A subversão democrática

mortimer

“Como todos os homens da Babilónia, fui procônsul; como todos, escravo; também conheci a omnipotência, o opróbrio, os cárceres. Olhem: à minha mão direita falta-lhe o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se no meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth. Esta letra, nas noites de lua cheia, confere-me poder sobre os homens cuja marca é Ghimel, mas sujeita-me aos de Alep, que nas noites sem lua devem obediência aos de Ghimel”. Assim começa “A Lotaria da Babilónia” de Jorge Luís Borges. Um conto que descreve um país “vertiginoso onde a lotaria é a parte principal da realidade”. O que aconteceria se os nossos dirigentes não fossem eleitos mas sorteados? Estaríamos piores?

Os taxistas costumam dizer que isto está uma choldra. As elites intelectuais reagem mal, são normalmente avessas a vozes que expressem a degradação das coisas. É verdade que os taxistas tendem a invectivar a política e os políticos a qualquer hora, mas, mesmo os relógios parados dão horas certas duas vezes por dia. A história esteve de greve durante umas décadas. Os mil anos de felicidade sob o capitalismo liberal foram um pouco exagerados. É preciso redescobrir a capacidade de dizer coisas incómodas. Uma esquerda a sério tem de afirmar que esta “democracia” não funciona. Os problemas sociais e económicos não estão a ser resolvidos. As desigualdades crescem. Quem trabalha tem uma situação cada vez mais insegura no emprego. A promiscuidade entre política e grandes negócios não pára de crescer. Os grandes problemas do desenvolvimento e do ambiente estão longe de ser, sequer, encarados. Temos uma sociedade urbana que multiplica os guetos e os condomínios fechados. A ostentação dos poderosos convive com a selva dos pobres e imigrantes sem direitos.
A destruição da democracia faz-se pela ausência de escolhas. A tentativa de reduzir as eleições a uma escolha entre PS e PSD está a matar a política. O bloco central, em alternância, tem sido a face e a coroa da política única dos governos que dirigiram Portugal. A alternância tem servido para disfarçar o regime da ausência das alternativas. Aqui e na Europa, quando as populações se revoltam e exercem o seu direito à escolha, são rapidamente conduzidas ao redil. Veja-se o exemplo do referendo irlandês ao Tratado de Lisboa: os irlandeses tinham todo o direito a votar, menos votar “não”. Agora são obrigados a votar tantas vezes, quanto as vezes necessárias, para que votem “sim”. Democracia que significa, etimologicamente, poder do povo, transformou-se na multiplicação dos actos eleitorais, desde que seja garantido que eles não mudam nada.
Auguste Blanqui dizia que a palavra democracia “é uma palavra vaga, banal, sem significado preciso, uma palavra de borracha”. É a partir da rejeição da ideia que a democracia se limita ao exercício de colocar um voto na urna, de quatro em quatro anos, é que é possível salvar o potencial subversor desta palavra.
O predomínio da gestão, usando os conceitos de Rancière, o domínio da “polícia”, sobre a política – tudo aquilo que está ligado à possibilidade de escolher e decidir o diferente – está a matar a democracia. Para Rancière, a democracia não é uma palavra polissémica: o seu significado é que é objecto de luta, “uma luta pela apropriação dessa palavra”, escreve ele. A igualdade é o pressuposto da democracia e esta acontece, episodicamente, no momento em que aqueles que não têm voz na sociedade tomam a palavra, subvertendo as regras do jogo.
O pressuposto democrático das eleições portuguesas exige a recusa da chantagem entra o PS e o PSD. A redução das possibilidades do pensável a estes dois irmãos gémeos da política portuguesa conduziu-nos ao beco sem saída em que estamos hoje.

No século XIX, um dos seus maiores poetas escreveu uma das previsões mais negras sobre o que seria a democracia, seremos capazes de fugir a isto?
“Democracia
Avança a bandeira na paisagem imunda, e nossa fala bárbara abafa o tambor.
Nos centros, alimentaremos a prostituição mais cínica. Massacraremos as revoltas lógicas.
Aos países apimentados e inundados – a serviço das mais monstruosas explorações industriais e militares.
Adeus aqui, não importa em que lugar. Recrutas de coragem, nós teremos a filosofia feroz, ignorantes da ciência, fustigados pelo conforto; o mundo que arrebente. É a verdadeira marcha. Adiante, a caminho!”
Rimbaud

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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11 respostas a A subversão democrática

  1. carlos graça diz:

    Excelente!

  2. Carlos Vidal diz:

    A democracia parlamentar burguesa (para quê o medo das palavras?) é um potente colete de forças.
    Se a política é invenção, isso quer dizer que ela tem de formular hipóteses de vida colectiva sem precedentes.
    A invenção cruza-se com o ineditismo (senão, não seria invenção).

    Entretanto, repara como certas medidas do programa do BE e da CDU são atacadas – não são criticadas politicamente, são tratadas como coisas ou ideias que nem sequer deviam ser, ou não podem mesmo ser, pensadas. Nem pensadas, nem formuladas. Não ditas.

    Claro, a democracia tornou-se isto: não pensar, dizer “sim” (sem saberes que o fazes).
    É o cúmulo quando uma Irene Pimentel, no SIMplex, uma historiadora (!?), perante um tópico do programa do BE, veio dizer: mas em que mundo vive este partido?

    Há ideias que não só não podem ser discutidas, como não podem ser pensadas. Isto que está à nossa frente é o “presente perpétuo”.
    Que uma historiadora defenda isto é o “fundo” mais baixo do pensamento. Ou nem sequer pensamento.

  3. WALTZ diz:

    Parabéns. Há que baralhar e dar de novo, que estas cartas estão viciadas. Ora vamos a jogo.

  4. Chico da Ribeira diz:

    Eu numca quis acreditar,mas sabia que uma revolução prostituta havia de nos levar,a uma democracia de bordel.
    Portugal e os U.S.A o que criticavam aos Russos,meteran-nos em pratica.Portugal prostituose quando recebeu os presos de Guantanamo, e os Americanos quando aceitaram o Patriota Acte sem perguntarem as razôes!! Os 31 da Armada podem bem rir dum povo que se tornou miseravel.Creio que Pessoa,Éça e todos os escritores e poètas que nos deixaram, tem uma lágrima nos òlhos

  5. ordinário diz:

    Concerteza que não vive no mundo Mota-engil,oh Pimentel!Cambada de corruptos e de criminosos,Dª(da bata?)Pimentel!

  6. viana diz:

    Concordo, obviamente. Mudando um pouco de assunto, sugiro que chamem a atenção para uma frase que se encontra perto do início da recente declaração de voto de Rogério da Costa Pereira no Simplex e Jugular: “Não voto num PS que se alia ao PP e ainda menos voto num PS que se alia ao Bloco.” A máscara começa finalmente a cair: afinal a “esquerda moderna”, que tanto esforço propagandístico tem colocado na tentativa de bipolarização destas eleições, apresentando-se como principal obstáculo à Direita, prefere aliar-se ao único partido parlamentar assumidamente de Direita, com o seu cortejo de políticas xenófobas, racismo social e integrismo religioso, em vez de aliar-se com o Bloco de Esquerda. Publicitem. Façam estas declaração propagar-se pela blogosfera. As reacções serão interessantes, asseguro-vos.

  7. Pisca diz:

    Há uma questão fundamental que é sucessivamente mascarada e escondida.

    Os partidos do centrão (nome abrasileirado), andam pelo poder há mais de 30 anos, nas suas diversas formas e maneiras, com umas ajudas do CDS pelo meio, que se coloca sempre a jeito quando é preciso.

    Mais que Partidos com linha ideológica, tratam-se cada vez mais de grupos que se fazem e desfazem para consoante as conveniências de lider ou mandante, sendo que os mandantes são os mais determinantes e nunca mostram a cara nem se envolvem nessa coisa dos partidos, são “apoliticos”.

    Resulta daí que tenhamos de assistir à pouca vergonha, coisa que não sabem o que é, de se apresentarem sempre como virgens impolutas às quais nada se pode apontar, acabaram de chegar e trazem no saco a solução milagrosa para tudo, os anteriores não sabem quem são, nunca os conheceram, mesmo que tenham o seu próprio nome, e tenham acabado de ser o poder anterior.

    A sua função tem dois objectivos, executar o que os mandantes querem, e preparar o caminho o mais rápido possível para ir receber a respectiva recompensa, um lugar de administração está sempre disponível, melhor ou pior têm sempre o seu lugar no banquete os restos.

    Se esta quadrilha vendesse carros usados os seus conta quilometros estariam sempre a zero

    Pelo meio lá estão os serviçais da palavra por tudo o que é meio de comunicação, para nos convencer que não, que se trata do novo milagre da rosas ou semelhante

    É uma luta quase inglória, eles têm todos os meios na mão, basta-me resistir a que me queiram fazer de parvo

  8. D.,H diz:

    Afinal, ainda podemos escolher?

    Muito bom, NRA, e Rimbaud como cereja.

  9. Mais do que matar a política está a agonizar o país! Mas é nessa área que os jornalistas e comentadores políticos encontram o seu emprego… descobri isso nesta campanha eleitoral.

  10. Justiniano diz:

    “A democracia parlamentar burguesa”
    Certíssimo Vidal. Sim, sem dúvida.
    Só a “matriz” burguesa, do indivíduo, (todos nós como está claro de ver) Vidal incluido, com o vício e a virtude, é capaz de discernir do interesse, próprio, esclarecido, e pode sustentar a democracia representativa liberal – De outro modo teremos uma massa homogenea incapaz de se aperceber de si própria aguardando, simplesmente, ser apascentada à base de ração, sem pasto sequer.
    Há que elevar o burgues que há dentro de nós, deixá-lo respirar.
    O burgues não vive a apatia do conforto ou desconforto, excepto quando quer, sabe bem de si e jamais se deixa enredar nas patranhas das “massas” burguesas e as suas aspirações aristocráticas e proletárias.
    Bom exemplo o do Nuno com o Rimbaud, que viveu uma quase democracia, sem burgueses, só com aristocratas, proletários e escravos.

  11. Paz diz:

    Obrigada mais uma vez, Nuno. Ler-te é como comer uma boa refeição depois de um jejum forçado.

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