Miguel Vale de Almeida (II)

Há já alguns anos, tive o prazer de ter sido aluno do MVA. Foi uma experiência fascinante, da qual muitos alunos serão privados por obra e graça de quem votar no PS. A cadeira que o MVA leccionava intitulava-se “Corpo, ‘Raça’ e Género” e para mim aquelas aulas não foram um simples conjunto de sessões acerca dos temas que hoje se vulgarizaram sob a fórmula de “questões fracturantes”. Na verdade, era quase indiferente que, em vez de género, o título da cadeira comportasse uma palavra como classes, para dar exemplo de uma temática bem menos apimentada. A “questão fracturante” sobre a qual nos debruçámos durante aquele semestre não dependeu nunca do maior ou menor sex appeal dos “conteúdos programáticos”, este redondo vocábulo que hoje faz o MVA celebrar, com espanto e entusiasmo, o programa eleitoral de um PS cujos sinais de viragem à esquerda continuam a ser considerados insuficientes pelo próprio MVA. O que se discutia nas aulas do MVA esteve sempre aquém e além dos tópicos mastigados pelos discursos da sociologia, da política, da antropologia, da teoria. Mais do que género, ‘raça’, classes, identidades, unidade, linhas divisórias, modernidade, esquerda, direita, o que ali discutíamos era o processo da formação desses discursos e as relações de poder neles inscritas. Não se tratava de um exercício puramente académico ou científico, isso não existia com o MVA, mas de um trabalho intelectual que, não sendo doutrinário ou propagandístico, nos interpelava de tal modo que se tornava indissociável de qualquer praxis. Aquelas aulas eram demasiado boas para que as dúvidas aí suscitadas pudessem permanecer no interior das paredes da sala. Por isso, as aulas do MVA, e muitos dos seus escritos, deram sempre novo ânimo à minha filiação numa tradição de intervenção em que a forma de acção política é indissociável dos “conteúdos programáticos” avançados por essa mesma política. Uma tradição que, para mim, apesar e por causa dos séculos XIX e XX, apesar e por causa da minha experiência pessoal, faz sentido definir, não só mas também, como uma tradição comunista – isto para usarmos uma palavra que o MVA tem vindo a rejeitar com um fervor crescente. Nas aulas do MVA nunca deixou de estar em jogo um problema também ele inerente à história do movimento operário e do socialismo: na verdade, desmontávamos, sessão após sessão, os saberes e os poderes de quem falava em nome de. De quem, em nome do progresso dos brancos, falava em nome do atraso dos negros. De quem, em nome da civilização familiar, falava em nome da promiscuidade homossexual. De quem, em nome de uma identidade masculina, falava em nome de uma imaturidade feminina. Para um militante comunista, é claro, tudo isto trazia à superfície outros problemas e outras soluções, nomeadamente em relação aos partidos que, em nome da classe, falavam contra a falta de consciência da classe. Após ter sido seu aluno, mantive-me perto do MVA e hoje tenho por ele um respeito intelectual e uma estima pessoal que não está minimamente em causa. Creio, aliás, que este sentimento será partilhado por muitos dos que, à esquerda do PS como no movimento LGBT, não irão seguir os apelos do MVA para que votemos Sócrates. E desde há muito tempo, pelo menos desde um debate que tivemos no ISCTE, e no qual também participou o Vítor Dias, que eu estou mais ou menos ciente de tudo aquilo que politicamente me aproxima ao MVA e do muito que separa. Entretanto, é também verdade que agora, ao ver o MVA na bancada parlamentar do PS, receio que aquilo que nos separará se agigante um pouco mais, porque em causa estará a forma da acção política. Vi, há já algumas semanas, uma reportagem televisiva da sessão de apresentação do Programa do PS. Na ocasião, Sócrates falava do palanque, dizendo que “nós contamos com os Portugueses”, que “os Portugueses farão aquilo”, que “o Progresso avança e o Atraso retrocede”, e outros slogans acerca da necessidade de “Avançar Portugal”; e vi o MVA sentado, a aturar aquilo tudo, enquanto eu sempre o imaginei ali mas a criticar a retórica identitária e o seu clamor nacionalista, o palanque e a sua natureza conservadora, o discurso estereotipado e os chavões da ordem e do progresso. Dir-se-á que uma crítica destas não tinha qualquer cabimento numa ocasião daquelas. Mas este é justamente o problema.

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