Atoarda nocturna sobre a pertinência de Saulo ou do hífen unificador do m-l em Portugal (na sequência de alguns posts anteriores)

Inculto = sem cultura, ou, neste caso, fazendo tábua rasa da cultura (que é sempre necessariamente injusta, porque premeia sempre os vencedores, sacrificando também sempre os autênticos, ou, mais precisamente, os mais infelizes de entre os autênticos, que não fazem mais do que petite histoire); a incultura supõe que a história pode viver sem mito, sem transcendência colectiva, na pura imanência do indivíduo – que é, evidentemente, uma criatura Histórica com gravíssimas limitações; a incultura supõe as categorias políticas desligadas da identidade – e por isso nunca vai (nem muito menos chega) a lado nenhum.

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SEXTA | António Figueira
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19 respostas a Atoarda nocturna sobre a pertinência de Saulo ou do hífen unificador do m-l em Portugal (na sequência de alguns posts anteriores)

  1. ezequiel diz:

    Caro António

    a “incultura” não pode supôr coisa alguma.

    abraço,
    z

  2. António Figueira diz:

    Z,
    Permite-me uma aclaração:
    “a incultura permite supor”
    Abraço,
    A.

  3. A “incultura” é pouco menos que um barrete que só fica bem ao(s) outro(s).

  4. ezequiel diz:

    Caro António,

    Então podemos falar de uma suposição destituida de cultura?

    Faz bem ler Wittgenstein, António.

    abraço
    z

  5. António Figueira diz:

    Manuel Correia,
    Eu escrevi inculto, não escrevi ignorante.

    Z,
    Sinto muito, mas o problema não é de lógica formal, é de português (da língua realmente existente, que contamina – culturalmente… – o rigor dos conceitos): “o inculto supõe que a história pode viver sem mito…”, ou “aquele que faz tábua rasa da cultura supõe idem idem”, ou “a incultura permite supor que…” – nenhuma destas três formulações insulta a memória de Wittgenstein.

    Abraços, AF

  6. Justiniano diz:

    Caro Figueira-
    “..a incultura supõe que a história pode viver sem mito, sem transcendência colectiva, na pura imanência do indivíduo” terá isto alguma relação com o discurso do BE??

  7. António Figueira diz:

    Caro Just,
    Não conheço suficientemente o discurso do BE para saber responder-lhe; o trecho de frase que cita exprime apenas a minha convicção de que as massas são e conseguem muito mais do que a simples multidão.
    Cumps., AF

  8. zé neves diz:

    antónio, transcendência implica colectivo e imanência implica indivíduo? e o mito implica necessariamente identidade? não sei de que massas falas e a que multidão te referes, de qualquer dos modos, do ponto de vista de uma história conceptual, o problema será mais complicado do que a simples oposição entre massas e multidão. Eu diria, perguntaria, se não estarás de acordo em que o mais interessante será um conceito de massas ou de multidão que supere a dicotomia indivíduo-colectivo. Quanto ao mais, tenho muita dificuldade em conceber a transformação dependendo da ideia de identidade. A questão é complicada, bem sei, mas a ruptura e a sua possibilidade implica uma não-identidade. O proletariado será fixe na medida em que for inculto (que também não confundo com ignorante).
    cumps, zé neves

  9. António Figueira diz:

    Zé, e por partes: um colectivo distinto da mera soma das partes que o compõem tem sempre uma personalidade própria e, por definição, uma personalidade colectiva é uma ficção que se refere sempre a uma qualquer espécie de transcendência; o mito não implica necessariamente identidade, mas a génese da identidade (de qualquer identidade social) dificilmente dispensa o mito (suponho que não precises de exemplos); a transformação não depende da ideia de identidade: não creio é que se faça contra ela, nem fazendo dela tábua rasa (não, não acho que a possibilidade de ruptura implique necessariamente uma não-identidade). O hífen do m-l tem um papel meta-político em Portugal, porque é um dos elementos constitutivos de uma identidade social muito mais vasta e significativa que o próprio m-l (paradoxo apenas aparente). Abraço, AF

  10. Justiniano diz:

    Caro AF
    Será que…!? – massas- (homogeneidade – História comum -mito consagrador da identidade)
    multidão – (atomística heterogenea – até aos limites imanentes do individualismo – renúncia ao ritual) – Totalitarismo vs Individualismo liberal ou associação vs sociedade ou provincial vs comospolita…

  11. ezequiel diz:

    Não, caro António,

    estás a usar os conceitos errados para descrever ou interpretar.
    o que eu pretendia dizer é que “inculto-incultura” é um conceito que não corresponde a um “estado de coisas”

    se a incultura permite supôr
    não pode ser incultura
    todas as suposições tem um conteudo cultural (lingua, tradições, regimes semânticos)
    logo, todas as suposições são intrinsecamente culturais porque fazem parte dos “jogos de palavras” de que wittgenstein falava.

    a questão que eu levanto n tem que ver com lógica formal. tem que ver com o nonsense de se aplicar o conceito de incultura a uma suposição. se presumires que a incultura é a ignorância, então a coisa muda ligeiramente. mas não muito, porque até as mais elementares formas de ignorância são fenomenos culturais.

    ou seja,

    a incultura não existe no dominio social.
    a ignorância sim, mas nunca destituida de cultura.

    “uma personalidade colectiva é uma ficção…”

    a personalidade colectiva é uma ficção porque transcende a mera soma das partes? repara naquilo que estás a dizer, caro António: é uma ficção porque transcende as partes, é maior do que as partes, ou não é uma sintese ou soma de todas as partes (se fosse uma soma perfeita de todas as partes não seria transcendente????)

    a personalidade colectiva não é e nunca foi uma ficção. é real, sentida, explorada por escritores, invocada por ditadores e usurpada por demagogos. é muito real. é sentida pelos cidadãos, usada pelos políticos e usurpada pelos demagogos. tratar a personalidade colectiva como uma fição apenas porque não é a soma perfeita de todas as partes (um argumento de insuficiencia) parece-me absurdo.

  12. ezequiel diz:

    errata: desculpas. queria colocar a frase noutro sitio mas esqueci-me de a apagar do “lugar” anterior. (usurpada pelos demagogos…bla bla bla)

    Caro António,

    como deves saber, uma das grandes lacunas do pensamento soviético foi precisamente a sua incapacidade de pensar o fenomeno da “personalidade colectiva”.

    a personalidade colectiva não assenta na soma de atributos individuais. a transcendência resulta, estranhamente, da consciência que o “meu” atributo x (a minha lingua, a farinheira e o bacalhau. o benfica e o sporting, os comentadores hilariantes de futebol…enfim, todas as peculiaridades de uma realidade COMPARTILHADA (deep codes of the cultural subconscious) pertecne a outros também…

    é um reinventar da familiaridade

  13. senil@gmail diz:

    Desta vez com quem se quiz estar e o que se quiz dizer por aqui…

  14. ezequiel diz:

    António

    imagina-te a correr pelas ruas de Lisboa a berrar liberdade no 25.

    todos e tudo cá fora. a rir. a berrar felicidade. olha à tua volta? quem é que está ali? é a tua comunidade? mas será apenas a tua comunidade? é mais do que isso. o que é o mais??

  15. António Figueira diz:

    Just & Z,
    respondo amanhã (cheguei agora a casa, e falham-me as as forças – se não para ler “o homem que fingiu estudar engenharia”, quelle trouvaille magnifique!!)
    Abraços, AF

  16. ezequiel diz:

    tou chato hoje.
    espero q leias esta cena amanha

    o inculto = sem cultura NAO existe. n existe humano sem cultura. (a tua definiçao de cultura pode diferir da minha)

    logo, par consequaiiince, o conceito inculto-incultura nao descreve coisa alguma. é um conceito falacioso, destituido de experiencia. eu estava a ver as coisas de baixo para cima, compa. pior do que glorificar o formalismo da lógica é aplicar os conceitos puros na interpretaçao da realidade. presumir que o inculto existe porque o conceito de “incultura” existe. words are very misleading.

    eu n acredito num homem inculto.
    da mesma forma e pelas mesmas razoes q n acredito na existencia de um homem que n deseje comunicar, etc.

  17. António Figueira diz:

    Desculpem o atraso.
    Caro Just,
    Tudo o que diz me parece aproveitável – excepção feita à palavra “totalitarismo”, que acho que não serve para nada.
    Caro Z,
    i) é evidente que não há pessoas “incultas”, com excepção daquelas criancinhas educadas por lobos que aparecem na Floresta Negra todos os séculos; mas há pessoas que pensam a política fazendo tábua rasa da cultura – e é essa incultura que “pressupõe”;
    ii) não sendo eu propriamente um positivista jurídico, sou no entanto forçado a reconhecer que a pessoa colectiva é de facto uma ficção legal, que imita a pessoa física: também tem uma data de nascimento e de morte, uma vontade e uma acção, etc, etc; dito isto, não deixo também de reconhecer que é uma ficção COM SENTIDO, e por isso mesmo existe em todas as ordens jurídicas;
    iii) gosto do tua expressão “reinventar da familiariedade” – porque, é evidente, de uma maneira ou de outra, andamos todos à procura de “comunidade”, de uma grande cama comum onde nos deitarmos (o Hobsbawm, nas Memórias dele, diz que a experiência de uma manif, coesa e combativa, é o que mais aproxima uma pessoa da plenitude afectiva e sensorial do sexo – uma espécie de second best, faute de mieux;
    iv) e voltando ao raio do hífen do m-l, onde tudo isto começou, penso justamente que o m-l, de que o Zé Neves não gosta e cujos méritos ou deméritos não interessa discutir agora, é, no caso português, incontornável na medida em que está presente na matriz do segmento mais antigo e mais combativo (e por isso mesmo mais icónico e mais propiciador de mitogénese) do povo de esquerda português – dessa identidade social que, como eu disse antes, “é mais vasta e significativa que o próprio m-l”.
    Espero ter conseguido ser claro.
    Abraços, AF

  18. ezequiel diz:

    António

    terei o maior prazer em responder. mas hoje n posso.

    foste maravilhosamente claro.

    como sempre.

    na segunda digo alguma coisa.

    abraço
    z

  19. ezequiel diz:

    Caro António,

    “mas há pessoas que pensam a política fazendo tábua rasa da cultura – e é essa incultura que “pressupõe”

    Antes de avançar, gostaria de perguntar o seguinte: Como definirias “cultura”? Fazer tabula rasa da cultura parece que hoje é uma prática cultural bastante comum eh ehe h (acho que percebes onde quero chegar).

    Ficção? Será uma ficção com consequências muito palpáveis. Com consequências tão palpáveis que podem nos levar a pensar que a ficção pode ser bastante real. (vide guerra iraque) Ficção?? A ficção disseminada em pequenos panfletos que animou a lévee en masse do Napoleão?? Há ficções que são mais reais nos seus efeitos do que muitos factos e verdades. Cuidado com o termo, António.

    Uma grande cama comum!! Caro António, gosto bt de ti, mas n exageremos. cama comum, não. 🙂 Uma manif como o second best do sexo??? Ve-se logo que és comuna, cos diabos. A revolução dá-te tusa eh ehe he h he he he he he he …

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