Fermosa e mal empregada

Menina, nao sei dizer.
Vendo-vos tão acabada*,
Quão triste estou por vos ver
Fermosa e mal empregada.

Quem tão mal vos empregou,
Pouco de mim se doía,
Pois não viu o quanto me ia
Em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
Lindeza tão extremada
Que digam quantos-a vêem:
— Fermosa, e mal empregada!

Tomastes da fermosura
Quanto dela desejastes,
E com ela me guardastes
Pera tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
Matais agora em casada;
Matais de toda a maneira,
Fermosa, e mal empregada.

Dá gosto de ver a sinceridade com que Camões fala da sua dor de corno. Mas na ironia por que o texto nos faz passear fica a retorcida persusão de que nem a dor de corno lhe pertence; concedendo que para determinada sensibilidade masculina qualquer mulher fermosa comprometida é mal empregada, Camões limita-se a constatar da impotência ontológica de um esteta sobre o mundo que não pode possuir. No limite, o marido da senhora sofre do mesmo mal: nenhuma beleza se detém e o corpo outro é sempre o corpo de um Outro. Eis, pois, a fineza da ambivalência naquele “Vendo-vos tão acabada” que a minha edição da Lírica se apressa explicar:

* “acabada: o mesmo que perfeita, extremada em beleza, como adiante se diz.” (replay)

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Uma resposta a Fermosa e mal empregada

  1. luis t. diz:

    A coita de amor…mas os artistas não precisam de ser sinceros nas suas criações.
    Porque quê a verdade? O poeta é um fingidor…
    A arte apenas reflecte a verdade num plano ontológico.
    O resto é emoção recriada ou canónica.

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