A miséria da filosofia (trechos inéditos)

Simplifiquemos (é tarde, temos todos imenso que fazer): O João Galamba misturou atrevimento e ignorância e fez uma alocução risível na recente Convenção do PS, em que preveniu a esquerda contra o uso da luta de classes, como se a dita fosse uma de entre múltiplas opções ao dispor da esquerda, eventualmente substituível pela guerra dos géneros – ou pela colaboração das classes.

O Nuno Ramos de Almeida, o Zé Neves e o Tiago Mota Saraiva referiram-se ao facto (necessariamente, riram-se de algo risível) e o João ripostou, confirmando que a sua crítica do conceito marxista da luta de classes se baseava num desconhecimento (também eventualmente risível, mas em qualquer caso profundo) daquilo e daquele (do marxismo e do próprio Marx, respectivamente) que eram o seu objecto.

Se eu tinha achado patética a alocução inicial do João, mais patética ainda achei a sua segunda intervenção. Se antes o tinha achado atrevido (um traço não necessariamente negativo, sobretudo num tipo simpático como – digo-o sem hipocrisia – o João é), agora achei indesculpável a sua ignorância. Não basta ser um utilizador habilidoso das palavras, é preciso também ser um utilizador minimamente sério dos conceitos. E o João Galamba, neste caso, não o é.

O Nuno voltou a responder-lhe (deixando o link para o texto a que se referia) e o João respondeu à resposta (não deixando o link para o texto a que se referia, o que acho deselegante e me parece mostrar receio do contraditório). É a esta última peça do João a que vou referir-me sumarissimamente, entrando pela última vez numa polémica que já provou o que tinha a provar (isto é, que o João Galamba deve procurar saber do que fala antes de efectivamente falar).

Os problemas que o João tinha evidenciado eram múltiplos: achava Marx o inventor da luta de classes, não compreendia o sentido da necessidade na filosofia marxista da história, confundia o materialismo histórico com o materialismo dialéctico, aconselhava a leitura de livros inexistentes (e que portanto, e por definição, ele nunca tinha lido), etc. No seu último texto, o João resolve a confusão literariamente, invocando o seu espírito simplificador (afinal, estamos em campanha e ele é um Simplex) e produzindo nomeadamente esta frase oportuníssima: “os conceitos Marxistas são interdependentes e não existem independentemente da filosofia de Marx”. Ou seja, e assim sendo, um conceito pode ser o que é ou outro qualquer, porque todos os conceitos são interdependentes (e, logo, as suas confusões são perdoadas) e todas se referem à “filosofia de Marx”, que somos supostos acreditar ser aquilo que o João diz que ela é, quando ele manifestamente a confunde.

Sucede que, de facto, ela não é aquilo que o João diz que ela é – e que por parlapatões como o simpático Galamba tinha Marx o desprezo (intelectual, claro) que vai no título deste post. Caro João, lê, reflecte, discute e afirma, com atrevimento, se necessário – mas por esta ordem, por favor.

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SEXTA | António Figueira
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5 respostas a A miséria da filosofia (trechos inéditos)

  1. e ignorar o Galamba, nao da’ mesmo? e’ que se vao comecar a discutir Marx com cada desqualificado que vomita 3 barbaridades a cada posta pseudo-connaisseur nunca mais daqui saimos. nem o Galamba merece, nem a malta aprecia ter que perder tempo a ler o obvio: que o tipo e’ fraquinho, fraquinho.

  2. Galamba, enquanto a Universidade Aberta nao te da’ o Doutoramento (podes sempre experimentar passar la’ ao Domingo, resultou com o Engenheiro) podes sempre escutar umas coisas para elevar o nivel:

    http://www.bbc.co.uk/programmes/b00mm1nf

    ou isso ou,

    http://self-betterment.com/

  3. João diz:

    Se não for pedir de mais, e depois de vos dar os parabéns por estas respostas, pedia o favor de elencarem um conjunto obras essenciais para uma primeira incursão na teoria marxista.
    Podem responder por comentário ou email.

    é de um prazer intelectual imenso passar por aqui todos os dias…
    abraço
    (não é necessário publicar post, mas podem fazê-lo)

  4. JMC diz:

    As lutas das classes são quase tão antigas quanto as sociedades humanas, e existem seguramente desde que a produção permitiu constituir excedentes e com eles a disputa pela sua repartição. E os modos de produção social, a organização da produção e as relações que aí se estabelecem, de que derivam as relações de repartição do produto, têm-se sucedido ao longo do tempo. É previsível que o modo de produção capitalista ou salarial tenha também um sucessor. E é também previsível que o seu fim não acarrete forçosamente o fim das classes sociais e das suas lutas.

    Mesmo que a médio prazo a produtividade do trabalho possa proporcionar a satisfação das necessidades básicas da humanidade com redução substancial do tempo de trabalho social necessário, novas necessidades serão criadas e nada permite antever que relações de dominação pela organização da produção social e pela repartição do produto social, e outras daí derivadas, não continuem existindo. Se a evolução das sociedades humanas tem sido motivada por estas lutas sociais, prever a sua extinção conduziria à previsão da estagnação social. É previsível, portanto, que as classes sociais e as suas lutas, sob múltiplas formas, vão acompanhando e sejam uma constante das sociedades humanas desenvolvidas.

    O reconhecimento da existência das lutas das classes e do seu papel na evolução das sociedades humanas, assim como o reconhecimento de que o capitalismo não será eterno, não confere qualquer crédito ao marxismo, na componente que o Engels baptizou de materialismo histórico. E a sua credibilidade sai ainda mais abalada, se não destruída, pelas previsões que faz acerca da evolução social. Desde logo, pela profecia de que o capitalismo seria substituído pelo socialismo científico e pelo comunismo, através da revolução proletária; depois, com a proclamação de que no comunismo seriam abolidas as classes sociais e, logo, as suas lutas.

    Nada na história permite conferir o protagonismo revolucionário a uma classe social do modo de produção em decadência; muito menos permite atribuir o protagonismo da transformação social e da direcção da sociedade a uma classe explorada, como é notoriamente o caso do proletariado no modo de produção capitalista. Neste sentido, a previsão marxista, pretensamente fundada na história, na ciência, não mostra ter consistência, porque os dados de que afirma partir não conduzem aos resultados que prediz. Ao invés duma utopia, ou duma previsão científica, ou sequer duma possibilidade entre outras, a revolução proletária e o socialismo científico marxista constituem uma profecia idealista sem qualquer suporte na história.

    E, contudo, aconteceram revoluções proletárias, ou, pelo menos, revoluções de que as massas de operários e a maioria social camponesa foram os inegáveis protagonistas. Também não há dúvida de que a organização económica e social implantada com essas revoluções, com as necessárias adaptações, desde logo por terem eclodido em sociedades atrasadas no desenvolvimento, onde não fora previsto, seguiram no essencial os esboços marxistas da futura organização económica e social. A organização política seguiu a ditadura que já caracterizava o centralismo leninista, adoptado no partido dos revolucionários profissionais, mas o socialismo foi organizado com base no que os rascunhos previam. Viu-se, afinal, que não passava de capitalismo de Estado monopolista, e que o salariato se mantinha.

    A ilusão marxista de que a revolução social se resumia à revolução política; de que novas relações de produção se podem inventar fora da longa experimentação na base económica da sociedade; e de que a nova classe dirigente é a velha classe dirigida e explorada do modo de produção em decadência foi concludentemente ilustrada pelos resultados que produziu. Depois de terem trazido sociedades atrasadas para a modernidade capitalista, todos aqueles regimes ruíram, à excepção dumas quantas excrescências caricaturais que se arrastam movendo-se para o retorno ao capitalismo privado concorrencial.

    Uns atribuem àqueles regimes políticos o qualificativo de socialistas e de comunistas, e tecem loas aos seus feitos; outros negam-lhes essa qualidade, e para eles o socialismo e o comunismo nunca existiram. Aqueles sonham com a repetição das velhas experiências, renovadas, expurgadas dos erros a que atribuem a derrocada; estes sonham com um socialismo que não sabem bem o que será. Sonham e sonham; acreditam mais pela fé do que pela crença na razão científica em que se basearia o marxismo de que ainda se dizem adeptos.

    Lá porque um tosco filósofo (?), o Galamba, diz umas baboseiras e nega a existência das lutas das classes, e com isso julga descredibilizar o marxismo, afirmar a existência dessas lutas é insuficiente para conferir qualquer credibilidade a um projecto político que não tem qualquer fundamento para além do idealismo, e que conduziu a nefastos resultados. O que os adeptos teimam em não admitir é que ao defenderem o marxismo desempenham papéis tão ridículos quanto os daqueles que o criticam com argumentos errados. Se os argumentos de alguns adversários mostram desconhecimento do que pretendem criticar, como é o caso, os argumentos dos adeptos mostram desconhecimento das inconsistências do marxismo e das suas discrepâncias com a realidade que pretende explicar.

    Este comentário destinava-se ao post do Galamba no jugular. Neste momento dizem que o servidor está em manutenção e não é possível comentar. Ponho-o aqui, porque vocês também são visados.

    JMC.

  5. toni diz:

    Deixo-te o link João: http://marxists.org/portugues/marx/ . O “Salário, preço e lucro” é capaz de ser bom para começar!

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