Sócrates, Vital Moreira e Louçã

Acerca da forma precipitada e demagógica como Sócrates comentou o programa do BE, vale a pena acrescentar o seguinte. Contra a despenalização das drogas leves, argumenta-se muitas vezes com base na tese da escalada: fumas um charro, logo darás na veia. Trata-se, obviamente, de uma tese simplista e equívoca, constrúida de frente para trás. No cúmulo, levaria à interdição do leite materno, porque uma pessoa começa por aí, passa à coca-cola, depois à cerveja, depois ao tabaco, depois ao charro e finalmente encontra a sua redenção na veia. Ora, o papão anti-comunista que Sócrates agitou a propósito do tema das nacionalizações é animado pela mesma lógica: segundo muitos dos críticos das propostas bloquistas e comunistas de nacionalização da economia, estas propostas visam nacionalizar a GALP ou a EDP mas logo acabarão por nacionalizar tudo e mais alguma coisa, das cuecas da prima à bengala da avó. 

Já no que se refere à questão dos benefícios fiscais, descobrimos agora, e por memória do Vítor Dias, que a proposta do Bloco é bastante parecida à que foi feita, há pouco tempo atrás, por essa figura cimeira do radicalismo esquerdista, seu nome Vital Moreira.  Com a diferença, parece-me, que Vital Moreira não defendia a gratuitidade dos serviços públicos, como defende o programa do Bloco.

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8 respostas a Sócrates, Vital Moreira e Louçã

  1. órélio diz:

    ó está a gozar ou está tonto.

    se alguma coisa, o artigo do Vitor Dias demonstra à saciedade quão descabida é a proposta do bloco. E isto simplesmente porque, como o próprio artico elenca, são múltiplas as despesas não abrangidas pelos serviços públicos – desde livros escolares até às … vale a pena citar in extenso:

    “Na verdade, não sei como é que alguém, em Abril de 2006, consegue falar, a respeito de Portugal, de “serviços públicos de educação e saúde gratuitos” ignorando as despesas com livros em todos os graus do ensino e as propinas no ensino superior público; as múltiplas taxas moderadoras na saúde (por consulta, por análises -uma taxa para cada uma e, às vezes, os médicos mandam-nos fazer 10, 20 ou mais – e outros exames complementares de diagnóstico); a muito pesada e agravada comparticipação dos cidadãos nas despesas com medicamentos; as despesas com medicina dentária ou compras de óculos que são coisas que o sistema público não abrange nem assegura, e tudo isto para já não falar das múltiplas situações em que, por razões de urgência, aflição ou listas de espera, até muitos cidadãos de baixos ou médios rendimentos, se vêem obrigados a recorrer ao serviços privados de medicina.»

    isto é o que vem no texto do Vitor Dias.

    Agora, ou bloco explica como pretende anular todos estes descontos, que, repito, não passam por “fornecedores” públicos, ou a medida, essa sim, é fantasiosa. Porque o pressuposto é haver uma educação e saúde gratuitas, ora como diz o texto do Vitor Dias, não basta abolir as taxas moderadoras ou acabar com as propinas.

    Para que tivesse algum efeito, teríamos que pressupor um mundo onde a maioria destes serviços fossem concedidos pelo estado, ou seja, qualquer coisa que se aproximasse de uma economia planificada. Só um exemplo: os livros escolares. As editoras teriam que ser directamente financiadas pelo estado, assim como as gráficas, assim como as distribuidoras…e por aí afora.

    a proposta do bloco é um passo maior do que a perna e não é consistente com a distribuição social de recursos do sistema em que vivemos.

    Agora, se a ideia é ter uma economia planificada, então esta deve ser explicitada…

    (desculpem o tamanhão do comentário)

  2. órélio diz:

    e lembrei-me doutra: a choque da procura através da reabilitação urbana. Não apenas, como alguém sublinhou, estas são actividades que geram pouco ou nenhum valor acrescentado, como uma medida destas de nível nacional significava entregar a economia ao lobbi da construção. Ou seja, às Moto Engis, desta terra…

    não se percebe, por um lado critica-se a política do betão e das grandes construtoras, por outro, entende-se como investimento do estado a privilegiar a reabilitação urbana.

    mas quem é que Louçã julga que vai fazer a dita reabilitação urbana? O Ti Manel da mercearia com a ajuda da cooperativa Sol do Gaio, de Vila Pouca d’Aguiar? Ou vamos todos, em romaria de “comuns” com um martelinho e um escopro alegremente reabilitar os nossos bairros pro bono?

    convinha que estas coisas fossem explicadas, sob pena de não passarem por ser mais do que fantochada!!!

  3. JRV diz:

    Bom post. Na muche.

  4. zé neves diz:

    órélio, nem eu estou a gozar nem você é tonto. acho é que comete o mesmo erro que Sócrates cometeu. Os programas eleitorais não podem ser lidos às mijinhas. Tudo aquilo – não juro mas quase – que você refere como sendo despesas na área da educação e da saúde que estão descobertas pela provisão pública está previsto que passe a ser. O fim das taxas moderadoras, a gratuitidade dos manuais escolares, até mesmo a sua ida ao dentista. o que o vítor dias escreve acerca do Vital Moreira 2006 não se aplica, por isso, parece-me, ao Bloco. cumprimentos.

  5. viana diz:

    O orélio não percebe bem aquilo que escreve. Vejamos “Para que tivesse algum efeito, teríamos que pressupor um mundo onde a maioria destes serviços fossem concedidos pelo estado, ou seja, qualquer coisa que se aproximasse de uma economia planificada. Só um exemplo: os livros escolares. As editoras teriam que ser directamente financiadas pelo estado, assim como as gráficas, assim como as distribuidoras…e por aí afora.”

    Em primeiro lugar: a educação e a saúde já são concedidas pelo Estado. Existe um SNS e um sector público da educação que vai do pré-primário ao superior. Não é totalmente gratuito? Devia ser. É o que o BE propõe.

    Em segundo lugar: onde é que a subsidiação dos manuais escolares escolhidos pelas escolas, ou até pelo ME, implica uma financiamento directo do sector editorial?! É simplex: todos os anos (ou de X em X anos) as editoras propõem os seus livros; escolas ou ME escolhem os mais adequados; o Estado compra os que formem necessários (alguns serão aproveitados de anos anteriores). Onde é que isto implica um financiamento directo do sector editorial?! Está a fazer-se de parvo, ou é apenas defeito intelectual?…

    Quanto à reabilitação urbana: sabe quantas empresas da construção civil existem em Portugal? Dezenas de milhares. Com uma capacidade instalada muito superior às maiores empresas do sector como a Mota-Engil do Coelhone. Evite andar a repetir o que houve por aí e deixe de escrever sobre o que evidentemente não percebe.

  6. órélio diz:

    não me estou a fazer de parvo, mas parece que você me está a tomar por tal.

    A subsidiação nada tem a ver com tornar um sector integralmente público – por isso é que se chama subsidiação. É por isso também que os tais dos manuais escolares aumentam de preço anualmente, assim como os dentistas, etc. Chama-se inflação.

    Se BE quer cortar os benefícios fiscais tornando tudo público terá que explicar como é que suporta estes custos. A subsidiação é uma comparticipação que tem, malgrê as crenças no milagre da nossa senhora de fátima a que os adeptos do BE parecem ser atreitos, um tecto, um limite, etc.

    sou a favor de uma saúde pública e de uma educação pública – gostava é que me explicassem como é que o Estado se responsabiliza por todos os custos inerentes aos dois sectores.

    Mais uma vez, pra ver se a gente se entende: uma universidade não são só propinas, são livros (caros, em alguns ramos impossivelmente caros) são computadores, são calculadoras, etc.

    Educação pública? Muito bem. Paga o estado todas as despesas inerentes, já que me vejo privado da possibilidade de as deduzir. Mas suponho que tenha que ir buscar aos impostos. Donde o acréscimo que o consumidor paga no privado é apenas transferido para a carga fiscal.

    se conhecerem outra forma, agradece-se esclarecimento…

  7. zé neves diz:

    Orélio, o Estado tem outra fontes de receita que não as fiscais. Mas eu acho que a esquerda deveria assumir claramente a necessidade de aumentar a receita fiscal do Estado e se preciso for aumentando impostos. Dir-me-á, então, que o acréscimo que o consumidor paga ao privado é apenas transferido para a carga fiscal. Sim, mas a carga fiscal deverá obedecer a um príncipio de redistribuição do rendimento que deverá ser bastante mais pronunciado do que o actualmente existente. Deixo para depois uma discussão que mais me interessaria em torno da questão do público e do Estado como únicas alternativas ao privado – o que não acho que seja o caso.

  8. maria alberta diz:

    Bom dia,

    Eu não era para entrar nesta discussão!

    Mas parece-me que existem aqui dualidades falidas, a saber;

    1- A primeira onde reside a teoria que o Estado deve assumir a responsabilidade pela Educação, saude, etc da população.

    2- A segunda que focaliza a transmissão ao sector privado das supostas atribuições do Estado face à população.

    Verifica-se no entanto, que qualquer destes dois esquemas sociais já abortaram no “Crash” Socio economico que se vai assistir ainda com mais intensidade, e onde apenas o grupo das “corporações” poderosas vai persistir a este derrame social, face a um sector Estatal que cada vez mais vai manifestando a sua insignificancia quer prática, quer teorica…na administração territorial e social, etc…

    Resumindo, parece que os Modelos de Intervençao Social que se estão discutindo estão gastos e falidos… Seria mais interessante buscar um novo Modelo Organizativo da Sociedade uma vez que os anteriores estão moribundos e em nada contribuiram para o bem estar da população!

    Saúde.

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