O Louçã do PS

No geral, discordo deste post do João Almeida Santos. Mas, no universo PS, ele tem desde logo a virtude de ser um texto com o qual se pode discutir. Não esperava outra coisa do autor, confesso. Até porque há algumas coisas que ele diz e com as quais concordo. Seja como for, quando tiver mais tempo, desenvolverei tudo isto. Para já, e no que àquele post diz respeito, sublinho uma passagem que me parece reveladora de uma hesitação no discurso do PS em relação a Francisco Louçã: ora se diz que Louçã tem excesso de ideologia ora se diz que tem falta de identidade política. Diz João Almeida Santos: «Louçã fala de agendas escondidas. Mas ele vai mais longe: esconde a sua identidade política atrás de um enorme reposteiro de medidas avulsas de inspiração anticapitalista, proto-socialista ou vagamente comunista». Perante isto, eu gostava de saber que último reduto da «identidade política» de Francisco Louçã é que o João Almeida Santos gostaria de ver revelado. E o que espera ele encontrar de verdadeira essência (não vale recorrer a cenas maradas de psicologia) por detrás daquilo que diz ser o «enorme» reposteiro de medidas de inspiração anticapitalista, proto-socialista e vagamente comunista que diz serem defendidas por Louçã. É que se isto não lhe chega para aferir uma identidade política… Querem o quê? Que Louçã apresente um programa de uma nova sociedade e o retrato de um homem novo? Que não apresente medidas concretas? Mas não é de totalitarismo e de utopia que já hoje o acusam? A mim parece-me, isso sim, que o PS – e a generalidade dos comentadores – continua a ter imensas dificuldades em compreender como é que, em Portugal, é possível haver 20% de votos à esquerda do PS. Eu, sinceramente, também não compreendo como foi possível, nos últimos dez anos, o BE alcançar a força eleitoral que tem hoje e sem que com isso o PCP tivesse saído significativamente enfraquecido. Enquanto não percebo, todavia, tento não me precipitar em análises muito categóricas. E festejo. Quando chegarmos aos 51%, o que já esteve mais longe, estou certo que haverá quem faça um doutoramento sobre esta e outras matérias.

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2 respostas a O Louçã do PS

  1. xatoo diz:

    que pena um rapaz tão talentoso como o Zé Neves perder o verbo com os zaragateiros partidários. Apesar da perda de tempo, acho que exageras quando procedes à inquirição de “como é que, em Portugal, (comunistas monopolistas de Estado incluidos) é possível haver 20% de votos à esquerda do PS?” – soundbytes àparte, então não foi o padre Costa Pinto que disse hoje que vê no programa do Bloco o mesmo que via no de Sá Carneiro?

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