Histoire de sa vie

Definitivamente, a vida de M. dá mais do que um post: só no capítulo amoroso há material para vários folhetins em fascículos. A contagem vai em “cerca de 37 homens” – “cerca”, frisa ela, porque há ali um período em que parou de tomar notas no caderninho de danças e agora não consegue refazer a contabilidade com o rigor dos guarda-livros. Certo é que o psiquiatra, preocupado com a elevada rotação masculina, a proibiu de ter relacionamentos durante um ano, assim uma espécie de cura forçada de desintoxicação sentimental. M. aguentou-se à bronca: suspendeu os planos de conquista que traçara a giz na mesa de um bar na moda (um tratado de Tordesilhas em que ela e uma amiga dividiam em partes iguais os exemplares que lhes interessavam, dispensando bula do Papa), e resistiu mesmo ao holandês voador que lhe aterrou no sofá, cortesia do couch surfing – e que ela, coração de ouro, cedeu à amiga (o sofá e o holandês). Nisto, passou também a evitar bares em que a tentação é mais que muita, não fosse o Cupido tecê-las. Era sem contar com os poderes subterrâneos do querubim. Este Verão desapareceu com uma alma-gémea em perspectiva, e os oráculos foram generosos: ela gosta dele e agora ele diz que alcançou na vida o maior bem. São felizes. Ou eram, porque a M., geneticamente avessa a “happy endings”, interrompeu a beatitude estival para quatro dias sozinha em Londres, e foi ali, durante a London Holiday, que começou a urdir-se a tragédia: M. cedeu aos encantos do hotel boy, o hotel boy aos dela, acabando os dois enrolados na lavandaria. A passar a ferro uns boxers do namorado, de volta à pátria, eis que amor-da-sua-vida nega que cuecas lhe pertençam e pede explicações, mas M. está de consciência tranquila: que não, “boxers são vestígio pré-histórico a.T. (anterior a Ti), desde Londres que não te sou infiel” – e só depois é que lhe ocorre que shorts devem ser do holandês, o tal que emprestou à amiga durante os rigores da dieta amorosa. “Mas tu contaste-lhe de Londres?”, pergunto-lhe eu no chat do Gmail, o melhor sítio para encontrar a M. nestas ressacas post-bliss. “Não contei essa parte do gajo da recepção, disse-lhe só que tinha ido para a cama com o J., um amigo da faculdade com quem estava destinada a acabar em vale de lençóis”. Rewind, imploro eu: qual J.? Houve mesmo um J. ou inventaste-o para esconder o porteiro, criatura? “Claro que houve um J., o meu amigo J. que mora em Londres, e desse contei-lhe”. Querida M., aprendiz de Casanova, há que admirar-lhe a dedicação à causa libertina – em quatro dias! –, mas então alma-gémea lusitana surpreende-se, “fiel desde Londres, tu? Não houve mesmo mais ninguém?”, M. jura que não, e a partir daí vagões de felicidade descarrilam, amor-da-vida-de-M. faz-se raro, e a minha amiga, desta vez “realmente apaixonada”, tortura-se com arrependimento – “Devia ter-lhe contado também do bellboy, estes gajos em percebendo que uma pessoa lhes tem apego dão logo de frosques”.

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3 respostas a Histoire de sa vie

  1. António Figueira diz:

    O sexo é só um disfarce, a sua amiga é uma moralista

  2. Mas uma moralista muito animadota

  3. António Figueira diz:

    Nuno, pf não sejas rústico

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