moralismos e tecnocracia

Carlos Santos diz-nos que  a manchete do Expresso acerca do Bloco de Esquerda é em princípio indigna para o jornal. Mas logo acrescenta que, neste caso concreto, não é indigna coisa nenhuma. No entender de Santos, Louçã deve provar o seu próprio veneno, isto é, sendo Louçã moralista, é bem feito que ele seja alvo de uma crítica moralista. A pouca seriedade da argumentação que tem sido apresentada no Simplex não encontra melhor resumo do que aqui, no post de um dos seus escribas mais activos e, reconheça-se, mais competentes. Veja-se que o principal problema de Santos em relação a Louçã não é a intervenção deste contribuir ou não para um estilo moralista. Fosse isto e Santos jamais aplaudiria uma crítica moralista, mesmo se dirigida contra Louçã. Nenhum ser humano tem um sentido de dignidade/indignidade tão inconstante como o que Santos revela no início do seu post. O problema que Santos tem com Louçã é, na verdade, um problema de divergência política. Esta divergência entre PS e BE tem sido muitas vezes comprovada por recurso à confrontação entre as propostas programáticas de BE e PS, mas não me parece que seja esse o ponto mais relevante – essas divergências programáticas, em parte, são o reflexo de outra coisa. Com efeito, o ponto mais relevante de divergência entre PS e BE (ou PCP) tem que ver com a própria ideia de política subjacente à actividade de cada partido. Para Santos, política é governo, negociação e consenso. Tudo o que não se submeta a isto não é considerado como parte da essência da política, sendo assim demonizadas quer a crítica (negativa, desmoralizadora, a-histórica) quer a manifestação (destrutiva, improdutiva, sectária). Por isso, e ao contrário de alguns comentários acerca do Simplex que têm sido feitos, eu não creio que a fúria com que ali se escreve contra PCP e BE seja o resultado dos interesses pessoais de homens e de mulheres simplesmente interessados em arranjar um lugar nas assessorias dos próximos ministérios. Não seguirei por esse caminho de calúnia, porque julgo que ele é insidioso e, ao produzir um juízo de carácter em vez de dar início a uma análise menos dependente das vicissitudes pessoais de cada qual, acaba por falhar a questão principal. E a questão principal tem que ver com a vocação tecnocrata que marca profundamente a cultura política de vários dos Simplex. Trata-se de pessoas que estão empenhadas em colocar a sua competência ao serviço do governo do país, pessoas que acumularam um saber técnico através de percursos académicos mais ou menos meritórios e que querem agora ver as suas competências aproveitadas pelos governos futuros, em prol do que julgam ser o progresso da nação. Ora, o pânico desta gente é que o país não se pacifique e que não se reúnam condições para que os seus saberes possam ser considerados na justa medida. Temem cada vez mais que o país seja tomado por um clima de conflituosidade social em que nenhum plano de reforma poderá ser simplesmente executado a partir do que se traça nos seus estudos e relatórios. O tipo de frustração hoje sentida pela ministra da educação – e digo-o com o à vontade de quem não sente grande simpatia pela generalidade das posições da fenprof em relação ao sector – é o verdadeiro pesadelo que assola muitos dos jovens turcos de Sócrates. Trata-se de um pesadelo que deve ser saudado. Pode ser que  Santos e outros, quando acordarem, consigam compreender quão elitista é a sua visão da política.

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13 respostas a moralismos e tecnocracia

  1. antónimo diz:

    Lia Carlos Santos com alguma atenção, a partir da altura em que decidiu aderir ao “Eu Voto Socas” parece apostado em todas as entorses contra o que escreveu antes, sempre muito mais próximo do BE. Mais uma vez, se necessário fosse, a evidência de que a Economia tem pouco de ciência e muito mais de retórica e de humanidades.

  2. MC diz:

    Convém distinguir moralidade de imoralidade e discernir sobre a adulteração epistemologica em curso na sociedade. Em grande parte em nome da pura destruição do espírito humano.

  3. o ZNeves coloca-se numa posição sobranceiramente moralista.

    por acaso acho que é difícil encontrar maior “fúria” do que aquela com que aqui, no cinco dias, se escreve contra o PS e Sócrates.

    De tal forma que numa altura em que a questão Cavaco é a questão candente, por aqui opta-se praticamente por ignorá-la.

    mas isto sempre fez parte da estratégia de aliança entre PC e PSD a meu ver completamente errada…

    estamos perante um caso de “som” e de “fúria” não assumido.

  4. António Figueira diz:

    Uma de duas: ou tu nasceste ontem, ou tens um sentido de humor notável (inclino-me mais para a segunda hipótese porque me pareces muito crescido): a partir de “Trata-se de pessoas…,” coisa e tal, o teu post torna-se num delirante e divertido retrato da selva dos gabinetes governamentais – onde, de facto, amor pela coisa pública é o que mais abunda…

    PS Ao contrário de ti, sem o saber, o comentador Nuno Castro também é um grande cómico: A frase “numa altura em que a questão Cavaco é a questão candente” é muito divertida, só peca pelo facto de a esmagadora maioria dos portugueses não fazerem sua a agenda dos spin doctors governamentais.

  5. zé neves diz:

    antónio, a ingenuidade é um princípio que às vezes ajuda. o meu problema com os gabinentes governamentais é com a lógica que lhes assiste. uma lógica que se manteria se por lá andasse o psd e não o ps. o problema da tecnocracia, aliás, remete muito além do chamado centrão. enfim, castoriadis e outros, como joão bernardo, escreveriam este post melhor do que eu. como é evidente. abç

  6. nunocastro diz:

    Se o AFigueiras acha que o affair cavaco é coisa de spin doctors governamentais só pode ser porque se prepara para um lugar como assessor do dito…É que o JMF também é da mesma opinião e já tem por lá uma cadeirita.

  7. António Figueira diz:

    Zé,
    Já percebi, e peço desculpa pelo engano: tu escreveste um post abstracto e eu li um post concreto, tu quiseste falar de faceless bureaucrats e eu lembrei-me das caras concretas com quem tantas vezes me cruzei. Se me permites um reparo, a malta dos gabinetes não são burocratas no sentido estrito, são supra-numerários de confiança política, que se enquistam na administração pública (a única vantagem do rotativismo é que são periodicamente substituidos); o problema clientelar vai para lá do Centrão, certamente, mas também não é o problema clássico da tecnocracia (antes fosse).

    Nuno Castro,
    O seu comentário é imensamente revelador do seu espírito de seita: se não está connosco, está com os outros (e se V. pensa, com muita elegância, que eu digo o que digo porque vou “comer” dos outros, é porque provavelmente V. já come daqueles a quem chamará os “nossos”). Sucede que, para mim, os nossos e os vossos são absolutamente indiferentes, que este tipo de raciocínio me parece desprezível e, quanto ao fundo da questão, que não reconheço a um dos partidos do bloco central autoridade moral para agitar o espectro do anti-fascismo em relação ao outro.

  8. Antónimo diz:

    António Figueira, A mim não me arrola no campo dos nunos castros e também vinco que a questão cavaco é uma questão candente e acho que o facto de a maioria dos portugueses não fazerem dela uma preocupação sua só mostra o grau de alienação em que caíram ou de onde nunca saíram.

  9. zé neves diz:

    antónio, supra-numerários ou burocratas (e por certo que há toda uma diferença) a questão do post está em partilharem a mesma visão da política. sempre irritados como tudo o que não lhes parece racional, num conceito de racionalidade limitado ao evidente.
    abç

  10. nunocastro diz:

    o campo do Nuno Castro é, pra que fique bem esclarecido (embora não interesse a ninguém) o campo do Louçã. Pra que fique bem esclarecido que o António faz justamente a mesma merda que acusa os outros.

    tanta panache, tanta literatura francesa e hélas!!!…

    agora não penhoro a minha capacidade de análise por um ódio bronco e irreflectido ao PS. Vai-me perdoar mas quem diz a atoarda que você diz só pode estar de má fé.

    e se o caso cavaco não vos preocupa porque não constitui manipulação vinda das entranhas socialistas (caso contrário estavam prá aí a balir qual carneiros na tosquia) então a vossa esquerda não pensa em mais nada senão em agendas pessoais e partidárias, veja-se o caso esclarecedor da barreira de fogo erigida contra o MVA, que o Zé Neves até conseguiu eufemizar nos seus posts delicodoces…mas pouco convincentes.

  11. António Figueira diz:

    Nuno Castro,
    Perdoe-me a franqueza, mas estou-me nas tintas com o eventual campo que V. partilha com o Louça (de facto, e como V. muito bem diz, isso não interessa a ninguém)
    Muito simplesmente, disse que a sua preocupação com o “caso Cavaco” (qual, exactamente?), neste preciso contexto temporal, me parece obedecer a uma agenda de spin (não sei se é a sua, mas acho que V. a assume exemplarmente) e disse que o seu comentário posterior (que se eu não me preocupo “só pode ser porque me preparo para um lugar como assessor do dito…”) é estúpido e nojento.
    Disse e repito: estúpido e nojento – e mais não digo porque não volto à conversa consigo (voici une rime à la française).

  12. nunocastro diz:

    curiosamente, o AFigueira quando achava que eu era da “seita” parecia muito preocupado com o “campo” onde eu pastava. passou-lhe depressa…

    e depois fez birrinha: “não volto à conversa consigo”, menino mau!

    nem eu esperava outra resposta. Fiquei sem saber, pese embora o meu comentário irónico que tanto abespinhou a eminência parda da literatura francesa do cinco dias (até a MFL percebe mais de ironia) porque razão desvaloriza o caso cavaco?

    mas isso é resposta que eu também não tou à espera da esquerda cheia de certezas.

  13. zé neves diz:

    nuno castro, já agora, diga lá onde está o sobranceiramente moralista no meu post?

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