Discutindo o acessório

Estamos a meio do período oficial de campanha. Os temas centrais de campanha e densamente esmiuçados pela comunicação social são as sondagens, o TGV, o anti-espanholismo reaccionário, o europeísmo bacoco e a compra e venda de votos numa eleição no PSD… Preparamo-nos para passar o fim de semana a discutir mais sondagens e as “fontes anónimas” de Belém.
Um marciano que aterrasse no nosso país e que procurasse ler os jornais para obter informação sobre a realidade em que nos encontramos, estaria longe de adivinhar que em Portugal se vive cada vez pior, que nos últimos anos as famílias ficaram mais endividadas, que milhares de jovens licenciados se viram constrangidos a emigrar ou a ficar no país vivendo de trabalho precário, que o desemprego aumentou de uma forma inimaginável, que a saúde e a escola pública sofreram o maior ataque do últimos anos, que o dinheiro de todos está a ser usado para salvar bancos e empresas das oligarquias que circulam na órbita do poder…
E isto não é discutido exactamente pelo facto de ser o que faz convergir PS e PSD.
Para todas estas questões, e outras, que mais afectam a maioria dos portugueses, as políticas de PS e PSD são exactamente as mesmas, embora por outras palavras. Utilizando um linguarejar futebolístico, são como aqueles jogadores sem arte e técnica que aproveitam qualquer acontecimento paralelo para fazer passar o tempo e que sempre que há um ataque procuram fazer a falta a meio campo.
Veja-se por exemplo o que sucede com a banca.
No final do ano passado foi nacionalizado um banco (BPN) que fazia parte de um grupo económico (SLN) que estaria em risco de ruptura, por motivos que ainda hoje não são claros. A nacionalização, proposta pelo PS e votada pela direita, apenas incidiu sobre a parte do grupo que dava prejuízo, tendo o seu vasto património e partes susceptíveis de dar lucro permanecido com os suspeitos do costume. O Estado ficou com os caroços e um grupo exclusivo com o sumo.
Há época, parceria óbvio que a nacionalização da banca estaria no centro da futura discussão política. Sob que formas? Em que circunstâncias? Para quê?
Ao que julgo saber apenas a CDU defende a nacionalização da banca comercial e, talvez por isso, os outros partidos e comunicação social procuram não discuti-la. Clara de Sousa até ridicularizou a proposta chamando à liça as filas de espera que se dizia recordar – memória curiosa para quem teria 8 anos na altura da nacionalização.
Ora a nacionalização da banca marca uma diferença óbvia entre opções políticas. Esta medida prejudicaria certamente uma minoria de quem tem grandes fortunas, à custa de parasitar a banca. Mas as vantagens para a maioria e para o Estado são óbvias: a regularização dos spreads e da sua especulação, a utilização da banca como um instrumento do Estado de apoio às micro, pequenas e médias empresas, a não taxação de contas bancárias dos que menos têm através da aplicação de “despesas de manutenção” absurdas…
Analisando vantagens e desvantagens, e para responder a Clara de Sousa, prefiro as filas de espera a que aumentem os spreads contratualizados com as empresas ou a que retirem das contas dos mais pobres as “despesas de manutenção”, e que se estabeleçam como uma ferramenta ao serviço de todos.

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4 respostas a Discutindo o acessório

  1. ordinário diz:

    e mandar a clara de sousa à merda!A voz do dono!

  2. antónimo diz:

    A ética e a verdade não são sólidos de geometria variável.

    Seria risível se não fosse trágico, pois diz muito da cegueira sectária conjuntural e acerca da capacidade de destrinça entre o essencial e o acessório.

    Cair com todas as unhas e garras em cima de coisas muito mal explicadas — vide a licenciatura do PM, um caso que também me suscita muitas dúvidas, agravadas pela falta de vontade do Público em contar a verdade limitando-se a lançar questões que nunca quis aprofundar. Dava um perfeito case study de como uma suspeita razoável e obviamente denunciável pode ser jornalisticamente tratada ao pontapé — e assobiar para o lado com casos graves de evidente e assumida manipulação do jogo democrático (aliás, em peça feita por São José Almeida, habitual papagaio dos “renovadores” comunistas agora travestida em pé de microfone dos joguinhos de Belém).

    Felizmente, houve alguém que foi atrás das escutas pq o silêncio – agravado aliás pela desvalorização do socas – jornalístico neste caso era aterrador. E não me venham com as desculpas esfarrapadas do JMF, que parece estar prestes a assumir a sua verdadeira vocação de assessor (viu-se com o Iraque e com Bush) para ir assessorar o senhor presidente da comissão europeia.

    Resumindo, TMS, percebia o seu post todo de uma ponta à outra e assinava por baixo se não viesse com o preâmbulo.

    O BelémGate é grave e tanto mais grave quando surgiu em vésperas da campanha eleitoral e o PR até veio desvalorizar a coisa dizendo que nos tinhamos de fixar no essencial.

  3. Tiago Mota Saraiva diz:

    Respondi-lhe na outra caixa de comentários, mas acrescento que não me parece um tema menor. Tal como Cavaco, digo que espero pelo final das eleições.
    Na próxima semana é fundamental que se discuta as diferenças políticas entre os partidos, para que o cidadão vote informado.

  4. antónimo diz:

    Pronto, inda não fui à outra mensagem mas lembro que foi também o que Sócrates disse. Agora devemos prender-nos com os problemas dos portugueses nas eleições.

    Vinco que este assunto começou há um mês, por inciativa presidencial. E só hoje ouvi um jornalista a dizer-lhe que foi ele [PR] que começou com este assunto. Sigo para a outra mensagem.

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