Discutindo o acessório
18 de Setembro de 2009 por Tiago Mota SaraivaEstamos a meio do período oficial de campanha. Os temas centrais de campanha e densamente esmiuçados pela comunicação social são as sondagens, o TGV, o anti-espanholismo reaccionário, o europeísmo bacoco e a compra e venda de votos numa eleição no PSD… Preparamo-nos para passar o fim de semana a discutir mais sondagens e as “fontes anónimas” de Belém.
Um marciano que aterrasse no nosso país e que procurasse ler os jornais para obter informação sobre a realidade em que nos encontramos, estaria longe de adivinhar que em Portugal se vive cada vez pior, que nos últimos anos as famílias ficaram mais endividadas, que milhares de jovens licenciados se viram constrangidos a emigrar ou a ficar no país vivendo de trabalho precário, que o desemprego aumentou de uma forma inimaginável, que a saúde e a escola pública sofreram o maior ataque do últimos anos, que o dinheiro de todos está a ser usado para salvar bancos e empresas das oligarquias que circulam na órbita do poder…
E isto não é discutido exactamente pelo facto de ser o que faz convergir PS e PSD.
Para todas estas questões, e outras, que mais afectam a maioria dos portugueses, as políticas de PS e PSD são exactamente as mesmas, embora por outras palavras. Utilizando um linguarejar futebolístico, são como aqueles jogadores sem arte e técnica que aproveitam qualquer acontecimento paralelo para fazer passar o tempo e que sempre que há um ataque procuram fazer a falta a meio campo.
Veja-se por exemplo o que sucede com a banca.
No final do ano passado foi nacionalizado um banco (BPN) que fazia parte de um grupo económico (SLN) que estaria em risco de ruptura, por motivos que ainda hoje não são claros. A nacionalização, proposta pelo PS e votada pela direita, apenas incidiu sobre a parte do grupo que dava prejuízo, tendo o seu vasto património e partes susceptíveis de dar lucro permanecido com os suspeitos do costume. O Estado ficou com os caroços e um grupo exclusivo com o sumo.
Há época, parceria óbvio que a nacionalização da banca estaria no centro da futura discussão política. Sob que formas? Em que circunstâncias? Para quê?
Ao que julgo saber apenas a CDU defende a nacionalização da banca comercial e, talvez por isso, os outros partidos e comunicação social procuram não discuti-la. Clara de Sousa até ridicularizou a proposta chamando à liça as filas de espera que se dizia recordar – memória curiosa para quem teria 8 anos na altura da nacionalização.
Ora a nacionalização da banca marca uma diferença óbvia entre opções políticas. Esta medida prejudicaria certamente uma minoria de quem tem grandes fortunas, à custa de parasitar a banca. Mas as vantagens para a maioria e para o Estado são óbvias: a regularização dos spreads e da sua especulação, a utilização da banca como um instrumento do Estado de apoio às micro, pequenas e médias empresas, a não taxação de contas bancárias dos que menos têm através da aplicação de “despesas de manutenção” absurdas…
Analisando vantagens e desvantagens, e para responder a Clara de Sousa, prefiro as filas de espera a que aumentem os spreads contratualizados com as empresas ou a que retirem das contas dos mais pobres as “despesas de manutenção”, e que se estabeleçam como uma ferramenta ao serviço de todos.

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