Uma resposta adiada

Ando em reportagem, tenho neste momento pouco tempo. No entanto, gostaria de responder ao João Galamba. Vou fazê-lo, nos próximos dias, com cuidado, mas não posso de deixar de dar cinco notinhas:

1. Não foi Marx que afirmou primeiro que há classes na sociedade, nem o último a dizer que existe uma luta de classes. João Galamba anda bastante distraído.

2. Esta passagem do João Galamba não tem nenhum sentido: “Não sei se o Nuno sabe, mas o conceito de luta de classes pressupõe a validade de um conjunto de conceitos e afirmações — relação de expropriação  entre capital e trabalho, taxa decrescente do lucro, empobrecimento do proletariado, etc. — e culmina necessariamente na revolução e na abolição da propriedade privada, isto é, pressupõe que o materialismo dialéctico”. Primeiro, para Marx a história da humanidade era a história da luta de classes, ela não nascia no capitalismo, não pressupunha nada que João Galamba escreve. Segundo, o facto de um conjunto de condições no capitalismo poderem não se verificar (é uma longa discussão), não implica que não haja classes, nem que não haja luta de classes. Ao limite, a grande burguesia pode estar vencer esta luta, como garantiu o milionário Warren Edward Buffet, ao New York Times em 2006, sem que nada disto seja contraditado. Para além de tudo, o João Galamba tem de explicar o que são “relações de expropriação”, não estará ele a falar de “relações de produção”? Mais adiante, não terá confundido o “materialismo dialéctico”, de que fala, com o materialismo histórico, de que não fala? É demasiada ligeireza sobre um autor, para uma discussão séria. Já para não falar da obra inexistente de Marx que daria pelo nome de “Idealismo Alemão”. Deve ser esta leveza que encanta o professor Vale de Almeida.

3. O facto de a superação do capitalismo não fazer sentido para João Galamba, não implica que não faça sentido para grande parte dos autores que cita, como tendo modernizado Marx. Parece-me que o Galamba está demasiado ocupado na campanha eleitoral, para discutir seriamente autores como Zizek e Badiou e garantir que para eles a superação do capitalismo deixou de ser uma possibilidade desejável ou pretender que Nietzsche e Heidegger fizeram desse ponto alguma coisa de fundamental da sua obra. Já para não falar de Lacan.

4. Há uma confusão grande sobre tempo e o devir histórico: não há nenhuma garantia que a história tem de acabar bem. Um marxista como Benjamin explica isso bem, nos seus livros, e defende que o mais provável é a humanidade acabar mal e que o esforço de parar a catástofe é difícil e tem de ser muito pensado. Para ele, a superação da luta de classes não é uma inevitabilidade inscrita no seio do desenvolvimento histórico, mas uma possibilidade de interrupção desta história. Mas o facto de não haver garantias de um final feliz não torna verdadeira a ideia do Galamba que o capitalismo vai durar para sempre. Nada dura, por que é que o capitalismo seria diferente?

5- Finalmente, o facto do socialismo real ter falhado não nega a existência de classes sociais, e , sobretudo, o falhanço destas experiências não nega o caracter injusto e desastroso, para a grande maioria da humanidade, do capitalismo. É interessante verificar que, nos paises ditos socialistas, a nomenklatura recusava-se a aplicar as categorias marxistas para analisar estas sociedades, substituindo a análises das classes por uma visão funcionalista da sociedade. No fundo, faziam o mesmo que o Galamba faz em relação ao capitalismo: pregar as virtudes do consenso, da regulação, da colaboração e garantir o carácter harmónico, progressista e eterno da sociedade em que viviam ou vivem.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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20 respostas a Uma resposta adiada

  1. carlos graça diz:

    Gostei… e , quanto ao visado, parece-me ter muita teoria, mas pouca compreensão; aquilo a que Montaigne designava de “tête pleine”, por oposição a “tête rangée”, ou seja, uma cabeça arrumada e organizada, vale por muitas que, apesar de cheias…

    P.S: faz-me esta discussão lembrar aquela máxima de há uns anos para cá ,mais ou menos em voga, e que afirma que as ideologias morreram; pois é, afirmar isso, abre terreno para o aparecimento de novas ideologias… and so on…

  2. Chico da Ribeira diz:

    Quantos philosofos tentaram explicar a caida de Lehman Brothers,o que deu a famosa crise dos sub-primes!!Lendo a história do prencipio ao fim do sistêma bancàrio Americano ,depois a famosa crise de 1987
    justo á de 1921,que sabemos que o capitalismo è “imoral”.
    E a compra da China de acçôes Americanas contribuio á falênça do sistêma Americano mas radical dèsta vêz por de bom.
    Os tipos que tiram os cordeis em lugar do presidente,sem o quererem mandaram avisos para o naufrágio,os quais tipos como eu se prevaleçêram para se defenderem.As teorias de Emile Boutroux como as de Leibonitz e as Descartes, como os prè-avisos do trader Françês,e o silênsio de Soros a escolha de Mc Cain e a pitt-bull aos lábios encarnados,com a escolha d’um Bugalu como presidente dos U.S.A fisèram-me lembrár..o meu reino por um cavàlo.
    Como o planêta foi construido com asteroides e comêtas e os philósofos o prediram!!O capitalismo chegou ao fim

  3. João diz:

    Se isto foi apenas o “rascunho” a coisa promete….
    O Galamba não voltará ao tema.

  4. Chico da Ribeira, o tradutor automático não é seu amigo.

  5. ordinário diz:

    Este João não é o filho daquele gajo incompetente que está à frente do Banco de PortugaL?

  6. xatoo diz:

    boa charutada, dá-lhes Nuno,
    mas quero deixar aqui um recado sobre essa treta “do facto do socialismo real ter falhado” (querias dizer a experiência, uma entre mil hipoteses de interpretação do marxismo, que aconteceu na URSS?),
    Ao fim e ao cabo trata-se da fabricação da falsa oposição entre o “internacionalismo proletário” e o “socialismo nacionalista” (a expressão ficou famosa) – lembremo-nos da frase de Marx (operários de todo o mundo uni-vos!) e da distinção feita pela Rosa Luxemburgo relativamente à forma de organização do partido bolchevique num tipo de sociedade analfabeta e ainda des-industrializada; Perante a manipulação das massas pelos directórios partidários (e é aqui que entram o Galamba e as suas vítimas) a Rosa acrescentava “operários de todo o mundo uni-vos, em tempo de paz, mas degolai-vos em tempo de guerra” – e é isto que temos actualmente, uma situação de guerra permanente – e ela viria a saber tragicamente por Weimar e pela carneirada ignara arregimentada pelos “nacionais-socialistas que um bom militante “socialista em liberdade” é um militante morto

  7. ezequiel diz:

    O capitalismo e o comunismo funcionam muito “bem” na China.

    LOL LOL

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  9. João Pimenta diz:

    Não se podem confundir experiências com a teoria, as sociedades a que chamaram “socialistas”, mais não eram que uma amostra, basta ver as cópias de muitos sistemas ocidentais das práticas dessas sociedades. A prática socialista ainda é uma utopia, cabe ao ser humano torná-la realidade, isto é, começa em cada um de nós a responsabilidade de o praticar.

  10. Justiniano diz:

    Caro Pimenta!
    Que grande amostra, mais parecia uma prova de vinhos.
    “basta ver as cópias de muitos sistemas ocidentais das práticas dessas sociedades” Maduro quÊ!? Tinto como!? Branco quando!?
    Deixe lá o ser humano em paz e beba mais um copo que isso passa!

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  12. Justiniano diz:

    Caríssimo Nuno.
    Só agora soube, por revelação do peregrino Rainha, que V.cmcê é candidato.
    Felicidades.

  13. caríssimo justiniano,
    Não sou e não partilho, neste campo, a ignorância do candidato do seu coração.

  14. Justiniano diz:

    Caríssimo Nuno!
    Estou-me borrifando, serenamente, claro está, mas todavia borrifando, para o com quem Vcmce partilha a sua ignorancia, o que não posso, jamais, é admitir a parte coronária do seu comentário porque dessa doença não padeço.

  15. Caríssimo Justiniano,
    Você é um caso de uma pessoa que aprendeu os insultos de cor , mas recita-os mal.

  16. Justiniano diz:

    Insultos!?! (ao que se permite a má-fé e o escasso valor de espírito.)
    Vcmce é complexado, mal humorado e pretensioso.
    Um pobre homem com tão rica angústia.
    Tem a minha compaixão, sem termo ou condição.

  17. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Justiniano,
    Continuamos na mesmo tom, não argumenta, só insulta. O neurónio não deve dar para mais.

  18. Justiniano diz:

    Nuno.
    Não lhe havia dirigido qualquer insulto, senão apenas uma levíssima brincadeira sem agravo.
    Sendo Vcmce lesto a largar desqualificantes não presuma a mesma má vontade aos seus interlocutores.
    Tem razão, o neurónio, cansado, não dá para mais, mas conduz de boa vontade, suficiente para lhe oferecer compaixão na superação da sua angústia.
    Cordialmente;

  19. Justiniano,
    Eu não tenho que aturar só a si. Há dias que me irritam comentários que não acrescentam uma opinião, uma ideia, um argumento e se limitam a chamar-me, a mim e a quem posta, de ignorante e outros termos amáveis. Sinceramente, participo num blogue e aceito comentários para trocar ideias e opiniões, nem sempre tenho paciência para aturar pessoas que vem para cá fazer a terapia, e descarregar as suas frustrações. Sou naturalmente, ignorante sobre muitos assuntos, infelizmente, para si e o João Galamba, este sei bastante, e estudei este assunto, ao longo de muitos anos.

  20. Justiniano diz:

    Nuno!
    Não duvido do seu aturado estudo. Acontece, porém, que a forma hermética e meramente recognitiva(assim à laia de bom aluno) que “opina” descreve, não permite, muitas das vezes, qualquer acrescento controvertido.
    O post do galamba, se alguma utilidade tem, para além da “lógica” de campanha eleitoral, é a de expor o refúgio da pura ortodoxia dos manuais (espécie de “matemática”) e de não permitir a matemática aplicada à física.
    Especule, arrisque aplicar ideias, porque prelecções…sinceramente…

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