Commonwealth

A hostilidade socialista à palavra nacionalização (adormecida quando se tratou de nacionalizar o BPN…) tem levado a que, à esquerda do PS, nos centremos uma e outra vez num debate económico limitado à dicotomia público-privado. Entretanto, é importante sublinhar que o debate tem que ir além do que permite a dupla Estado-mercado. Acerca disto, valerá a pena ler e discutir o novo livro de Michael Hardt e Antonio Negri, a ser lançado nos próximos dias. Depois de Império e Multidão, chega agora Commonwealth – titulo que talvez não tenha uma tradução muito evidente, parece-me. Editora portuguesa interessada em publicar o livro, é favor contactar-me. Conheço rapaz simpático e diligente que, neste caso apenas, oferece serviços de tradução de qualidade razoável e praticamente gratuitos, tudo por benfiquismo. Enquanto isso, e para quem preferir entreter-se com bonecada, deixo aqui um link para uma conferência de Michael Hardt, sucedida o ano passado, na Suécia, numa altura em que os autores estavam ainda a preparar a nova obra. A conferência decorreu no âmbito de um fórum social europeu e era suposto Negri estar presente, mas acabou por aparecer apenas Hardt. A explicação vem no início do video: Negri adoeceu subitamente, engripando, em consequência do facto de, no dia anterior, um grupo de manifestantes ter partido algumas das janelas do Hilton, estalagem onde Negri se encontrava instalado. E que sempre é melhor que Rebibia.

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7 respostas a Commonwealth

  1. Carlos Vidal diz:

    Negri e Hardt, sub-deleuzes, muito bem.
    Deleuze, um mero espiritualista, também muito bem definido por Peter Hallward, “Out of this World”.
    Negri e Hardt, muita parra, pouca uva.
    Não é bem assim, mas quase, quase.
    Negri e Hardt prestam-se aos cultos de quem os cultiva.
    Prefiro Santo Agostinho, Abade Suger e o grande Abade Grosseteste.
    Uma vez na amazon.com vi uma t-shirt com muita piada:
    “I love Grosseteste”, não esperava por essa,
    mas não a comprei.

  2. Zé Neves diz:

    a tradição autonomista italiana, de que Negri é a face mais vísivel, mas que a ele não deve ser reduzida, tem uma história muito para além de Deleuze ou Foucault.

  3. Mocho de Minerva diz:

    Quanto à tradução do termo, parece que os próprios autores não sabem como traduzi-lo para italiano, dado o jogo de palavras em inglês. Eis o que diz Hardt numa entrevista, em italiano, a propósito do título:

    ‘Il libro si intitola «Commonwealth», una parola che ha un doppio senso: si riferisce sia alla ricchezza comune che al governo della tradizione inglese del Seicento. Non so come potremmo rendere questo gioco in italiano, forse con «comune». È interessante che in italiano questa parola indichi anche il governo della città. Una dele cose di cui parliamo è il rapporto tra i due sensi del comune. Da un lato c’è quello che potremmo chiamare il «comune naturale», cioè la terra e tutto ciò che gli appartiene: acqua, terra, aria,tutto ciò che abbiamo e dobbiamo usare in comune. Questo è l’aspetto ecologico del comune. L’altro senso, di cui ci interessiamo di più, è il comune creato dall’attività umana, che è sempre più centrale nella produzione capitalistica: la produzione di idee, affetti, immagini, comunicazione, conoscenza. Ogni volta che questa sfera si fa proprietà privata o statale diventa meno produttiva. Ogni idea che diventa proprietà è meno produttiva, per questo la necessità del capitale di convertire il comune in proprietà distrugge la produttività stessa… ‘

    A entrevista está disponível na sua totalidade aqui:

    http://www.blogcatalog.com/search.frame.php?term=toni+negri&id=fcf8f659f3f1416ac9afe0fcb7a90eb0

  4. Mocho de Minerva diz:

    Um pequeno comentário ao meu comentário anterior: Hardt sugere provisoriamente o termo italiano «comune», que obviamente perde algo do original mas traz consigo outras conotações, como a de «municipalidade» e, consequentemente, de uma forma de governo. Seja como for, não me parece que ajude muito à tradução para português, a menos que se opte por um título tão genérico como «Do Comum». Desconheço igualmente o termo português para «commons», ou seja, os terrenos para uso ou usufruto comum, que não pertencem nem ao estado nem a privados, tão importantes na argumentação de Negri e Hardt. Sem querer estar a alongar-me muito mais em questões terminológicas, que não são as mais importantes( e até porque uma leitura do livro sugirirá certamente títulos alternativos), julgo que qualquer coisa como ‘A produção do comum’ andaria perto da intenção original.

  5. Carlos Vidal diz:

    Não sei bem caríssimos, mas não se podem comparar em substância, influência e consequência à outra dupla.
    Negri e Hardt adaptam as suas teses ao mundo contemporâneo.
    Marx e Engels nunca fariam uma coisa dessas: primeiro deve sempre vir a tese, e só depois o mundo.
    Negri e Hardt fazem o contrário.
    Assim não pode ser.

  6. zé neves diz:

    carlos, acho que em parte tens razão. há um “subterfúgio sociológico” em Negri e Hardt. Mas só em parte é subterfúgio e por duas razões. Em primeiro lugar, Negri e Hardt não o vêem como subterfúgio na medida em que entendem que a transformação surge contra o capital mas a partir do capital. E nisto não se diferenciam completamente de uma concepção embrionária da revolução, presente em Marx e Engels. Em segundo lugar, sabes bem, sabemos bem, que qualquer esforço de adaptar as teses ao mundo contemporâneo não é uma adaptação mas um exercício de violência (uma tese) imposta a esse mundo. Dou-te um exemplo: Negri e Hardt acham que, a partir do problema da crise da teoria do valor, o antagonismo entre capital e trabalho não é mais remediável. O “devemos ser criativos” que faz o lema pós-fordista é uma recuperação de 68 mas essa recuperação guarda uma tensão insanável, sendo essa a nossa chance. Isto, partindo de uma sociologia, reflecte, no entanto, uma tese construída a partir de uma outra tradição sociológica (e se calhar a sociologia deixa de ser aqui o problema) que seria a do inquérito operário, prática a partir da qual a tradição autonomista virá propor uma ontologia pensada à margem do trabalho.
    isto está à pressa, mas vejam lá.
    abç

  7. Mocho de Minerva diz:

    Caro Carlos Vidal

    Deixo de parte a questão da substância, influência e consequência de lado, pois parece-me arrumada. Suponho que o que está subjacente à questão do que vem primeiro, se tese se mundo, se prende com a importância da ‘formalização’ na construção do domínio autónomo do político, e na consequente rejeição de ‘condições de possibilidade’ de ordem sociológica. Dito de outro modo, e procurando desenredar o laconismo enovelado do seu post, você diria que são os cortes teóricos operados por Marx e Engels que abrem a possibilidade da emancipação, e que esses cortes (por exemplo, o antagonismo entre classes) criam as suas próprias condições de possibilidade, em vez de deccorrerem delas. Ainda que certamente de inspiração badiouana, não anda muito longe do Althusser de Lire le Capital e a sua impaciência com o uso do ‘concreto’, particularmente no Marx pré-Capital. Mas julgo que isto arruma demasiado depressa com a dialéctica, para não falar da História. Quanto a isto, o meu ênfase seria diferente, e insistiria mais na dimensão ‘prática’, no sentido que lhe dá Marx na segunda tese sobre Feuerbach: ‘A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão de teoria, mas uma questão prática.’ Não se confunda isto com uma rejeição do conceptual em favor da acção política. Pelo contrário, aqui Marx tem o Hegel a soprar-lhe ao ouvido, pois esta prática indica a recusa de uma adequação do pensamento ao que meramente existe , em favor de uma construção (concreta, histórica) da verdade. Para usar um pouco de jargão, a mudança de um paradigma de verdade enquanto correspondência (predicativa) para o de uma verdade especulativa que nos permite dizer que a realidade está aquém do conceito e “forçá-la”. Esta última questão, aqui apenas esboçada, toca na ‘tensão insanável’ de que fala o Zé Neves. Negri e Hardt tocam neste ponto e encontram-se com Marx, Engels e Hegel à esquina, ainda que vindos do outro lado. Quanto a mim, esta esquina, onde os conceitos e o concreto entram em tensão e permitem articular antagonismos contra a falsa paz reinante, é mais importante do que o sítio de onde vêm. Talvez os esforços teóricos de Negri e Hardty sejam limitados do ponto de vista da construção de um ‘paradigma’ e insistam demasiado nas singularidades, mas não há dúvidas que a sua noção e uso peremptório (especulativo e imperativo, por oposição a descritivo) do ‘comum’ desarranja as coordenadas actuais. O que não é de menosprezar, mesmo para quem, como eu, desconfia das suas incursões mais ou menos esgazeadas e pouco dialécticas naespuma dos dias.

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