À Irene Pimentel

Imagino que a Irene Pimentel esteja a responder às críticas que fiz ali atrás. Ou então estou a pôr-me em bicos de pés. Seja como for, à Irene Pimentel, com sincero respeito, queria dizer o seguinte. O que eu retenho como mais importante na sua resposta é o seguinte: “Não, não penso que algo de terrível esteja para acontecer após 27/9. E se eu dissesse tal tremendo disparate, ou estaria a ser oportunista (o que esforço por não ser) ou a padecer de grave anacronismo (o que é grave numa historiadora). Além disso, se eu estivesse a dizer esse tremendo disparate, estaria a ter a mesma atitude dos que eu critico: aqueles que dizem que vivemos num período de «asfixia democrática» e os que chamam «fascista» a tudo (sem saber o significado da palavra e do conceito), mas que, quando o «perigo fascista» se aproxima, não sabem detectá-lo”. Apraz-me constatar que assim seja. A minha crítica à Irene Pimentel tinha justamente que ver com uma impertinente agitação do espantalho do salazarismo a propósito de Ferreira Leite, agitação que julguei ser feita pela Irene ali e ali. E se aí não é sugerido que Ferreira Leite é Salazar “revisitado”, peço desculpa, sou eu, com toda a certeza, que não fui rigoroso, mas sim precipitado. Entretanto, a Irene Pimentel, num tom crispado que talvez seja desnecessário manter tão em alta, diz que não faz comparações abusivas, mas não resiste a acrescentar que, se as fizesse, à sua cabeça subiria logo “a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder ao erigir os sociais democratas como “sociais fascistas”“. Em relação a isto, duas coisas. Em primeiro lugar, ou o que é devido não impede que a Irene faça comparações, e ela então faz; ou impede e então é melhor mesmo não fazer. Em segundo lugar, manifesto novamente a minha discordância em relação a este tipo de argumentação. Eu também tenho muitas críticas a fazer em relação à estratégia do Partido Comunista Alemão no final dos anos 20 e início dos anos 30 e podemos ficar aqui mil e uma horas a discutir a estratégia de “classe contra classe” e todas essas coisas. Mas eu não escreverei que o PC Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder. Este tipo de afirmação é simplista e remete o historiador para um papel eventualmente legítimo mas que recuso. Em lugar de compreender a complexidade do passado, de procurar reabrir o passado à desordem que o marca, de situar as inúmeras bifurcações e multiplicidades, o historiador e o intelectual surgem aqui como escritores da ordem, de raciocínio continuista, preocupados em estabelecer a continuidade das coisas para além de tudo o que remeta para a discontinuidade, dedicando-se a subsumir e sintetizar o que está disperso numa ordem que entende objectiva, natural ou divina. Nunca vê que é ele próprio, a sua legítima subjectividade, que está a falar quando se diz que os comunistas contribuiram para a chegada do nazismo. Segundo esta lógica, o que mais interessaria reter não seria o antagonismo entre comunistas e nazis (de que a Irene dá conta no seu post, aliás, ao referir que os comunistas alemães foram dos primeiros a ir parar a campos de concentração), mas sim um resultado final, que seria o triunfo de Hitler. O antagonismo não teria “valor” histórico de qualquer espécie; os vencidos são sempre vencidos e a sua história é sempre inútil??!? Por fim, há um aspecto um pouco mais desagradável, mas também menos relevante, no post da Irene Pimentel. Ela classifica os que criticam a sua crítica a Ferreira Leite de serem defensores de Ferreira Leite, vindos “curiosamente de partidos que eu julgaria opostos ao PSD”. Isto é caceteirismo ou, se preferirem, a dialéctica na sua versão mais empobrecedora. Recorda a forma de argumentar dos americanistas que diziam não podermos criticar a intervenção norte-americana no Iraque porque isso significava apoiarmos objectivamente Saddam Hussein; ou dos anti-americanistas que dizem não podermos criticar o regime iraniano porque isso significa apoiar objectivamente o imperialismo norte-americano. Já quanto à minha eventual filiação partidária, não sucede que seja como a Irene diz; ela, é claro, não teria que saber isso, mas poderia optar por não falar do que não sabe. O Simplex deveria parar de achar que toda a gente que critica o PS está ao serviço do KGB. Quem escreve no Simplex pode estar muito convencido da sua heterodoxia, dando-se ao luxo de classificar todos os outros como ortodoxos. Mas deveria compreender que a exaltação da heterodoxia impede a sobriedade que é sua condição. A continuar assim, o Simplex não é sensato nem radical. Redunda num simples caso de extremismo do centro.

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Uma resposta a À Irene Pimentel

  1. António Figueira diz:

    Zé Neves, nunca pensei vir a concordar tanto contigo.
    Fui ler o post original da Irene Pimentel, tem vários comentários a chamar-lhe “brilhante” e “genial”; a mim parece-me pobre e simplista, para já não falar da agressividade que deixa transparecer: para usar uma linguagem que hás de perceber, já não tenta alargar, já só fala para dentro.
    Abraço, AF

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