Miguel Vale de Almeida (I)

Este post do MVA parece ser um simples esclarecimento à imprensa mas é mais importante do que isso. Entre outras coisas, dá conta de uma sua incomodidade ante estratégias de apropriação partidária de uma agenda LGBT. Temo, no entanto, que este incómodo seja insolúvel: ou o MVA se acomoda lá dentro no PS ou continuará a sentir-se incomodado mas fora do PS. Posso, é claro, estar enganado, e o PS modificar-se muito nos próximos tempos, mas parece-me que a lógica político-partidária em que o MVA agora se envolveu fará com que ele retome, com redobrado fulgor, as inquiteções que, em bom rigor, haviam levado ao seu afastamento do BE, há já alguns anos atrás. O lugar do MVA no movimento LGBT é, salvo as diferenças de escala dos movimentos, semelhante ao lugar que Carvalho da Silva ocupa no movimento sindical. Ambos são o rosto mediático dos movimentos e, no caso do MVA, esta identificação acentuou-se ainda mais depois da sua saída do BE. E se sobre Carvalho da Silva, apesar das diferenças políticas que se lhe reconhecem em relação à actual direcção do PCP, pairam sempre suspeitas que tendem a reduzir o movimento sindical a uma mera “correia de transmissão” do PCP; no caso do movimento LGBT e do PS, não haverá muitas razões para que não acabe por suceder o mesmo. Até porque, à fragilidade do movimento LGBT em relação ao movimento sindical, temos que somar o facto do PS, em relação ao PCP e ao BE, estar muito mais engrenado numa lógica estatocêntrica, para a qual vida política é igual a vida institucional (redução aqui exemplificada pelo Hugo Mendes, para quem política é sinónimo de consenso e e antónimo de conflito).  Quando me disseram que o MVA seria deputado do PS, não gritei “traição”, mas também não julguei que a sua decisão fosse o resultado compreensível de um mero compromisso entre o PS e a agenda LGBT. Não só esta agenda tem mais pontos do que a agenda política do MVA, como a própria agenda política do MVA tem muitos mais pontos além da questão LGBT. Em última instância, tanto me surpreende que o MVA apoie um partido que votou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como surpreende o facto de ele apoiar um partido que reduziu as quotas da imigração e tem a política de nacionalidade que se conhece (e já não falo de questões laborais). Na verdade, por mais que tente entender as razões apresentadas pelo MVA, continuo sem compreender a sua decisão de entrar para as listas do PS. Entrar na esfera do PS não significa apenas optar por um programa ou por um líder. Isso é o menor dos problemas e o meu problema com o PS não tem tanto que ver com o seu líder ser ou não ser Sócrates – como ali expliquei. Entrar na esfera do PS é participar numa cultura política na qual é muito difícil respirar criticamente. Isto também é verdade, é claro, para os outros partidos, mas a voracidade de PS e PSD é única e aqui não há diferenças programáticas que interessem. Se aceito o argumento do MVA segundo o qual haverá no grupo parlamentar do PS uma pluralidade político-ideológica que não deverá ser menosprezada e que ele poderá influenciar positivamente, já não compreendo como o MVA poderá vir a conviver com os comportamentos éticos diferentes que diz existirem no PS. Tal como o MVA, eu sou contra críticas moralistas, por vezes feitas pelos partidos à esquerda do PS, críticas que, longe de serem sinal de radicalismo, parecem-me o contrário, isto é, parecem-me operar a substituição de análises radicais aos modos de fazer e em seu lugar tratam de proceder a acusações fulanizadas preocupadas em identificar modos de ser. Entretanto, ser contra o moralismo não significa que, em nome do que quer que seja de mais progressivo que julguemos vir a conseguir obter, tenhamos que habitar a casa de um grupo parlamentar em que existem comportamentos éticos diferentes.

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2 respostas a Miguel Vale de Almeida (I)

  1. fcl diz:

    Parabéns pela lucidez deste seu comentário/crítica à postura do MVA

  2. /me diz:

    Julgo, sem poder na realidade saber, que a posição do Miguel Vale de Almeida se resume a isto: ele tinha de tentar. Quase de certeza que sairá desiludido, concordo, mas acho que mostra coragem.

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