Saulo & Sigmund

Carlos: sabemos que a Paulo é geralmente atribuída a primeira menção à ressurreição de Jesus Cristo. Mas não me parece provável que tenha sido ele, historicamente, o primeiro a criar o tal desvio, pegando nesse aspecto da fábula e elevando-o a bandeira principal da nova Igreja. Muitos exegetas bíblicos encontram nas epístolas de Paulo a fixação de tradições orais anteriores. E, mesmo que expliquemos essa posição pelo desejo de provar um Cristo histórico, custa a crer como é que Paulo se encontraria, no concílio de Jerusalém, com uma Igreja já bem organizada. Por certo que os cristão primitivos se teriam farto de esperar, após 17 anos, pelo retorno do seu messias, caso esse evento miraculoso não estivesse já cartografado nos anais do mito nascente. Palpita-me que Maria Madalena tratou, logo na altura, de espalhar a boa-nova (ou mistificação, conforme o ponto de vista).
De qualquer forma, não me parece grandemente abonatório do marxismo (com ou sem hífen) que tragas à colação dois símiles ligados a fantasias simpáticas mas com uma coalescência com a realidade bastante… imaginativa, para dizer o mínimo: a psicanálise e o cristianismo.

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8 respostas a Saulo & Sigmund

  1. órélio diz:

    este tem estado a viver em Plutão nos últimos 30 (40?) anos…

  2. Carlos Vidal diz:

    Saulo de Tarso é o apóstolo que não conheceu Cristo (a luz da estrada de Damasco é três anos posterior à crucificação).
    Foi naturalmente o “substituto” de Judas, ocupou-lhe o lugar depois da morte. Já como Paulo, formatou a estrutura piramidal e organizativa da igreja.
    – as suas “traições” ou heresias são várias:
    1. rasurou a Incarnação e Imaculada Concepção, não se interessou pelos milagres de Cristo (que um marxista como Terry Eagleton, na introdução aos evangelhos numa colecção de textos revolucionários da Verso, vem dizer que não eram propriamente milagres mas sim metáforas)
    2 – Além do mais a prova de que Ele era o Filho do Homem está em Paulo no momento subsequente à ressurreição: não a antecede (ou seja, não interessa a Paulo que Cristo diga que é o Filho). E todos os outros seguidores do “Mestre” não punham essa hipótese – Cristo, diferentemente da concepçãp de Paulo, era a priori o Filho de Deus (Santo Agostinho explica muito bem este mecanismo da crença, que é eminentemente antiocular). Para Paulo não – apenas o foi depois da ressurreição, pelo facto de poder ressurgir.
    3 – É curioso, mas Lacan segue Freud à letra (Freud disse sempre que o inconsciente não podia falar, Lacan pareceu afirmar o contrário: mostrando-o como linguagem, tendo, para tal, partido de Freud – que leu a “linguagem” do inconsciente na Interpretação dos Sonhos), dizia eu atrás: enquanto Lacan seguiu Freud à letra, Paulo não se interessou por nenhum facto da vida de Cristo anteriormente à ressurreição (nem se interessou pela Concepção Imaculada).
    – São três tópicos importantes. As Epístolas comprovam-no.
    Além do mais, um outro ponto:
    4 – Paulo sempre disse que a sua religião não pertencia a ninguém, nem a romanos nem a judeus: há em Paulo um corte duplo – não interessa a vida de Cristo, não interessa a matriz judaica.
    É por aqui que vou na leitura que proponho.

    Além disso, há outro ponto: estas três “descobertas”, cristianismo, marxismo e psicanálise são propostas como eminentes heresias judaicas, ou posturas judaicas “imperdoáveis” por autores tão díspares como Zizek e, principalmete, Georges Steiner.

  3. Carlos Fernandes diz:

    … mas o Sigmundo não era cristão, era judeu. Quanto a Cristo ser Deus ou não, depende da fé de cada um, e isto não é (misteriosamente) por muito que queiramos, racionalizável . Tal como o Diabo existir ou não. Quanto aos ditos universos especulativos e imaginativos, mas LR, não fosse o bom do Freud ter tido o sobrinho que teve (considerado o “pai” da publicidade americana) e hoje -sec.xxi-não teríamos lido uma única linha sobre as suas teorias (hoje muito desacreditadas), e os seus livrecos estariam perdidos no pó algures num quarto ou sotão vienense…

  4. Luis Rainha diz:

    1- Paulo e a Imaculada Conceição? Por favor; esse dogma data do século XIX. Quanto aos milagres, bastará relembrar que o próprio Paulo executou um bom número dessas “metáforas” (hã?) e ainda chamou à ressurreição o “milagre dos milagres”, o que parece denotar, no mínimo, admissão e respeito pelos anteriores.
    2- O aspecto basilar da Ressurreição de Cristo antecede Paulo. Aliás, nem se imagina como poderia uma tal Igreja subsistir sem essa evidência inscrita no seu mito fundador. O concílio de Jerusalém é a prova de que a igreja já medrava, mesmo sem Paulo. Crenças messiânicas abundavam na altura, mas só a fé cristã sobreviveu.
    3&4- O vida e a agonia de Cristo sempre foram apresentadas por Paulo como um sustentáculo da fé e da praxis cristãs, como se vê na segunda carta aos coríntios: «trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos. E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossa carne mortal.» Ele apresenta a Ressurreição como o início da fé, mas não estou nada a ver onde é que ele afirma ou insinua que Cristo só foi Filho de Deus «depois da ressurreição». Por fim o que tem a psicanálise ou o marxismo de imperdoável para os judeus?

    E, de qualquer forma, onde está o tal “desvio” que teria sido crucial no apport de Paulo à Igreja?

  5. Carlos Vidal diz:

    Não são imperdoáveis para os judeus, são, dirá Steiner, factos que levam os judeus a não terem descanso nem perdão.

    Luís, quando se diz ter sido a ressurreição o princípio da fé, diz-se que ela (a fé) não lhe pré-existe. Aí se sustenta o meu comentário.
    (O judeu imperdoável é uma ideia do Steiner, não minha – e não acho necessário is buscar o “Errata” para transcrever a citação completa).

  6. Justiniano diz:

    Rainha. Meu presbítero, a tua(sua) litania, por vezes desengonçada pelo habitual tinto jacobino, está correcta, claro está, na parte que abona à equivalencia entre a gnose e a ortodoxia da Santa Igreja de Roma.
    Mas, creio eu, que a correcta interpretação, seguindo os enredos, de “desvio”, seria a da institucionalização do cristianismo através da Igreja de Roma (S.Pedro e S.Paulo) superando a experiencia da comuna de Jerusalem.
    Se outra for a interpretação, tanto pior, paciencia.

  7. órélio diz:

    o Luis Rainha está a discutir isto como se o Vidal fosse o excelso proponente da relação entre política (de verdade) e o S. Paulo.

    Ora o meu comentário inicial ia justamente no sentido de assinilar que o CV está a beber num vasto património…recente. Desde Agambem, passando por Ranciére e acabando – em paroxismo -, em Badiou…
    (e outros muitos que seria exaustivo mencionar…)

    logo, esta discussão é meramente blasé e absolutamente desinteressante para o argumento de fundo.

  8. Luis Rainha diz:

    órélio,
    Se você prefere discutir textos em segunda ou terceira mão, é lá consigo. Mas o que motivou este post nada tem a ver com “política (de verdade) e o S. Paulo” (??). Trata-se apenas de questionar a ideia de que Paulo foi o “descrente que fundou o dogma central da religião cristã”. O que pode o seu “vasto património… recente” acrescentar ou retirar a esta questão?

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