A TERCEIRA MARGEM – edição revista e aumentada

Revolucionária, liberal, democrática, soarista, comunista, maoista, extremista, alegrista, renovadora, socialista, anarquista, o que quer que seja. Se existe algo que deverá ser comum a todas as esquerdas é a ideia de que a pluralidade não é um valor incompatível com a estabilidade – e mais ainda: mesmo que admitamos a incompatibilidade, a pluralidade será sempre considerada como o valor inquestionável.

Todos sabemos perfeitamente que um voto no PS será útil ao PS, um voto no BE será útil ao BE, um voto no PCP será útil ao PCP. Independentemente das posições de cada qual, procurar um critério que permita aferir objectivamente o que é um “voto útil” é tarefa reservada apenas e só a entidades maiúsculas, como a História, Portugal, Verdade, Deus, Progresso, Atraso, Avanço. Nenhuma destas entidades se fez ventríloquo do PS. A concepção de poder alimentada pelo argumento do “voto útil” pode permitir angariar mais uns votos em prol de Sócrates, mas a “lapalissada” mantém-se válida: os meios não justificam os fins. Construir uma escala de valores destinada a pontuar a utilidade da escolha de cada eleitor, na qual o voto em Sócrates ou em Ferreira Leite será o mais útil porque só estes poderão exercer o cargo de primeiro-ministro (o que nem sequer é verdade: podemos desde logo ter um primeiro-ministro que seja uma síntese PS-PSD), reduz as eleições parlamentares ao simples apuramento de um chefe e esta redução configura um problema que não me parece menor. Como nos mostra metade do século XX português, para haver estabilidade governativa não é preciso haver democracia. A democracia é somente indispensável à pluralidade da representação política. Muito pior do que os tiques autoritários de um ou de outro primeiro-ministro, é o culto da figura do primeiro-ministro, seja ele qual for. Este culto anima uma concepção meramente governativa da vida democrática e depende de uma acepção monárquica do próprio poder executivo. Abandonar os apelos ao “voto útil” seria uma boa oportunidade para PS e PSD mostrarem alguma consequência em face das suas preocupações com o “espírito salazarento” e a “asfixia democrática”. Infelizmente, não me cheira que seja isso que vá suceder.

Sectores de opinião próximos ao primeiro-ministro têm apelado recorrentemente ao “voto útil” de todos os que se situem à esquerda do governo: no próximo 27 de Setembro, aqueles que votaram em bloquistas e comunistas, assim como muitos dos que votaram em Manuel Alegre e Mário Soares e uma parte importante dos que apoiarão António Costa em Lisboa, deveriam abdicar da sua intenção de votar à esquerda de José Sócrates. Há muitas campanhas pelo “voto útil” e esta não é inédita, mas o seu sucesso depende muito das circunstâncias específicas. Há quinze anos atrás, quando o PS de António Guterres lançou semelhante campanha, fê-lo propondo acabar com dez anos de cavaquismo e nessa ocasião o PS apresentava um programa de mudança que pretendia fazer a síntese dos vários movimentos de oposição aos governos PSD. A isto acrescia que os sinais de vida à esquerda do PS não eram propriamente animadores. À excepção do PCP, nenhum outro partido constituía uma alternativa eleitoral relevante. E o próprio PCP, com a saída de cena de Álvaro Cunhal e abalado pela queda do Muro de Berlim, passava por um período necessariamente conturbado. Hoje a situação é diferente. Em primeiro lugar, quem agora governa – e para esse efeito beneficiou de uma maioria absoluta inédita na história do PS – é o próprio PS. Em segundo lugar, a composição política do PS mudou, com o afastamento de figuras conotadas com a sua ala esquerda, nomeadamente Alegre. Em terceiro lugar, nos últimos anos decorreram importantes transformações à esquerda do PS.

No que ao PCP diz respeito, é hoje claro que os anúncios de sua morte foram precipitados. Apesar do que se possa opinar acerca de muitas das posições da sua actual direcção, e este ex-militante que vos escreve não será com certeza o menos crítico a esse respeito, não é possível continuar a reduzir o PCP a um simples resíduo tribal e afirmar que a sua relevância é apenas histórica. Num país com tamanho nível de desigualdades, seria difícil imaginarmos o estado do regime democrático sem uma direcção centralista como a do PCP, que traduz regularmente os sinais de revolta social para uma linguagem político-institucional. Como seria difícil imaginarmos o estado de desenvolvimento do país se, em lugar de enfrentar a resistência laboral, o patronato português caísse ainda mais vezes na tentação de procurar enriquecer à custa de salários miseráveis. Entretanto, foi possível ao PCP desempenhar esta função progressista graças ao facto de estarmos perante o único partido político português que é também uma rede social tecida quotidianamente, construída “a partir de baixo”, através da animação de centros de trabalho e de organismos de base em que a política poderá vir a ser recuperada enquanto actividade plebeia, do comum, gizando as alternativas “concretas” que estão aquém e além do que pode conter qualquer “abstracção” programática apresentada por todo e qualquer partido, incluindo o próprio PCP.

Por outro lado, e ainda à esquerda do PS, os últimos anos vieram igualmente mostrar que a força do BE excede largamente a caricatura de que foi inicialmente objecto. A sua expressiva votação em cidades como Barreiro ou Entroncamento, assim como a sua capacidade de penetrar eleitoralmente em regiões do norte e do interior do país, onde a esquerda comunista sempre enfrentou debilidade organizativa, mostra a fragilidade da crítica populista que o reduz a um fenómeno caviar. A insistência bloquista em articular uma crítica da exploração laboral, do racismo e das questões de género não é prova de inconsistência ideológica e sim revela a capacidade de libertar a reflexão ideológica de preconceitos segundo os quais os homossexuais seriam todos eles artistas, o feminismo todo ele burguês, o povo todo ele machista, os trabalhadores todos eles portugueses. O BE teve o mérito de criar um espaço político que, filiando-se parcialmente em tradições social-democratas e marxistas-leninistas, abre caminho além dessas duas principais correntes políticas da esquerda novecentista.

Estas e outras transformações por que passou o espaço político à esquerda do PS, em Portugal como no Mundo – da Alemanha a Paris e à Bolívia, passando pela Grécia, pela Venezuela, pelo Brasil, por Buenos Aires, por Porto Alegre ou por Seattle – resultam incompreensíveis para o PS de Sócrates e de António Vitorino, a quem a última década do século XX parecera prometer a extinção de qualquer perspectiva política anticapitalista. Infelizmente, a crítica do PS a comunistas e bloquistas limita-se a reforçar o sectarismo dos extremistas do centro, para os quais é necessário ser anti-comunista e anti-esquerdista para não se cometer o pecado de vir a ser comunista ou bloquista. Classificar o PCP enquanto “pré-moderno” e o BE enquanto “pós-moderno”, ao mesmo tempo que se agita todos os papões do anti-comunismo primário (a nacionalização das criancinhas, os extremos que se tocam, a irracionalidade de Louçã, a cassete que só é de Jerónimo), permite a Sócrates, Vitorino e Simplex obterem um efeito de estilo, mas nada nos diz acerca da ideia de modernidade que anima o próprio PS. Podemos mesmo perguntar se o efeito obtido não é justamente o de se esconder a realidade política dos últimos quatro anos por via de clichés sociológicos que se desmoronam quando vemos que, ao contrário dos deputados do PS, os deputados “pré-modernos” do PCP votaram a favor de propostas tão “pós-modernas” como a do casamento homossexual e os deputados “pós-modernos” do BE foram vistos e revistos à porta de empresas, a tomar o partido de figuras tão “pré-modernas” como os trabalhadores em luta, contra a equidistância de um governo que esqueceu que há uma parte mais fraca na relação entre capital e trabalho.

Ao longo dos últimos anos, o PS dispôs de tempo suficiente para protagonizar uma viragem política à esquerda, na medida em que aos seis anos de guterrismo somaram-se mais de quatro anos Sócrates. O PSD tem muita culpa no estado a que isto chegou e Sócrates é diferente de Ferreira Leite, mas quando reparamos que, durante os últimos doze anos, dez foram vividos sob governo socialista, resta-nos concluir que a diferença entre os dois partidos do centro não é suficiente para abdicarmos de, com o nosso voto, construirmos uma outra diferença. Por certo que esta diferença não resolverá as fragilidades de PCP e de BE nem muito menos a debilidade da nossa vontade de alcançar uma transformação significativa da situação presente. Não se espera que a direcção do BE, que tanto acalentou a ideia de um partido-movimento, repare enfim que a dinâmica do PCP se encontra mais próxima dessa realidade movimentista do que a do próprio BE, muitas vezes reduzido a uma dimensão parlamentarista. Não se espera que a direcção do PCP compreenda que a sua radicalidade depende mais da porosidade da sua rede militante do que da pureza identitária certificada pelo seu comité central nem que olhe para a história do comunismo como um problema e uma solução e não apenas como uma solução. Não se espera que uns e outros, PCP e BE, compreendam que a sua acção política deveria preocupar-se mais em ser parte de conflitos globais do que em almejar representar o todo nacional. E também não se espera que, nós, eleitores que simpatizamos com valores de esquerda, nós, “povo da esquerda”, abrileiros ressentidos, maioria sociológica do país, jovens eleitores, cidadãos da cidadania – o que quer que seja – levemos finalmente a sério uma outra “lapalissada”: o dia do voto não é o mais importante e não nos podemos continuar a limitar politicamente à fraca figura de representados.

Se no dia 27 de Dezembro, PCP e BE se aproximarem ou superarem os 20% de votos, a terra continuará a girar à volta do sol e o salário mínimo não chegará aos 1500€. Mas para mim é claro que, quanto maior for o crescimento eleitoral de BE e PCP, maior a repercussão governativa das críticas e das propostas em que estas forças partidárias se apoiam. A viragem do PS à esquerda, depois das eleições Europeias de Junho, foi muito ténue e insatisfatória, é certo, mas, ainda assim, só foi possível porque PCP e BE tiveram uma boa votação. E o crescimento eleitoral das forças às esquerda do PS, não respondendo à urgência dos tempos que correm – mas à força desta urgência, que é reconhecida por todos, a começar pelos próprios apoiantes do PS, só corresponderia a força de uma ruptura que nenhum partido de esquerda, muito menos o PS, estará disposto a acalentar –, é motivo de alento para quem não se conforme com o esquema em que uns poucos comem uvas e outros muitos trabalham nas grainhas. A importância de se criar uma terceira margem do eleitorado reside não tanto no reforço partidário de BE e PCP, mas desse reforço poder contribuir para animar uma multiplicidade de elementos políticos muito diversos – comissões de trabalhadores, revistas críticas, associações de bairro, movimentos de imigrantes – e intensificar lutas não menos importantes – pela distribuição do rendimento, pela autonomia dos produtores, por uma vida além da produção, por formas de propriedade comuns, pela liberalização dos costumes, pela vitória do benfica.

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13 respostas a A TERCEIRA MARGEM – edição revista e aumentada

  1. jcd diz:

    “Se no dia 27 de Dezembro, PCP e BE se aproximarem ou superarem os 20% de votos, a terra continuará a girar à volta do sol e o salário mínimo não chegará aos 1500€”

    Por outro lado, se PCP e BE passarem dos 50%, o sol brilhará para todos nós e o salário máximo aproximar-se-á dos 500€.

  2. Vasco diz:

    Zé,

    antes de mais, belo e certeiro post.
    Depois, eu fico contente por perceber que cada vez mais há mais gente a não reduzir o BE à freakalhada pós-mod ou o PC ao rudes sindicalistas de bigode. O
    Não me parece que será aqui e agora que se dará junção e uma paz em relação a uma história com 80 anos de incidentes (pelo menos).
    Mas a dimensão mais importante nesta confluência de posições e nesta circunstância histórica é a de poder condicionar (no mínimo) ou alterar (idealmente) o rumo político que nos há de guiar na próxima meia dúzia de anos.
    Que se espera que sejam de ruptura com o passado e de progresso social por contraponto à mutação 3ª via / liberal do PS que tem governado.
    Um obstáculo claro também está num sistema mediático totalmente sequioso de encontrar heróis e vilões, de personalizar tudo à náusea (no fundo só que quer personagens para novelas) e que não consegue ou não quer ver movimentos que estão para lá de figuras.
    Isto é mais problemático para o BE, que vive muito preso à figura do Louçã. É que me pareceu que o estado de graça do Louçã junta da “imprensa burguesa” foi totalmente ao ar depois do debate de terça feira.
    Espero que as próximas semanas nos tragam um bonito panorama…

    Já agora, o Benfica campeão, é imperioso para o progresso.

  3. André diz:

    Oh JCD és um ganda reaça, e nota-se logo que, tal como os reaças, andam todos com o buraquinho apertadinho e borradinhos de medo. Ai Ai vão voltar os comedores de meninos!! \o/

  4. antónio sousa diz:

    -Tretas de pequeno burguês, é o que é, e ponto final.

  5. Pedro Penilo diz:

    Muito bom artigo, Zé. Até breve!

  6. Luis diz:

    “É que me pareceu que o estado de graça do Louçã junta da “imprensa burguesa” foi totalmente ao ar depois do debate de terça feira.” ????

    Está equivocado. Viu a rapidez com que a SIC-N chamou logo o Daniel Oliveira para (a pretexto de comentar o debate Jerónimo/MFL) explicar muito bem explicadinho a “bondade” da eliminação dos benefícios fiscais proposto pelo BE?

    Até hoje ainda não vi um único comentador da área da CDU a comentar os debates. Mas o do BE já se estreou…

  7. Sem ofensa e um tanto ou quanto na brincadeira, esta prosa fez-me lembrar a anedota do espanhol que prometeu servir ao amigo um café bem quente e saboroso.
    – Qué tal?
    – De caliente bueno, de café una mierda!
    Sem ofensa, repito

  8. Manuel Resende diz:

    Muito bem, meu! fixe!

    Desculpa lá, é só o que se me oferece dizer

    manel

  9. Cheesplayer diz:

    “Já agora, o Benfica campeão, é imperioso para o progresso.”
    pois e o PC vai nessa?

  10. Cheesplayer diz:

    ops, PC, sabem de quem estou a falar…

  11. Atma diz:

    Uma soma de 23% é o que eu desejo!

    E viva o Naval 1º de Maio.

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