num país de sacanas há sempre um sacana disponível para satisfazer a vontade declarada do chefe. o chefe não precisa de mandar, dar instruções em papel selado ou tiros no pé

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas
E todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
Para fazer funcionar fraternamente
A humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
Para além da rivalidade, invejas e mesquinharias
Em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
E ver se se convertem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
Ingénuos e sacaneados é que foram disso?
 
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
Porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
Que a nobreza, a dignidade, a independência,
a Justiça, a bondade, etc., etc., sejam
Outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
A um ponto que os mais não capazes de atingir.
.
 
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então neste país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma
 
Jorge de Sena
 
 
Κύριε ἐλέησον [em vernáculo: Senhor, tende piedade da desempenada estupidez de quem nos toma por parvos]
 
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2 respostas a num país de sacanas há sempre um sacana disponível para satisfazer a vontade declarada do chefe. o chefe não precisa de mandar, dar instruções em papel selado ou tiros no pé

  1. antónimo diz:

    Senhor Santos, a fé é muito bonita. Tanto para uns lado como para outros. A arrogância opinatória que para aqui anda lembra-me a das Manuelas (Ferreira Leite e Moura Guedes), do José Sócrates ou do belenizado Anibal.

    Sena, regressa agora a cavalho com auras de santidade. Era ele que dizia a Sophia: Desiste de tentar o país, salva-te mas é do país.

    Já agora bote também o discursinho do filho da puta, do Alberto Pimenta. Há aí tanto poeta tanto, tanta arte tanta! (com ponto de exclamação enquanto o chico zé viegas não o consegue exterminar)

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