrisco a tomar os meus desejos pela realidade. Como poderiam eles não apoiar acriticamente uma mensagem política que reivindica para si o estatuto da «verdade», depois de tantos anos a acarinhar alguém que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas?

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10 respostas a A vacuidade

  1. nunocastro diz:

    grande texto!! ip ip hurra.

    e se me permite a resposta: “irremediavelmente cínicos” certamente.

  2. Da-se diz:

    Irra, também aqui no Cinco Dias? Não há dúvida de que o suposto engenheiro – e é alguma mentira o que VGM diz dele? – é muito poderoso. Como o Ajax, da-se!!!

  3. Luis Rainha diz:

    Bela estreia.

  4. mt diz:

    já escrevi. agora deixo um abraço.

  5. Ricardo Noronha diz:

    Confesso que um assessor do PM veio tomar o pequeno-almoço comigo no «frutalmeidas» e me segredou ao ouvido (docemente, como se de uma carícia se tratasse) o que eu deveria escrever.
    Aproveito para quebrar o suspense. A próxima encomenda é um post a elogiar as qualidades políticas da Carolina Patrocínio.

  6. M. Abrantes diz:

    Sócrates manteve o país crispado durante mais de 2 anos. Mostrou que não consegue pacificar nem resolver conflitos. Mostrou que é um péssimo líder (por muito que a propaganda socialista pague para que passem dele a imagem contrária). É um sinal de vertigem pelo perigo votar neste senhor.

    A direita (que temos) não soube aproveitar a vantagem das europeias. Não procurou definir claramente projectos e apresentar pessoas (ao menos para secar as doses de propaganda massiva, sobre o que fizeram e aconteceram, que se sabia seria uma das armas do partido do governo – não é sempre assim?). Optaram por uma estratégia minimalista nos riscos, mas também nos ganhos, que, com pequena margem de erro, lhes vai custar as próximas eleições.

    Ferreira Leite tem, para muito eleitorado, a vantagem das namoradas recentes: nunca nos decepcionaram (por muito que lhe remexam o passado). Pode ser uma ilusão. Mas não nos ficava bem culparmos as pessoas por se agarrarem a ilusões destas, pois não?

  7. Da-se diz:

    “A próxima encomenda é um post a elogiar as qualidades políticas da Carolina Patrocínio”.

    Pelo arranque da carruagem, não me surpeenderia nada, da-se!

  8. Carlos Vidal diz:

    O problema Ricardo, o verdadeiro problema, é que tudo o que o PS atire ao PSD lhe cai em cima que nem uma luva, e vice-versa, o PSD nada pode lançar contra o PS. Querer laborar racionalmente nisto é que é problemático. Muito problemático. Bem-vindo.

  9. Ricardo Noronha diz:

    É a economia do poder a funcionar Carlos. Nunca como numa campanha eleitoral isso vem tão ao de cima.

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